quinta-feira, 7 de julho de 2005

Em defesa das cidades livres

Depois de Nova Iorque e Madrid, Londres. Sempre ataques dirigidos contra vítimas indefesas, sempre cirurgicamente preparados para transformar populações civis em verdadeiros alvos militares, sempre aproveitando os espaços de liberdade para a tentar minar.
O terrorismo é assim. E este terrorismo é deliberadamente assim. Não por se dizer islâmico, mas porque a sua inspiração é o ódio à diversidade cultural. Se há coisa que se pode dizer sobre ele é que — citando a nossa libertação comum da prisão das árvores — tem excesso de raízes. Os autores destes atentados — e os que os desculpam e deles se aproveitam — abominam todas as miscigenações, desprezam todas as diferenças, são, ao mesmo tempo, fundamentalistas, racistas e xenófobos.
Nestas três cidades que são símbolos do cosmopolitismo mundial, o que está sob ataque é a diversidade e a liberdade. O que motiva quem ataca é a sua própria sede de identidade. Com um excesso que mata.
É preciso aprender a lição da estúpida reacção da Administração Bush ao 11-9, para não a repetir no 7-7. Não queremos que estas vidas humanas se tornem em pretextos para guerras que com elas nada têm que ver. Não queremos que estes actos sejam usados para diminuir liberdades e direitos fundamentais, à sombra do medo. Não queremos que se responda ao ódio do outro com o nosso próprio ódio. Através destes bombistas, o passado interpela-nos. Não queremos voltar ao tempo dos zonamentos etnicamente puros, nem da intolerância cultural, política ou religiosa.
Não queremos que as cidades cosmopolitas e livres que a modernidade e o laicismo deram ao mundo caiam ante os golpes que lhes são desferidos, tornando-se em espaços fechados sobre si, da desconfiança e da insegurança. Seria sinal de que os terroristas teriam vencido.
É preciso saber tirar a lição certa destes ataques à humanidade: eles não vêm de nenhuma civilização específica, vêm do ódio ao presente e, sobretudo, ao futuro, de grupos que se projectam em passados míticos. É atacando-os no que verdadeiramente os motiva, que os poderemos derrotar. Usando a força, evidentemente, mas também a liberdade, o factor essencial da nossa superioridade.