domingo, 31 de julho de 2005

CDs [3]


Schubert Posted by Picasa

Franz Schubert (1797-1828),
The Late String Quartets
String Quintet

The Lindsays
Resonance (Sactuary Classics)

A melhor interpretação que conheço de uma obra fundamental: o Quinteto de Cordas de Schubert, pelos Lindsays. De “bónus”, os últimos quartetos de cordas do mesmo Schubert (o 8, e os 12 a 15). Disponível no sítio da Sactuary Classics se indisponível nas discotecas. A bom preço, ainda por cima, tendo em conta que são 4 cds.

sábado, 30 de julho de 2005

4 é mais que 3

Ainda no âmbito do debate sobre a produção científica das universidades, e por sugestão de um comentador, que se reencaminha, um contributo de João Vasconcelos e Costa intitulado “Cuidado com a Bibliometria”. E uns comentários mais, bem como algumas sugestões adaptadas ao relaxamento do Verão.
1. Durante a semana, multiplicaram-se as reacções, nas páginas do Público, ao exercício de Sousa Lobo. Na quarta-feira, Luís Reto, presidente do ISCTE, salientava as diferenças entre ciências sociais e ciências naturais no que aos modos de publicação diz respeito, enquanto Peter F. Lindley, director do ITQB, salientava os defeitos de uma média da produção de diferentes departamentos ou faculdades com produtividade variável. Na quinta, Fernando Pina, professor na FCT-UNL, em artigo intitulado “Ranking ou fraude?”, chamava a atenção para a incomparabilidade de revistas de diferentes qualidades e impacto, mas todas inseridas na base de dados do ISI, concluindo pela necessidade de um novo e mais rigoroso processo de avaliação das universidades, clamando “… sr. ministro, por favor, avaliação já”.
2. Perante todas estas críticas, a reacção. Na sexta-feira, Tiago Santos Pereira, do CES de Coimbra, negava, no Público, ter participado no “estudo” de Sousa Lobo, mas, por outro lado, perguntava, “se ‘contar não chega’, fica em aberto a questão de saber se ‘será útil?’”. Mais adiante, argumentava ainda: “é também num erro semelhante, ainda que simétrico, que podem incorrer as críticas ao presente estudo. Será que por questões metodológicas ou de enquadramento da apresentação de resultados se deve recusar a análise da produção científica portuguesa nesta base de dados internacional?”
Pois é, contar é útil, quanto mais não seja para se saber quantos dedos se tem na mão, ou quantos ovos pôs a galinha da vizinha. Mas contar o quê? Por exemplo, o número de patentes e concluir daí que Tiago Santos Pereira é pouco produtivo? É que é de erros primários deste tipo, é de gracinhas destas, que se fala quando se critica o trabalho de Sousa Lobo, não da dispensabilidade de mecanismos de avaliação internacionais. Pelo contrário, como concluía Fernando Pina, e aqui se subscreve, é urgente que o MCES estenda às universidades um modelo de avaliação similar ao que construiu para os centros de investigação. Não há, nesta posição, qualquer simetria com a de Sousa Lobo!
No sábado, e com o terreno preparado por Tiago dos Santos Pereira, a reacção continuava. José Manuel Fernandes, em editorial intitulado “Horror a factos simples”, proclamava, inocentemente, que “tais indicadores [os de Sousa Lobo], como todos os indicadores, são apenas alguns números…”. Pois é. Também posso fazer uma listagem ordenada de jornais em função da tiragem e concluir que o Público anda mal em termos de qualidade. Números simples, apenas alguns números. Que não usarei porque sei, como todos sabemos, que os números da tiragem dos jornais permitem medir muita coisa, mas não a qualidade dos jornais. Do mesmo modo que os indicadores de Sousa Lobo medirão muita coisa, mas não medem a qualidade da produção científica das universidades.
3. Talvez seja melhor não os levar muito a sério. E entrar no jogo. Se o que importa é, antes de mais, publicar em inglês, porquê trabalhar muito? Sempre se pode tentar cumprir os critérios sousalobistas por vias mais fáceis e, sobretudo muito mais divertidas. Por exemplo, utilizando o gerador de textos pós-modernos criado na sequência do famoso caso Sokal — The Postmodernism Generator. Ou, se trabalhar na área dos sistemas e tecnologias de informação, o SCIgen.
Desenvolvido por três estudantes do MIT (Jeremy Stribling, Max Krohn e Dan Aguayo), o SCIgen é, segundo palavras dos seus criadores, “a program that generates random Computer Science research papers, including graphs, figures, and citations”. Permitiu já, aos três, gerar uma comunicação à Conferência Mundial de Cibernética, aceite pelos organizadores. Na página do SCIgen encontrará ainda links para outros geradores de texto, como o Automatic Systems Research Topic or Paper Title Generator, que gera qualquer “topic suitable for research and as a title of your upcoming Systems paper”. Ou o EssayGenerator, que lhe permitirá obter, em inglês, um ensaio sobre não importa o quê. Eu experimentei, dando como tópico “science rankings” (eu sei que é um pouco ao lado). O ensaio assim obtido terminava com a frase “To conclude, science rankings is, to use the language of the streets ‘Super Cool’. It questions, it stimulates and is always fashionably late.” Embora gerada aleatoriamente, não me parece conclusão de pior qualidade do que muitas das dos sousalobistas…
Aproveite os links e entre na silly season. Este ano um pouco mais cedo, graças a Sousa Lobo, Tiago Santos Pereira e José Manuel Fernandes.

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Estudantes e experiências de trabalho


Percentagem de estudantes com experiência de trabalho antes da entrada no ensino superior (2005)
Fonte: Eurostudent. Social and Economic Conditions of Student Life in Europe. Report 2005, HIS International Studies.
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Esta semana, um dos canhotos (Paulo Pedroso) publicou no JN um artigo sobre a importância das experiências de trabalho dos estudantes para, entre outras coisas, a melhoria das condições de empregabilidade dos jovens.
Em Portugal, os indicadores sobre o tema não são animadores. Segundo um estudo comparativo europeu, só na Áustria é menor a percentagem de jovens com experiência de trabalho antes da entrada no ensino superior. No relatório de 2005 desse estudo (que em Portugal foi realizado por uma equipa do CIES-ISCTE), encontramos um conjunto de indicadores comparativos de grande utilidade sobre os estudantes do ensino superior na Europa. A ele voltaremos.

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Dinossauros de todo o país, uni-vos!

O PCP votou conta a limitação de mandatos dos Presidentes de Câmara. O Partido dos "métodos colectivos" de trabalho, revela a sua vulnerabilidade estrutural ao culto da personalidade ou apenas a mais desesperada incapacidade de se renovar?

Confesso a minha incredulidade

A LUSA diz que José Sócrates e Marques Mendes chegaram a acordo sobre a limitação de mandatos autárquicos.
Para conseguir esta medida, o PS teve que desistir de juntar no mesmo pacote os Presidentes dos Governos Regionais e o Primeiro-Ministro e que aceitar adiar a entrada em vigor da lei.
A desistência, a bem dizer, não existe. Os três cargos só foram juntos pelo PS na mesma proposta para aplacar os seus próprios autarcas que julgavam que, como seria impossível dobrar Alberto João ao PSD, assim se livravam, sem custos, da limitação de mandatos.(Quem tiver dúvidas sobre as posições iniciais do PS pode consultar a Moção com base na qual Ferro Rodrigues foi eleito Secretário-Geral, o Programa Eleitoral do PS em 2002 ou recordar-se de uma célebre Comissão Política Nacional dos primeiros meses de 2003).
O adiamento foi uma cedência necessária. O PSD lembrou-se dela na última hora, provavelmente à espera de conseguir o velho passe de mágica que agradaria a gregos e a troianos. Diria que "não se mudam as regras durante o jogo", o PS estava obstinado e continuaria a "defender" a limitação de mandatos. E tudo ficaria na mesma!
O golpe de rins da Direcção do PS surpreendeu positivamente: recusou todos os pretextos em que poderia ter-se escudado para que esta importante medida de reforma do sistema político não avançasse.
As debilidades de última hora de Marques Mendes, que sempre se mostrou campeão da reforma do sistema político, demonstram que algo vai mal nas hostes.
Se o primeiro passo for dado, mais tarde ou mais cedo, alguém explicará que todos os argumentos que justificam a limitação de mandatos dos Presidentes de Câmara se aplicam aos Presidentes dos Governos Regionais.
Confesso, quer o meu regozijo por este passo, quer a minha incredulidade. Sempre pensei que esta medida ia emperrar num destes múltiplos argumentos formais que permitem a todos continuar a fazer-de-conta que querem o que realmente não desejam.

Political Compass

É bastante mais sofisticado do que muitos estudos que se auto-designam científicos, embora o possa enfrentar como se de um teste de Verão às suas convicções políticas se tratasse. Aproveite as férias e a escassez de posts. A mim, o veredicto confirmou-me o carácter canhoto e não me aborreceu nada.

Cegueira

Com a notícia da possível candidatura de Mário Soares à Presidência da República vai começar o enxovalho público através do qual se pretende denegrir pessoas e não discutir ideias e posicionamentos.
Que pessoas informadas e inteligentes, sejam de direita ou de esquerda, venham dizer que a vida de Mário Soares é uma incessante corrida pela vitória para sua vaidade pessoal é do domínio do inaceitável e da manipulação da história.
Mesmo quem discorde totalmente dele e não goste nada do seu percurso tem o dever de ver que não há muitos políticos portugueses que mais vezes se tenham arriscado a perder tudo por aquilo que julgavam ser melhor, mesmo que estivessem errados: Soares esteve contra os fatalismos antes e depois do 25 de Abril, virou-se várias vezes contra os seus camaradas de partido, que arriscou perder, candidatou-se a Presidente, da primeira vez, contra todas as sondagens.
Querendo, arrasem a candidatura, se ela existir,e os seus projectos, mas esta abordagem é de uma total cegueira.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

A polícia, a morte do electricista brasileiro e o terrorismo

Por erro — assumido e confessado ao mais alto nível da polícia londrina e do governo britânico — um polícia matou com múltiplos tiros um electricista brasileiro que desobedeceu à ordem de parar e que este confundiu com um possível bombista suicida.
Está, pois, na hora de todos os que se batem contra a pena de morte e, por maioria de razão, contra os assassinatos extra-judiciais e as actividades congéneres de serviços secretos dizerem, com toda a clareza, que não “vale tudo”.
Mesmo que se perceba — e eu creio que consigo imaginar! — que a tensão a que estava sujeito aquele polícia há-de ser pior do que “a angústia do guarda-redes antes do penalty” isso não justifica, não pode justificar, o que é inaceitável.
Mas essa condenação também não torna legítima a dúvida, levantada hoje, sobre se "a democracia liberal está a aprender com os terroristas?"
É que um erro — sem ambiguidades: dramático e condenável! — dum polícia que defende a segurança de cidadãos pacíficos não é comparável ao acto de um bombista que carrega sobre si próprio explosivos para os fazer explodir em transportes públicos urbanos cheios de cidadãos civis e inocentes.
Como, menos ainda, são comparáveis os regimes políticos que servem um e outro.
E, também nisso, convém que as águas se mantenham separadas.

terça-feira, 26 de julho de 2005

Actualizações

Do texto “Pululam que nem cogumelos!” (de ontem), com, em adenda, o debate com um dos comentadores.

Soares sempre fixe (revisto após comentários)

Mário Soares está a fazer consultas sobre a possibilidade de se candidatar à Presidência da República, depois dos apelos de José Sócrates, Ferro Rodrigues e Jorge Coelho.
Desejo e espero que conclua o óbvio, isto é, que é o cidadão mais bem posicionado para ser Presidente da República. Aliás, dez anos depois, ele ainda é "o" Presidente e ainda é a sua inspiração que modela o perfil do Presidente desejável.
A nossa história em democracia demonstrou que um bom Presidente terá que ter coragem pessoal, isenção política e um rigoroso sentido das instituições. E que basta faltar uma das características para as coisas serem menos boas do que deviam. Soares tem, como todos sabemos, as três características. A Cavaco, por exemplo, faltaria a isenção, foi sempre um homem de facção. Admito, aliás, que seja em torno da questão da isenção que se joguem as próximas eleições presidenciais. Para retomar outra expressão de Soares, quem será o melhor "moderador e árbitro" nos próximos cinco anos?
Mário Soares é o meu candidato.
Mas lamento profundamente a frieza com que Manuel Alegre foi tratado dentro do Partido Socialista. Disponibilizou-se para o combate difícil que ninguém parecia querer, quando os génios da táctica o davam por perdido e custa-me muito a acreditar que o tenha feito na total ausência de sinais. A generosidade paga-se, por vezes, muito cara, mas a frieza dos tacticismos também acaba um dia por chocar com os seus limites. Só que ninguém sabe quando é, como Cavaco não sonhou com a terça-feira de Carnaval.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Pululam que nem cogumelos! (e adenda)

Não chegava Luís Valadares Tavares. Agora é outro Luís, de seu nome Sousa Lobo.
Noticiava o Público de hoje (25/07/2005) que um “estudo” coordenado por este, em que participa, entre outros, Tiago Santos Pereira do CES, ordena as universidades portuguesas em função da sua produtividade no plano da produção científica. Tão simples é o “estudo” que ficamos sem saber por que razão é necessária uma equipa de investigadores para completar um exercício ao alcance de um pequeno grupo de alunos do ensino secundário: apurar o número de referências a artigos de autores portugueses na base de dados de artigos de revistas do ISI (Institute for Scientific Information) e dividi-lo pelo número de docentes da respectiva universidade. E, a seguir, ordenar as universidades por ordem decrescente do rácio obtido, ou, para usar uma linguagem de analfabeto cosmopolita agora tão na moda, um RANKING.
Resultado de tão laborioso procedimento: como se usa um indicador que mede, no essencial, a publicação de artigos em inglês nas áreas das ciências naturais, das engenharias e da saúde, conclui-se que a universidade do país com menos produção científica é aquela que em vez de cursos de ciências naturais, das engenharias e da saúde tem, sobretudo, cursos de ciências sociais e de gestão (o ISCTE)! Se não tivesse consequências seria uma anedota.
Mas tem consequências, pois assim se constroem imagens positivas e negativas das diferentes universidades, independentemente da sua real qualidade. Que no caso do ISCTE é demonstrada, por exemplo, pelos resultados das avaliações dos seus cursos e centros de investigação — estas últimas realizadas por equipas internacionais constituídas pela FCT, distantes portanto dos interesses paroquiais presentes na concorrência inter-universidades.
Com estudos destes semana sim semana não, o Canhoto não terá IgNóbeis em número suficiente para atribuir até ao final do ano.


ADENDA

[PJ said…] O exemplo do ISCTE é expressamente referido na notícia do Público pelo principal autor do artigo como exemplo das limitações do estudo. Por outro lado, é também referido que o "impact factor" dos jornais não foi tomado em linha de conta. Não me parece que este estudo pertença ao mesmo nível do estudo do Prof. Luís Tavares. Trata-se de um indicador, grosseiro é certo, da produção científica das universidades portuguesas com impacto internacional. Estudos posteriores poderão tomar em linha de conta outros factores que possibilitem uma análise mais detalhada e fiável. Este indicador não pode ser de forma alguma comparado com a classificação atribuída aos centros de investigação. São avaliações completamente diferentes.

De acordo, o trabalho de Sousa Lobo não está ao mesmo (baixo) nível do de Valadares Tavares. Por isso não foi nomeado para os IgNóbeis do Canhoto. Mas não é, também, minimamente aceitável. Nem sério (ou responsável).
Em primeiro lugar, não é aceitável porque o indicador construído não é um indicador grosseiro da produção científica das universidades mas apenas um indicador, aliás grosseiro também, da produção científica em algumas disciplinas. Não serve, exactamente por isso, para “comparar o trabalho das instituições como um todo”, argumento de defesa utilizado por Sousa Lobo no Público de hoje (23/07/2005). Repito, se o indicador o que não permite comparar é exactamente o todo, porque o utilizar para… comparar o todo? Ou estou burro de todo ou o argumento é completamente desprovido de sentido. O problema não é pois o da necessidade de estudos complementares posteriores mas o da necessidade de começar por outro lado, com outra informação. E a avaliação dos centros de investigação pela FCT será sempre um melhor começo.
Em segundo lugar, o trabalho não é sério. E não o é porque, sabendo-se quais os efeitos de enviesamento do uso do indicador, construir uma lista ordenada de universidades com base nos seus valores induziria, sempre, uma representação errada do sistema universitário nacional, com consequências nas escolhas dos alunos e nas políticas públicas. Se isto não foi percebido pelo coordenador do estudo, há apenas uma alternativa à acusação de falta de seriedade do estudo: a de total irresponsabilidade. O que para um ex-reitor, não está mal.

domingo, 24 de julho de 2005

Sintra, condomínio fechado

Segundo a Agência Lusa (2005-07-07), a investigadora Regina Salvador, que integra a equipa de Jorge Braga de Macedo que está a elaborar o plano de desenvolvimento de Sintra, declarou ser necessário travar o crescimento demográfico no concelho. Para isso, propôs a redução brutal da taxa de imigração: “Sintra corre o risco de se tornar um local do terceiro mundo se continuar a crescer e a receber mais pessoas”, afirmou Regina Salvador. A “redução brutal da taxa de imigração” conseguir-se-ia com o fim das casas a preços baixos e dos empregos na construção civil.
Pelo menos não se propõe criar fronteiras municipais. Apenas que se suba o custo de vida para que Sintra fique reservada aos mais ricos. Lógica do argumento: se não houvesse povo com dinheiro para ter casa, não haveria construção; se não houvesse construção, não haveria imigração. Logo, o mecanismo ideal para a contenção da imigração seria o subdesenvolvimento geral do país. E a transformação de Sintra num condomínio fechado.

sábado, 23 de julho de 2005

Xenofobias pluralistas?

O relatório da PSP apresentado na Assembleia da República no passado dia 19 de Julho (na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias) refere ter havido em Carcavelos não um arrastão mas “um ambiente de pouca tranquilidade provocado por alguns distúrbios entre indivíduos de origem africana e outros de nacionalidade brasileira e ainda com indivíduos de Leste”.
Curiosa abrangência onde só faltam portugueses…

sexta-feira, 22 de julho de 2005

5,6% de 18 é 1

Coordenado por Luís Valadares Tavares (L.V.T.), foi publicamente apresentado o estudo intitulado “Melhor Estudo da Matemática em Portugal: Análise dos Resultados de Um Inquérito”. Apesar da repercussão mediática, o estudo vale nada.
1. Em primeiro lugar, os dados não prestam. No inquérito por questionário utilizado, confundem-se dados com opiniões, usam-se, como indicadores de medida, respostas não comparáveis e presume-se que o objecto de estudo se auto-explica. Alguns exemplos. Caracteriza-se o meio social de proveniência dos alunos perguntando-se a um professor “Como caracteriza o perfil dos alunos que fizerem o exame nacional de Matemática em 2004”, e dá-se como hipóteses de resposta enunciados do tipo “Maioria proveniente de meio social e económico com baixo nível educacional e baixo rendimento”. Avalia-se o contributo dos pais para a melhoria do estudo da matemática perguntando-se a um professor se “Considera que a Associação de Pais tem tido um papel activo em relação ao desempenho na Matemática?” e definindo-se como possibilidades de resposta “Não” e “Sim”. E, por fim, identificam-se os “factores explicativos” dos resultados nos exames de matemática perguntando-se a um professor… “Quais os principais factores explicativos?”. Pena os peixes não falarem: para se estudar biologia marítima passar-se-ia a perguntar a peixes e outros animais marinhos “quais os factores explicativos, no plano genético, de…”.
2. Em segundo lugar, a análise dos dados está tecnicamente errada. O modo como se recolheram os dados presume um estudo extensivo, isto é, o estudo de uma população ou amostra de grande dimensão com base em indicadores normalizados. As técnicas de análise estatística usadas também. Problema: o número de casos, isto é, de respostas ao questionário, é igual a 18! A partir daqui entramos no reino da anedota, com percentagens de 18 (5,6% de 18 é 1), cálculos de médias e de desvios-padrão, “análise discriminante” e afirmações pomposas e delirantes como “é interessante a heterogeneidade das avaliações” ou “a segunda linha da tabela 5 mostra-nos o tipo de factores ou iniciativas que se revelaram estatisticamente mais associados a cada tipo de resposta”. Fazer análise estatística como a que faz L.V.T. com 18 casos é uma demonstração lapidar de total incompetência técnica: serve para nada.
3. Por fim, a lata. Eu não sei projectar pontes, portanto, não o faço. L.V.T. não sabe estudar fenómenos sociais nem usar técnicas estatísticas elementares. Mas lata não lhe falta. Ao contrário do que afirma no Público de 19/07, em Educação nem tudo é relativo, nem tudo é discutível — como no projecto de pontes. Mas L.V.T. é, indiscutivelmente, um dos favoritos aos Ignóbeis do ano do Canhoto.

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Relativismos perigosos

A tempos de exacerbados etnocentrismos sucederam-se outros de perigosos relativismos. E assim ficámos a saber que, em termos de corrupção, é irrelevante a diferença entre Portugal e Angola.
Pior serviço prestado à causa do combate à corrupção em Portugal dificilmente poderia ser imaginado. Ainda por cima por quem fala na qualidade de ministro da República.
Esbater, por pouco que seja, as diferenças políticas entre Angola e Portugal é sinal de fraco respeito pelos valores democráticos.
Nota: para uma medida, ainda que controversa no plano metodológico, da intensidade da corrupção em termos comparativos internacionais, consulte-se o Transparency International Corruption Perceptions Index 2002.

Nova oportunidade

O que podia ter sido feito no início da legislatura já ficou pelo caminho. Se vier a confirmar-se que as últimas palavras de Campos e Cunha visavam o investimento público e o Estado social e se Teixeira dos Santos tiver a este respeito a mesma atitude política que teve a equipa de Sousa Franco a que pertenceu, José Sócrates acaba de dar ao governo uma nova oportunidade para realizar o Programa pelo qual foi eleito.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

“Nós” e “eles” (corrigido)

Agora, sempre que se intervalam uns dias de férias com o trabalho, a escrita no Canhoto torna-se irregular.
Hoje, apenas uma pequena nota, ainda na ressaca da desilusão com a proposta do Governo de alterações à Lei da Nacionalidade.
Se alguma vez quisermos perceber a diferença entre direito de sangue e direito de solo, enquanto critérios de constituição da nacionalidade, pensemos nos usos que damos a expressões como “nós” e “eles”. Por exemplo, enquanto for possível, ao mesmo tempo, falar dos portugueses do século XIX como “nós” — quando se trata, obviamente, de “eles”, pois as gerações anteriores constituíam outras sociedades — e designar como “eles” os imigrantes que connosco partilham, hoje, o mesmo território e a mesma colectividade política — quando se trata, obviamente, de “nós”, isto é, de membros de uma mesma sociedade —, então será claro o predomínio de uma concepção da Nação baseada na primazia do direito de sangue sobre o direito de solo.
E como está, e bem, fora de causa “mudar as mentalidade” com programas (e campos) de reeducação, resta apenas a velha e comprovada solução institucionalista: mudar a lei para ir mudando a cultura.
Custa ver tantas oportunidades perdidas.

O pragmático do centro

Depois de assentar a poeira, tornou-se evidente o que Freitas do Amaral pretendia com a entrevista ao DN. Vital Moreira definiu-o.
Mas fez mais dois ou três anúncios: vota contra a despenalização da IVG, acha que a promessa eleitoral de não aumentar impostos foi um gesto de hipocrisia e que este governo não devia ser criticado pela oposição porque está a “fazer exactamente o mesmo” que esta fez há três anos.
Freitas do Amaral deixou claro o laço que o une ao actual governo: o centrismo pragmático.

terça-feira, 19 de julho de 2005

Auspicioso

O Governo fechou, ontem, na Concertação Social, um acordo sobre legislação laboral.
Tanto quanto se sabe pelo que foi noticiado, cumpre o objectivo de realizar uma “revisão urgente do Código do Trabalho, centrada na promoção da contratação colectiva”, enunciado pelo Ministro do Trabalho.
Com este acordo, Vieira da Silva conseguiu uma primeira vitória: já tem o que Bagão Félix dizia que tinha e nunca teve, um acordo tripartido.
A solução encontrada para o problema da caducidade das convenções colectivas, seguindo um caminho diferente do que se explorou no PS no passado recente, melhora em relação à situação actual, porquanto protege explicitamente as partes da má conduta negocial da contraparte, diminui a discricionaridade da intervenção governamental, reforça os mecanismos de concertação e consagra um núcleo de aspectos fundamentais (remuneração, carreira, tempo de trabalho) em que mesmo que uma convenção caduque se mantêm os seus efeitos até ser substituída.
É certo que este acordo, dada a fase do processo de revisão da legislação laboral em que estamos, tem um âmbito restrito e precisou do adiamento da discussão da norma sobre o “tratamento mais favorável” para ser conseguido.
Tal como o Governo, acho que se deveria ter avançado já para essa discussão e tal como ele me resigno com o seu adiamento, porque considero que os processos negociais são de cedências mútuas e uma cedência nesta matéria, desde que exclusivamente de calendário, não é inaceitável.
Ao contrário do que pensam os civilistas, o contrato de trabalho não é idêntico à compra e venda de mercadorias, tem especificidades que vêm da génese do direito do trabalho. Muitos dos aspectos em que se baseia essa diferença estão – e bem – guardados para revisão após avaliação da experiência e temos encontro marcado com eles para daqui a uns meses.
O primeiro passo é auspicioso, venha agora o resto do processo negocial.

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Livros [6]








O Pensamento Conservador. Perversidade, Futilidade e Risco,
por Albert O. Hirschman,
Algés, Difel, 1997 (ed. original: 1991), 197+viii pp.
Tradução de Rui Miguel Branco

Albert Otto Hirschman parte da célebre conferência de
T.H. Marshall sobre a formação da cidadania contemporânea para estudar a retórica da reacção (expressão agreste aos ouvidos portugueses, mas que corresponderia à tradução à letra do título do livro), tendo-se defrontado com a fragilidade dos argumentos políticos conservadores. Daí partiu para uma cartografia das retóricas da intransigência . Este livro – que aborda as batalhas pela igualdade social, as liberdades individuais, o sufrágio universal, a democracia e o Estado-providência – é um exercício de inteligência com bom-humor e bom senso, que incomodará gregos e troianos (também há um capítulo para a retórica progressista) que se dêem ao trabalho de o ler.

Índice «Nota de apresentação (por Diogo Ramada Curto). Prefácio. Duzentos anos de retórica reaccionária. A tese da perversidade. A tese da futilidade. A tese do risco. As três teses comparadas e combinadas. Da retórica reaccionária à retórica progressista. Para além da intransigência.»

Citação «Ao examinar os principais modos de criticar, atacar e ridicularizar os três impulsos “progressistas” sucessivos de que fala Marshall, acabei por encontrar uma nova tríade: isto é, três teses reactivas-reaccionárias principais que denominei tese da perversidade ou tese do efeito perverso; tese da futilidade; e tese do risco. De acordo com a tese da perversidade, qualquer acção deliberada para melhorar alguma característica essencial da ordem política, social ou económica serve apenas para agravar o exacto aspecto que se deseja atenuar. A tese da futilidade sustenta que as tentativas de transformação social são inúteis, que nunca conseguirão “fazer a diferença”. A tese do risco defende que o custo da mudança ou reforma proposta é demasiado alto para ser pago – eventuais melhorias não compensam o risco de fazer perigar preciosas conquistas anteriores.
«Claro que estes argumentos não são propriedade exclusiva dos “reaccionários”. Eles podem ser invocados por qualquer grupo que se oponha a ou critique novas propostas de carácter político ou iniciativas já adoptadas» [Hirschman, 1997: 17]

Albert Hirschman nasceu em Berlim em 1915. Doutorou-se na Universidade de Trieste em 1938, depois de ter passado pela Sorbonne e pela LSE, mas fez a sua carreira, desde 1941, nos EUA, a cujo exército pertenceu durante a II Guerra Mundial. Como economista do desenvolvimento, trabalhou no Federal Reserve Board e na América Latina. É Professor Emeritus do Institute for Advanced Study de Princeton, depois de ter passado por Berkeley, Yale, Columbia e Harvard. A sua influência estende-se por um vasto campo das ciências sociais que vai da ciência política à psicologia organizacional.