sexta-feira, 14 de abril de 2006

Os limites morais no mercado

O representante em Portugal da distribuidora cinematográfica Columbia Tristar Warner, Pedro Espadinha, entende que “não tem mal algum” integrar numa campanha publicitária um concurso em que se pede aos participantes para imaginarem “a tortura mais violenta e/ou engraçada” e enviarem a respectiva resposta por e-mail. Os vencedores do concurso receberam bilhetes gratuitos para a antestreia do filme Hostel.

1. Objectivamente, este concurso desvaloriza a inaceitabilidade da tortura. É, por isso, inaceitável. Mais, ao conceber a possibilidade de a tortura ser “engraçada”, torna-a mesmo aceitável. É, por isso, condenável.

2. Neste acontecimento está em causa a amoralidade do mercado. Enquanto espaço de trocas regulado por critérios utilitaristas, o mercado não tem limites morais. Mas o mercado não age. Quem age nos mercados são pessoas concretas, singulares ou colectivas, que são obrigadas a respeitar tanto a lei como princípios morais e de conduta em todas as esferas da vida. Incluindo quando actuam nos mercados.

3. A tortura é moralmente inaceitável. A sua recusa constitui um dos alicerces do nosso espaço civilizacional. Por isso nos opomos a qualquer tipo de legalização da tortura, mesmo que apenas em condições excepcionais. E por isso, também, nos opomos a todas as iniciativas que a possam tornar mais tolerável. Sejam elas políticas, comerciais ou culturais. A prática da tortura deve ser liminarmente proibida, na ordem jurídica nacional como internacional . A condescendência com a tortura deve ser moralmente condenada e politicamente combatida.

4. Neste caso concreto, exigem-se desculpas públicas, sem ambiguidades, da empresa e do seu responsável em Portugal. E para que esta exigência tenha efeitos convidamos todos os que concordem com ela a manifestarem o seu desagrado junto da empresa por telefone (213,186,400) ou fax (213,161,548). Ou por e-mail se alguém conhecer o endereço da empresa.