domingo, 12 de junho de 2005

Livros [2]


Maalouf Posted by Hello

As Identidades Assassinas, por Amin Maalouf,
Lisboa, Difel, 1999 (ed. original: 1998). 174 pp.

Não é uma novidade, a edição portuguesa tem já seis anos. Mas num tempo de regressos a afirmações identitárias exclusivistas (porque essencialistas), seja no plano dos nacionalismos seja no das etnicidades, importa ler e reler este ensaio. Maalouf celebra as identidades múltiplas construídas nas trajectórias de gente livre sobre as heranças de grupo, exclusivistas, fixadas de uma vez por todas à nascença.
Citação 1 « … com cada ser humano, tenho pertenças em comum; mas ninguém no mundo partilha todas as minhas pertenças ou sequer uma grande parte delas […] // É assim, justamente, que se caracteriza a identidade de cada um de nós: complexa, única, insubstituível, que não se confunde com qualquer outra. Se insisto neste ponto, é por causa do hábito de pensamento ainda tão espalhado, e a meus olhos extremamente pernicioso, segundo o qual, para afirmar a nossa identidade, deveria simplesmente dizer-se: “eu sou negro”; “eu sou sérvio”; “eu sou muçulmano”; “eu sou judeu”; quem alinhe, como eu o fiz, as suas múltiplas pertenças, é imediatamente acusado de querer “dissolver” a sua identidade no caldo informe onde todas as cores se apagam. É, no entanto, o inverso que eu procuro afirmar. Não que todos os seres humanos são semelhantes, mas que cada um deles é diferente. Sem dúvida, um sérvio é diferente de um croata, mas cada sérvio é também diferente de todos os outros sérvios e cada croata é igualmente diferente de todos os outros croatas. » [Maalouf, 1998: 28-29]
Citação 2 « As tradições só merecem ser respeitadas na medida em que são respeitáveis, isto é, na exacta medida em que respeitam os direitos fundamentais dos homens e das mulheres. // Neste domínio [dos direitos fundamentais], será necessário inclinarmo-nos em direcção à universalidade, e mesmo, se necessário, em direcção à uniformidade, porque a humanidade, mesmo sendo múltipla, é, em última análise, uma só. » [Maalouf, 1998: 120-121]
Amin Maalouf nasceu em Beirute (Líbano) em 1949, vivendo em Paris desde 1976. Depois dos estudos em economia e sociologia entrou para o jornalismo. Grande repórter durante 12 anos, realizou missões em mais de 60 países. Antigo director do semanário An-Nahar International e chefe de redacção do Jeune Afrique, dedica hoje a maior parte do tempo à escrita dos seus livros. Entre estes destacam-se As Cruzadas Vistas pelos Árabes (1983), Sarmacanda (1988), O Rochedo de Tanios (1993) e Origens (2004), todos publicados em Portugal pela Difel.
http://www.aminmaalouf.org/