sábado, 3 de setembro de 2005

American Apartheid

As imagens que nos chegam de Nova Orleães são esclarecedoras: em 2005, nos EUA, as vítimas do furacão Katrina são, quase só, americanos negros.
1. Quando não são negros são, por exemplo, brancos pobres e velhos. Um deles justificava-se perante as câmaras quando questionado sobre os motivos por que não tinha abandonado a cidade: “estamos no fim do mês, tenho só 4 dólares no bolso, não podia pôr suficiente gasolina no carro para escapar até um lugar seguro”. As imagens da fuga da cidade na véspera do furacão ajudam a explicar o que se passou: as auto-estradas estavam engarrafadas com viaturas particulares repletas de pessoas e de bagagem. Ou seja, foi dada ordem de evacuação da cidade mas não foram disponibilizados meios para essa evacuação, pelo que a sua concretização dependeu, sobretudo, dos recursos de que cada um dispunha. Os pobres ficaram e foram apanhados pelo furacão.
Quando, em Portugal, se ouvem as vozes arrogantes dos neoliberais nacionais clamando, muitas vezes sem critério, por menos Estado, é bom que nos lembremos do que aconteceu em Nova Orleães em 2005, onde o Estado da mais poderosa nação do mundo se DEMITIU de ajudar os mais fracos a escapar à calamidade: provavelmente porque esta não é já uma tarefa que Bush entenda corresponder às funções centrais do Estado.
2. E os que ficaram foram, sobretudo, negros. Não porque fossem negros na mesma proporção os habitantes de Nova Orleães. Mas porque nos EUA os negros estão sobre-representados entre os pobres e entre os que vivem nas áreas degradadas dos centros urbanos, enquanto os brancos se instalam em proporções crescentes nos novos subúrbios. Este padrão de segregação residencial, em termos simultaneamente classistas e raciais, está na origem do título do mais famoso livro de Douglas S. Massey (com Nancy Denton): American Apartheid. Nele se argumenta, através de uma minuciosa análise dos dados censitários, que “a segregação residencial é a característica estrutural da sociedade americana responsável pela perpetuação da pobreza urbana e uma das causas fundamentais da desigualdade racial nos Estados Unidos” (p. viii). Segundo os dados analisados, nas zonas degradadas de Nova Orleães eram negros quase 70% dos seus habitantes.
Quando, em Portugal, os sectores multiculturalistas de diversos quadrantes se unem para, irresponsavelmente, defender a requalificação dos guetos da Grande Lisboa em lugar de um realojamento desconcentrado, recomenda-se, com urgência, a leitura do livro de Massey. E, em tempo de eleições autárquicas, importa confrontar os candidatos com os problemas da guetização e os modos de os enfrentar.


American Apartheid.
Segregation and the Making of the Underclass

por Douglas S. Massey e Nancy Denton,
Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1993

Índice « Preface; 1. The Missing Link; 2. The Construction of the Ghetto; 3. The Persistence of the Ghetto; 4. The Continuing Causes of Segregation; 5. The Creation of Underclass Communities; 6. The Perpetuation of the Underclass; 7. The Failure of Public Policy; 8. The Future of the Ghetto; Notes; Index.»

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Desigualdade e finanças públicas


Fonte: Jean Gadrey, “Inégalités, pauvreté et redistribution”, Alternatives Économiques, 239 (Setembro de 2005), p. 72 Posted by Picasa

O que acontece quando se junta o gráfico divulgado aqui no Canhoto pelo Dornelas no texto “O País desigual” (de 23 de Junho) com o que eu inseri dois dias antes em “Pobres suecos!”? O gráfico publicado no último número da Alternatives Économiques (de Setembro), num artigo intitulado “Inégalités, pauvreté et redistribution” (pp. 70-73), e acima reproduzido.
1. Neste gráfico revela-se a associação entre desigualdade de rendimentos e nível relativo da receita pública (em percentagem do PIB). A conclusão é quase linear, tão forte é a associação estatística entre as duas variáveis — quanto maior a receita pública relativa, menor a desigualdade social. Portugal está, como previsível, num desonroso segundo lugar no eixo da desigualdade (apenas superado, e por pouco, pelos EUA), bem como entre os países da UE com menos receita pública relativa. Para piorar a situação, Portugal é ainda, entre os países com o mesmo nível relativo de (baixa) despesa pública aquele em que é maior a desigualdade. Ou seja, não só temos menos recursos para redistribuir do que os nórdicos, como redistribuimos menos o que temos, por desperdício, do que britânicos e espanhóis.
2. É pois imperioso o combate ao desperdício dos dinheiros públicos, não porque se redistribua muito mas porque é necessária mais redistribuição. O que significa que é necessário racionalizar a despesa para gastar mais com mais legitimidade, recolhendo também mais receita. E este é o problema actual. A naturalização do discurso financeiro da direita corre o risco de nos cegar totalmente em relação à necessidade de… aumentar a receita. Para isso é imperioso, porém, o combate á informalidade na economia, tema do texto inaugural do Canhoto.
3. No discurso da direita, a ênfase é colocada na redução do défice por via da redução da despesa, bem como da contenção, senão mesmo da descida também, da receita. A continuidade ou eventual expansão dos serviços públicos é, por isso, condicionada à generalização do princípio do utilizador-pagador. Essa generalização deve ser radicalmente contestada pela esquerda, e não só porque tende a reproduzir a desigualdade de partida. Deve ser contestada, em primeiro lugar, porque representa a capitulação perante a informalidade económica e a evasão fiscal que impedem o aumento da receita para níveis compatíveis com o esforço necessário de desenvolvimento do país e de combate à pobreza absoluta e relativa. E em segundo lugar, porque qualquer tentativa de introduzir critérios redistributivos num sistema de taxas tende a criar um monstro burocrático de controlo administrativo e a iniciar um ciclo vicioso — pois o controlo dos níveis de rendimento do utilizador será, sempre, limitado pelos níveis de informalidade económica e de evasão fiscais.
4. É ainda necessário desmontar o discurso legitimador de pseudo-equidade social que acompanha, por vezes, a defesa da generalização do princípio do utilizador-pagador. Dizer-se que certos serviços (por exemplo, o ensino superior) devem ser pagos porque servem mais os “ricos” do que os “pobres” é geralmente falacioso. E é-o, por um lado, porque se a base colectável for de facto tendencialmente universal e a colecta fiscal eficaz, os ricos já pagarão mais pelos mesmos serviços do que os pobres que os utilizam. E, por outro lado, porque mesmo quando um serviço público (por exemplo, e outra vez, o ensino superior) é mais utilizado por ricos (ou pelos seus filhos) do que por pobres (ou os seus filhos), isso não significa, por si só, ausência de redistribuição — desde que a desigualdade social no acesso a esse serviço seja menor que a desigualdade de rendimentos, haverá sempre ganhos redistributivos. Por outras palavras, e retomando o exemplo entre parentesis, não será a actual indispensabilidade das propinas no ensino superior, acima de tudo, um indicador do infeliz estado a que chegou em Portugal a redução do universo da colecta fiscal?

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Cigano? Depende do ângulo

Os fundamentalistas da etnicidade pensam que os grupos étnicos têm fronteiras rígidas, a que se pertence ou não pertence, sem meio-termo e que são "naturais", isto é, que estão inscritas, no corpo, na pele, etc.
Não é assim, mas embora seja recorrente a observação, não deixou de me impressionar, ao ter contacto com o país, a "questão cigana", na Roménia.
Ali, há uma gigantesca diferença entre o número de ciganos, quando contado pelos que se definem assim a si próprios ou pelos que os outros definem como tal.
No essencial, essa diferença de números cobre as populações pobres e marginalizadas a que é cómodo chamar ciganas, porque fornece uma explicação para a sua pobreza, quando vistas "de fora" e incómodo chamar ciganas, porque torna mais fácil perpetuar a sua situação de pobreza e desemprego, quando vistas "de dentro".
Ou seja, ser ou não ser cigano, depende do ângulo de vista...Natural, não é?

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Rigor de ficção

Segundo a imprensa de hoje, Miguel Macedo, secretário-geral do PSD, exigiu a demissão do director dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), em consequência da entrevista de Manuel Jarmela Palos ao jornal Público. Os argumentos de Miguel Macedo oscilam entre o ridículo e a irresponsabilidade totais.
É ridículo quando argumenta que as críticas do director do SEF à lei de entrada, permanência, saída e expulsão de estrangeiros de território nacional (habitualmente, mas incorrectamente, designada como “lei de imigração”) têm como consequência a defesa do incumprimento da lei em vigor. A fazer escola esta interpretação, ficaria impossibilitado qualquer debate público sério sobre as leis e a sua alteração.
Mais grave é, no entanto, a irresponsabilidade patente na defesa da legislação em vigor com base no argumento da necessidade de uma “política de rigor” que tenha em conta as condições de acolhimento de “acordo com as possibilidade do País” (DN de hoje, 30 de Agosto). O rigor de que fala Miguel Macedo não passa de ficção. Com o rigor da lei em vigor apenas se conseguiu, nos últimos anos, estrangular a imigração legal e multiplicar a ilegal: residirão hoje em Portugal mais de 100 mil estrangeiros em situação irregular, fruto de uma retórica de rigor que coexistiu com a demissão da responsabilidade de regulação efectiva da imigração.
Defender hoje um rigor normativo inconsequente, depois de todas as provas acumuladas nos últimos anos, é, no mínimo, insistir numa orientação política errada e, no máximo, contribuir para uma deriva populista xenófoba totalmente irresponsável.

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Do sofrimento inútil

De regresso de férias. E de regresso também o acesso aos comentários.

1. Em entrevista ao Notícias Magazine de 21 de Agosto, Rui Marques, Alto-Comissário Adjunto para a Imigração e Minorias Étnicas durante os governos da coligação PSD-CDS, conclui publicamente, agora, que a política de imigração seguida por esses governos bloqueou a imigração legal em Portugal, o que, em contrapartida, e objectivamente, estimulou a imigração ilegal. Hoje (29/8), no Público, é Jarmela Palos, novo director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que questiona a eficácia e a bondade das políticas de admissão de imigrantes restritivas actualmente em vigor.
A importante e bem-vinda declaração do director do SEF não surpreende, conhecidas que são as suas posições no passado sobre os objectivos e modos de regulação da imigração. Esperemos que sejam ouvidas pelos responsáveis governamentais por esta área e se traduzam em alterações legislativas adequadas. Confesso, no entanto, que a experiência vivida com a frustrante alteração minimalista da lei da nacionalidade me deixa céptico.
2. No simples mas notável discurso com que Zapatero apresentou aos deputados a proposta de alteração do Código Civil para remover os obstáculos ao casamento de homossexuais, o primeiro-ministro espanhol enfatizou que “como outras reformas que a precederam, esta lei não produzirá mal algum, […] a sua única consequência será livrar seres humanos de sofrimento inútil. E uma sociedade que livra os seus membros de sofrimento inútil é uma sociedade melhor” (discurso transcrito na íntegra no suplemento “Actual” do Expresso de 13 de Agosto).
Em termos mais gerais, este é o tipo de reforma e de argumento moral defendidos por Barrington Moore num pequeno ensaio, cuja leitura se recomenda, intitulado, na tradução brasileira de 1974 publicada pela Zahar, Reflexões Sobre as Causas da Miséria Humana e Sobre Certos Propósitos Para Eliminá-las (originalmente publicado nos EUA em 1972). Argumentando que à diversidade de modos de conceber a felicidade se opõe a unidade da miséria humana, o autor propõe-nos que centremos os nossos esforços políticos em remover as causas dessa miséria em lugar de nos digladiarmos sobre os contornos da sociedade ideal — eventualmente produzindo assim mais miséria, mais sofrimento. Daí “o pressuposto moral de que a sociedade humana deveria ser organizada de forma a eliminar o sofrimento inútil” (p. 22).
3. Eliminar o sofrimento inútil de quem nasceu e cresceu em Portugal mas é considerado estrangeiro por herança, seria o mínimo a esperar de uma alteração legislativa no domínio da nacionalidade da iniciativa de um governo decente. A clara valorização do direito de solo sobre o direito de sangue na reforma da lei da nacionalidade resultaria, parafraseando Zapatero, numa lei que não produziria mal algum, antes teria como única consequência livrar milhares de crianças de sofrimento inútil.
Ainda estamos a tempo de agir com decência.

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

Breve(s) (e adenda)

1. Videojogo de sexo é proibido por se ter descoberto a existência de um código que permitia o acesso a uma área escondida na qual se encontram cenas de violência explícita.
2. Helena Roseta critica Soares por este imitar Cunhal e se retirar para a sombra, manobrando a partir daí, em vez de se sujeitar ao combate público democrático.
3. O melhor mesmo é ir para férias… Até breve.

ADENDA
Não podendo fazer respeitar as "regras do jogo" dos comentários durante as férias, estes ficam temporariamente suspensos.

terça-feira, 2 de agosto de 2005

A culpa não é solteira

Muitos dos debates sobre Portugal, sobre a União Europeia (UE) e sobre o que seria necessário fazer para se sair do ciclo vicioso em que nos encontramos têm subjacente a ideia de que “a culpa é de Bruxelas” ou de que os outros países — sobretudo os maiores países — nos impuseram soluções de que não gostamos.
Como, excepto para uma minoria na qual me incluo, o federalismo europeu continua a não ser reconhecido como um requisito do progresso social de todos e de cada um dos Estados membros da União Europeia, vale a pena deixar de usar apenas categorias pouco esclarecedoras — como são os nomes dos países — e ter presente, para além do mais, que na UE só existem democracias e, portanto, que a orientação política dos governos nacionais é decisiva.
A benefício dum debate menos desinformado do que é habitual, é útil ler o trabalho de P. Manow, A. Schäfer e H. Zorn, disponível aqui, donde se retirou a informação do quadro abaixo.


Fonte: Manow, Schäfer e Zorn (2004) Posted by Picasa

Entre outros méritos, o quadro mostra bem que a culpa pode ser atribuída a várias famílias políticas ao longo do tempo.
Mas lá que a esquerda — seja lá o que for que isso queira dizer … — raramente teve a maioria na UE, lá isso parece inegável.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Somar ou substituir?

Ribeiro e Castro, em nome do CDS, declarou que considera equilibrada a proposta de lei do Governo sobre a nacionalidade, embora pretenda sugerir algumas alterações na especialidade. A avaliação positiva, na generalidade, da iniciativa governamental não surpreende, dado o carácter conservador da proposta de lei. A principal sugestão de alteração, “uma prova de conhecimento de alguns traços próprios da comunidade como o hino ou a história” nacionais, à semelhança do que aconteceria nos EUA, merece um comentário mais longo.
Por princípio, é positivo fazer depender a naturalização de condições que possam ser supridas por aprendizagem, isto é, valorizar as aquisições sobre as heranças. Nos EUA, como no Canadá, a possibilidade de naturalização depende, de facto, de um conjunto de actos do candidato: demonstração de conhecimentos, mínimos, da história e da língua nacionais, bem como de um juramento de fidelidade ao novo país. Já na Austrália apenas são requeridos conhecimentos da língua. Porém, em todos estes países o tempo de residência necessário para requerer a naturalização é menor do que em Portugal: 5 anos nos EUA, 3 a 4 no Canadá, ou, no limite, apenas 1 ano na Austrália. Em todos estes países, também, as crianças aí nascidas filhas de pais estrangeiros adquirem, automaticamente, a nacionalidade do país em que nasceram. Nos EUA, este primado do direito de solo está mesmo constitucionalizado desde 1868.
Em resumo. Nada a opor, bem pelo contrário, a que os EUA sejam o modelo de referência para as alterações à lei da nacionalidade. Agora, o que não vale é ir buscar ao modelo americano apenas o que permite dificultar, em Portugal, a aquisição da nacionalidade pelos estrangeiros aqui imigrados. Não vale somar as condições portuguesas às condições americanas, em vez de substituir umas pela outras. Um mínimo de decência: escolham!

domingo, 31 de julho de 2005

CDs [3]


Schubert Posted by Picasa

Franz Schubert (1797-1828),
The Late String Quartets
String Quintet

The Lindsays
Resonance (Sactuary Classics)

A melhor interpretação que conheço de uma obra fundamental: o Quinteto de Cordas de Schubert, pelos Lindsays. De “bónus”, os últimos quartetos de cordas do mesmo Schubert (o 8, e os 12 a 15). Disponível no sítio da Sactuary Classics se indisponível nas discotecas. A bom preço, ainda por cima, tendo em conta que são 4 cds.

sábado, 30 de julho de 2005

4 é mais que 3

Ainda no âmbito do debate sobre a produção científica das universidades, e por sugestão de um comentador, que se reencaminha, um contributo de João Vasconcelos e Costa intitulado “Cuidado com a Bibliometria”. E uns comentários mais, bem como algumas sugestões adaptadas ao relaxamento do Verão.
1. Durante a semana, multiplicaram-se as reacções, nas páginas do Público, ao exercício de Sousa Lobo. Na quarta-feira, Luís Reto, presidente do ISCTE, salientava as diferenças entre ciências sociais e ciências naturais no que aos modos de publicação diz respeito, enquanto Peter F. Lindley, director do ITQB, salientava os defeitos de uma média da produção de diferentes departamentos ou faculdades com produtividade variável. Na quinta, Fernando Pina, professor na FCT-UNL, em artigo intitulado “Ranking ou fraude?”, chamava a atenção para a incomparabilidade de revistas de diferentes qualidades e impacto, mas todas inseridas na base de dados do ISI, concluindo pela necessidade de um novo e mais rigoroso processo de avaliação das universidades, clamando “… sr. ministro, por favor, avaliação já”.
2. Perante todas estas críticas, a reacção. Na sexta-feira, Tiago Santos Pereira, do CES de Coimbra, negava, no Público, ter participado no “estudo” de Sousa Lobo, mas, por outro lado, perguntava, “se ‘contar não chega’, fica em aberto a questão de saber se ‘será útil?’”. Mais adiante, argumentava ainda: “é também num erro semelhante, ainda que simétrico, que podem incorrer as críticas ao presente estudo. Será que por questões metodológicas ou de enquadramento da apresentação de resultados se deve recusar a análise da produção científica portuguesa nesta base de dados internacional?”
Pois é, contar é útil, quanto mais não seja para se saber quantos dedos se tem na mão, ou quantos ovos pôs a galinha da vizinha. Mas contar o quê? Por exemplo, o número de patentes e concluir daí que Tiago Santos Pereira é pouco produtivo? É que é de erros primários deste tipo, é de gracinhas destas, que se fala quando se critica o trabalho de Sousa Lobo, não da dispensabilidade de mecanismos de avaliação internacionais. Pelo contrário, como concluía Fernando Pina, e aqui se subscreve, é urgente que o MCES estenda às universidades um modelo de avaliação similar ao que construiu para os centros de investigação. Não há, nesta posição, qualquer simetria com a de Sousa Lobo!
No sábado, e com o terreno preparado por Tiago dos Santos Pereira, a reacção continuava. José Manuel Fernandes, em editorial intitulado “Horror a factos simples”, proclamava, inocentemente, que “tais indicadores [os de Sousa Lobo], como todos os indicadores, são apenas alguns números…”. Pois é. Também posso fazer uma listagem ordenada de jornais em função da tiragem e concluir que o Público anda mal em termos de qualidade. Números simples, apenas alguns números. Que não usarei porque sei, como todos sabemos, que os números da tiragem dos jornais permitem medir muita coisa, mas não a qualidade dos jornais. Do mesmo modo que os indicadores de Sousa Lobo medirão muita coisa, mas não medem a qualidade da produção científica das universidades.
3. Talvez seja melhor não os levar muito a sério. E entrar no jogo. Se o que importa é, antes de mais, publicar em inglês, porquê trabalhar muito? Sempre se pode tentar cumprir os critérios sousalobistas por vias mais fáceis e, sobretudo muito mais divertidas. Por exemplo, utilizando o gerador de textos pós-modernos criado na sequência do famoso caso Sokal — The Postmodernism Generator. Ou, se trabalhar na área dos sistemas e tecnologias de informação, o SCIgen.
Desenvolvido por três estudantes do MIT (Jeremy Stribling, Max Krohn e Dan Aguayo), o SCIgen é, segundo palavras dos seus criadores, “a program that generates random Computer Science research papers, including graphs, figures, and citations”. Permitiu já, aos três, gerar uma comunicação à Conferência Mundial de Cibernética, aceite pelos organizadores. Na página do SCIgen encontrará ainda links para outros geradores de texto, como o Automatic Systems Research Topic or Paper Title Generator, que gera qualquer “topic suitable for research and as a title of your upcoming Systems paper”. Ou o EssayGenerator, que lhe permitirá obter, em inglês, um ensaio sobre não importa o quê. Eu experimentei, dando como tópico “science rankings” (eu sei que é um pouco ao lado). O ensaio assim obtido terminava com a frase “To conclude, science rankings is, to use the language of the streets ‘Super Cool’. It questions, it stimulates and is always fashionably late.” Embora gerada aleatoriamente, não me parece conclusão de pior qualidade do que muitas das dos sousalobistas…
Aproveite os links e entre na silly season. Este ano um pouco mais cedo, graças a Sousa Lobo, Tiago Santos Pereira e José Manuel Fernandes.

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Estudantes e experiências de trabalho


Percentagem de estudantes com experiência de trabalho antes da entrada no ensino superior (2005)
Fonte: Eurostudent. Social and Economic Conditions of Student Life in Europe. Report 2005, HIS International Studies.
Posted by Picasa

Esta semana, um dos canhotos (Paulo Pedroso) publicou no JN um artigo sobre a importância das experiências de trabalho dos estudantes para, entre outras coisas, a melhoria das condições de empregabilidade dos jovens.
Em Portugal, os indicadores sobre o tema não são animadores. Segundo um estudo comparativo europeu, só na Áustria é menor a percentagem de jovens com experiência de trabalho antes da entrada no ensino superior. No relatório de 2005 desse estudo (que em Portugal foi realizado por uma equipa do CIES-ISCTE), encontramos um conjunto de indicadores comparativos de grande utilidade sobre os estudantes do ensino superior na Europa. A ele voltaremos.

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Dinossauros de todo o país, uni-vos!

O PCP votou conta a limitação de mandatos dos Presidentes de Câmara. O Partido dos "métodos colectivos" de trabalho, revela a sua vulnerabilidade estrutural ao culto da personalidade ou apenas a mais desesperada incapacidade de se renovar?

Confesso a minha incredulidade

A LUSA diz que José Sócrates e Marques Mendes chegaram a acordo sobre a limitação de mandatos autárquicos.
Para conseguir esta medida, o PS teve que desistir de juntar no mesmo pacote os Presidentes dos Governos Regionais e o Primeiro-Ministro e que aceitar adiar a entrada em vigor da lei.
A desistência, a bem dizer, não existe. Os três cargos só foram juntos pelo PS na mesma proposta para aplacar os seus próprios autarcas que julgavam que, como seria impossível dobrar Alberto João ao PSD, assim se livravam, sem custos, da limitação de mandatos.(Quem tiver dúvidas sobre as posições iniciais do PS pode consultar a Moção com base na qual Ferro Rodrigues foi eleito Secretário-Geral, o Programa Eleitoral do PS em 2002 ou recordar-se de uma célebre Comissão Política Nacional dos primeiros meses de 2003).
O adiamento foi uma cedência necessária. O PSD lembrou-se dela na última hora, provavelmente à espera de conseguir o velho passe de mágica que agradaria a gregos e a troianos. Diria que "não se mudam as regras durante o jogo", o PS estava obstinado e continuaria a "defender" a limitação de mandatos. E tudo ficaria na mesma!
O golpe de rins da Direcção do PS surpreendeu positivamente: recusou todos os pretextos em que poderia ter-se escudado para que esta importante medida de reforma do sistema político não avançasse.
As debilidades de última hora de Marques Mendes, que sempre se mostrou campeão da reforma do sistema político, demonstram que algo vai mal nas hostes.
Se o primeiro passo for dado, mais tarde ou mais cedo, alguém explicará que todos os argumentos que justificam a limitação de mandatos dos Presidentes de Câmara se aplicam aos Presidentes dos Governos Regionais.
Confesso, quer o meu regozijo por este passo, quer a minha incredulidade. Sempre pensei que esta medida ia emperrar num destes múltiplos argumentos formais que permitem a todos continuar a fazer-de-conta que querem o que realmente não desejam.

Political Compass

É bastante mais sofisticado do que muitos estudos que se auto-designam científicos, embora o possa enfrentar como se de um teste de Verão às suas convicções políticas se tratasse. Aproveite as férias e a escassez de posts. A mim, o veredicto confirmou-me o carácter canhoto e não me aborreceu nada.

Cegueira

Com a notícia da possível candidatura de Mário Soares à Presidência da República vai começar o enxovalho público através do qual se pretende denegrir pessoas e não discutir ideias e posicionamentos.
Que pessoas informadas e inteligentes, sejam de direita ou de esquerda, venham dizer que a vida de Mário Soares é uma incessante corrida pela vitória para sua vaidade pessoal é do domínio do inaceitável e da manipulação da história.
Mesmo quem discorde totalmente dele e não goste nada do seu percurso tem o dever de ver que não há muitos políticos portugueses que mais vezes se tenham arriscado a perder tudo por aquilo que julgavam ser melhor, mesmo que estivessem errados: Soares esteve contra os fatalismos antes e depois do 25 de Abril, virou-se várias vezes contra os seus camaradas de partido, que arriscou perder, candidatou-se a Presidente, da primeira vez, contra todas as sondagens.
Querendo, arrasem a candidatura, se ela existir,e os seus projectos, mas esta abordagem é de uma total cegueira.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

A polícia, a morte do electricista brasileiro e o terrorismo

Por erro — assumido e confessado ao mais alto nível da polícia londrina e do governo britânico — um polícia matou com múltiplos tiros um electricista brasileiro que desobedeceu à ordem de parar e que este confundiu com um possível bombista suicida.
Está, pois, na hora de todos os que se batem contra a pena de morte e, por maioria de razão, contra os assassinatos extra-judiciais e as actividades congéneres de serviços secretos dizerem, com toda a clareza, que não “vale tudo”.
Mesmo que se perceba — e eu creio que consigo imaginar! — que a tensão a que estava sujeito aquele polícia há-de ser pior do que “a angústia do guarda-redes antes do penalty” isso não justifica, não pode justificar, o que é inaceitável.
Mas essa condenação também não torna legítima a dúvida, levantada hoje, sobre se "a democracia liberal está a aprender com os terroristas?"
É que um erro — sem ambiguidades: dramático e condenável! — dum polícia que defende a segurança de cidadãos pacíficos não é comparável ao acto de um bombista que carrega sobre si próprio explosivos para os fazer explodir em transportes públicos urbanos cheios de cidadãos civis e inocentes.
Como, menos ainda, são comparáveis os regimes políticos que servem um e outro.
E, também nisso, convém que as águas se mantenham separadas.

terça-feira, 26 de julho de 2005

Actualizações

Do texto “Pululam que nem cogumelos!” (de ontem), com, em adenda, o debate com um dos comentadores.

Soares sempre fixe (revisto após comentários)

Mário Soares está a fazer consultas sobre a possibilidade de se candidatar à Presidência da República, depois dos apelos de José Sócrates, Ferro Rodrigues e Jorge Coelho.
Desejo e espero que conclua o óbvio, isto é, que é o cidadão mais bem posicionado para ser Presidente da República. Aliás, dez anos depois, ele ainda é "o" Presidente e ainda é a sua inspiração que modela o perfil do Presidente desejável.
A nossa história em democracia demonstrou que um bom Presidente terá que ter coragem pessoal, isenção política e um rigoroso sentido das instituições. E que basta faltar uma das características para as coisas serem menos boas do que deviam. Soares tem, como todos sabemos, as três características. A Cavaco, por exemplo, faltaria a isenção, foi sempre um homem de facção. Admito, aliás, que seja em torno da questão da isenção que se joguem as próximas eleições presidenciais. Para retomar outra expressão de Soares, quem será o melhor "moderador e árbitro" nos próximos cinco anos?
Mário Soares é o meu candidato.
Mas lamento profundamente a frieza com que Manuel Alegre foi tratado dentro do Partido Socialista. Disponibilizou-se para o combate difícil que ninguém parecia querer, quando os génios da táctica o davam por perdido e custa-me muito a acreditar que o tenha feito na total ausência de sinais. A generosidade paga-se, por vezes, muito cara, mas a frieza dos tacticismos também acaba um dia por chocar com os seus limites. Só que ninguém sabe quando é, como Cavaco não sonhou com a terça-feira de Carnaval.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Pululam que nem cogumelos! (e adenda)

Não chegava Luís Valadares Tavares. Agora é outro Luís, de seu nome Sousa Lobo.
Noticiava o Público de hoje (25/07/2005) que um “estudo” coordenado por este, em que participa, entre outros, Tiago Santos Pereira do CES, ordena as universidades portuguesas em função da sua produtividade no plano da produção científica. Tão simples é o “estudo” que ficamos sem saber por que razão é necessária uma equipa de investigadores para completar um exercício ao alcance de um pequeno grupo de alunos do ensino secundário: apurar o número de referências a artigos de autores portugueses na base de dados de artigos de revistas do ISI (Institute for Scientific Information) e dividi-lo pelo número de docentes da respectiva universidade. E, a seguir, ordenar as universidades por ordem decrescente do rácio obtido, ou, para usar uma linguagem de analfabeto cosmopolita agora tão na moda, um RANKING.
Resultado de tão laborioso procedimento: como se usa um indicador que mede, no essencial, a publicação de artigos em inglês nas áreas das ciências naturais, das engenharias e da saúde, conclui-se que a universidade do país com menos produção científica é aquela que em vez de cursos de ciências naturais, das engenharias e da saúde tem, sobretudo, cursos de ciências sociais e de gestão (o ISCTE)! Se não tivesse consequências seria uma anedota.
Mas tem consequências, pois assim se constroem imagens positivas e negativas das diferentes universidades, independentemente da sua real qualidade. Que no caso do ISCTE é demonstrada, por exemplo, pelos resultados das avaliações dos seus cursos e centros de investigação — estas últimas realizadas por equipas internacionais constituídas pela FCT, distantes portanto dos interesses paroquiais presentes na concorrência inter-universidades.
Com estudos destes semana sim semana não, o Canhoto não terá IgNóbeis em número suficiente para atribuir até ao final do ano.


ADENDA

[PJ said…] O exemplo do ISCTE é expressamente referido na notícia do Público pelo principal autor do artigo como exemplo das limitações do estudo. Por outro lado, é também referido que o "impact factor" dos jornais não foi tomado em linha de conta. Não me parece que este estudo pertença ao mesmo nível do estudo do Prof. Luís Tavares. Trata-se de um indicador, grosseiro é certo, da produção científica das universidades portuguesas com impacto internacional. Estudos posteriores poderão tomar em linha de conta outros factores que possibilitem uma análise mais detalhada e fiável. Este indicador não pode ser de forma alguma comparado com a classificação atribuída aos centros de investigação. São avaliações completamente diferentes.

De acordo, o trabalho de Sousa Lobo não está ao mesmo (baixo) nível do de Valadares Tavares. Por isso não foi nomeado para os IgNóbeis do Canhoto. Mas não é, também, minimamente aceitável. Nem sério (ou responsável).
Em primeiro lugar, não é aceitável porque o indicador construído não é um indicador grosseiro da produção científica das universidades mas apenas um indicador, aliás grosseiro também, da produção científica em algumas disciplinas. Não serve, exactamente por isso, para “comparar o trabalho das instituições como um todo”, argumento de defesa utilizado por Sousa Lobo no Público de hoje (23/07/2005). Repito, se o indicador o que não permite comparar é exactamente o todo, porque o utilizar para… comparar o todo? Ou estou burro de todo ou o argumento é completamente desprovido de sentido. O problema não é pois o da necessidade de estudos complementares posteriores mas o da necessidade de começar por outro lado, com outra informação. E a avaliação dos centros de investigação pela FCT será sempre um melhor começo.
Em segundo lugar, o trabalho não é sério. E não o é porque, sabendo-se quais os efeitos de enviesamento do uso do indicador, construir uma lista ordenada de universidades com base nos seus valores induziria, sempre, uma representação errada do sistema universitário nacional, com consequências nas escolhas dos alunos e nas políticas públicas. Se isto não foi percebido pelo coordenador do estudo, há apenas uma alternativa à acusação de falta de seriedade do estudo: a de total irresponsabilidade. O que para um ex-reitor, não está mal.

domingo, 24 de julho de 2005

Sintra, condomínio fechado

Segundo a Agência Lusa (2005-07-07), a investigadora Regina Salvador, que integra a equipa de Jorge Braga de Macedo que está a elaborar o plano de desenvolvimento de Sintra, declarou ser necessário travar o crescimento demográfico no concelho. Para isso, propôs a redução brutal da taxa de imigração: “Sintra corre o risco de se tornar um local do terceiro mundo se continuar a crescer e a receber mais pessoas”, afirmou Regina Salvador. A “redução brutal da taxa de imigração” conseguir-se-ia com o fim das casas a preços baixos e dos empregos na construção civil.
Pelo menos não se propõe criar fronteiras municipais. Apenas que se suba o custo de vida para que Sintra fique reservada aos mais ricos. Lógica do argumento: se não houvesse povo com dinheiro para ter casa, não haveria construção; se não houvesse construção, não haveria imigração. Logo, o mecanismo ideal para a contenção da imigração seria o subdesenvolvimento geral do país. E a transformação de Sintra num condomínio fechado.