segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Livro de Reclamações #1












A ALITALIA tem um preço imbatível na ligação Lisboa-Bucareste. De vez em quando a mala fica pelo caminho, mas esse é um inconveniente de qualquer viagem com escala e a perificidade de Portugal e da Roménia explicam a ausência de qualquer voo directo.
A refeição em voo foi reduzida a uma sanduiche franciscana, mas essa é a consequência natural da estratégia quase low-cost.
Em certos horários, pela graça do code-share viaja-se na Portugalia. Os aviões são mais novos, o serviço de bordo impecável.
O que não se percebe é porque é que, à saída de Bucareste, quando se viaja para Lisboa com o tal code-share a partir de Milão, a mala faz o check-in até ao destino e o passageiro não.
E, no aeroporto de Milão tudo é extraordinário: só por sorte há alguém em qualquer dos balcões de transfer; desafia-se alguém a encontrar a sinalização do check-in à primeira e, se depois de tudo isto, conseguir fazer-se entender, explicam-lhe que o duplo check-in se deve a que os sistemas informáticos da ALITALIA e o da PORTUGÁLIA não comunicam...
O que tenho eu a ver com isso se viajo com um bilhete de uma das companhias? E se, por força dessa falta de entendimento, ficar a meio da viagem?
Não se compreende que a ALITALIA e a PORTUGÁLIa não se entendam para dar este mínimo de seugrança a um passageiro que começa a sua viagem.

domingo, 13 de novembro de 2005

Angola teve azar

1. Em declarações ao Expresso, o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Portugal, João Gomes Cravinho, terá comparado Savimbi a Hitler. A polémica declaração foi pouco feliz, por falta de rigor, suscitando por isso inúmeros equívocos. Para sermos rigorosos, Savimbi foi o Pol Pot de Angola. Com o líder dos Khmer Vermelhos, Savimbi partilhava o ódio à vida urbana e à mestiçagem cultural, bem como muitos dos métodos violentos que marcaram a breve mas trágica passagem do segundo pelo governo do Cambodja. A vantagem do rigor na comparação é evitar a armadilha da simetria: José Eduardo dos Santos nada tem a ver com a figura de Pol Pot, nem o regime crioulo do MPLA com o regime dos Khmer Vermelhos. Talvez Noriega seja uma referência mais correcta para se perceber a natureza do regime de Luanda.

2. Angola teve azar. A coincidência entre colonialismo e ditadura dificultou a referenciação da luta anticolonial a objectivos de democratização. Enquanto na África do Sul a luta contra o apartheid era também a luta pela generalização de um regime democrático reservado à minoria branca, nas ex-colónias portuguesas o combate pela independência tendia a ser orientado pelo modelo do comunismo real, de onde lhe vinham grande parte dos apoios para a guerra anticolonial. Após a independência de Angola, essa orientação seria reforçada por permitir legitimar com facilidade a africanização do poder económico (para usar uma expressão mobutiana).

3. Angola teve azar porque o carácter recente do seu povoamento colonial intensivo (apesar da retórica em contrário tanto colonial como anticolonial), somado à falta de liberdade política também entre os colonos, ter incapacitado estes de terem qualquer voz activa na descolonização. E essa voz teria sido útil para evitar a monopolização do processo pelos partidos-exércitos em que se tinham convertido os movimentos de libertação. Para minorar as possibilidades dos partidos da guerra.

4. Angola teve azar com as datas. O colapso do regime ditatorial e colonial português em pleno auge da guerra-fria fez das ex-colónias portuguesas um terreno privilegiado de combate entre as superpotências. Especialmente Angola, devido aos importantes recursos petrolíferos do país, que utilizados fora do contexto da guerra poderiam facilitar a constituição de uma potência regional autónoma, rival da vizinha África do Sul.

5. Angola teve ainda azar por ser rica em termos mineiros. Essa riqueza, que ao contrário da de origem agrícola ou industrial é viável em regime de enclave quase total, permitiu financiar uma longa e mortífera guerra de décadas mesmo com a economia do país completamente desorganizada. Guerra que começou por ser travada por procuração e acabou por opor os interesses próprios de líderes seleccionados pela sua eficácia em liderarem a barbárie da guerra e não os combates pelo desenvolvimento. E voltamos ao princípio deste texto.

6. Depois de tanto azar, é tempo de Angola ter sorte. Com urgência. São os meus votos de feliz aniversário.

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

30 anos

Passam hoje 30 anos sobre a independência de Angola. Para quem lá viveu quase 20 e se entusiasmou com os combates anti-coloniais, é efeméride que merece ser assinalada. Mas os comentários ficam para o fim de semana, mais a frio, que a indignação não deixa escrever com razoabilidade.

Motins: respostas à direita

Economicismo no CDS
O meu texto “Chirac no Canhoto” (09/11/2005), em que criticava a intervenção de Nuno Melo na AR sobre os motins em França, suscitou um comentário crítico de Rodrigo Costa:
Pensa então que devemos abrir as portas do país a mais emigrantes, mesmo sabendo que não temos condições de albergar e integrar os que já cá estão. Concordo com Nuno Melo, parece lógico que abrir as portas do país de forma indiscriminada leva a que as condições de os receber e integrar se degradem.

Refere-se este comentário a outra parte da intervenção de Nuno Melo que não a por mim criticada no texto referido. Nessa parte, o deputado do CDS argumentava ser necessário deixar entrar menos imigrantes pois só assim haveria condições para a sua integração. Não se perde porém o comentário pois não concordo também com este argumento de Paulo Portas agora recuperado por Nuno Melo (e que, em abstracto, parece fazer algum sentido).
Critico-o, antes de mais, porque usado no contexto em que foi usado sugere que a raiz dos motins é, em França, o “excessivo” número de imigrantes. E não é. O número de imigrantes em França é menor, em termos absolutos e relativos, do que em qualquer grande país de imigração do “novo mundo”.
Critico-o, em seguida, porque o argumento subentende que o problema da integração é, no essencial, económico: se deixarmos entrar gente a mais o bolo não chegará para todos. Ora, este argumento tem três erros. O primeiro, é pensar os imigrantes como consumidores de riqueza, não como produtores de riqueza. O segundo, é pensar que situações de penúria entre imigrantes ou seus descendentes se devem apenas a uma penúria absoluta generalizada, esquecendo a existência de uma crescente desigualdade. O terceiro, é propor uma visão exclusivamente materialista do problema da integração, esquecendo os graves problemas identitários resultantes da incapacidade de a França, como Portugal ou outros países europeus, transformar estrangeiros em novos cidadãos.
Critico-o, por fim, em termos mais empíricos do que lógicos. Quando o Governo da coligação PSD/CDS geriu a imigração com base na palavra de ordem de Paulo Portas, o incremento do controlo só existiu no papel, assim se piorando as condições de integração dos imigrantes. Os imigrantes continuaram a entrar, mas como não lhes eram concedidas autorizações para se fixarem faziam-no ilegalmente. E não há pior ponto de partida para um percurso de integração do que a situação de irregularidade do imigrante.

Julgar e explicar
Como Rodrigo Costa é um comentador civilizado, assinou o seu comentário revelando-me, desta forma, a existência do blogue com o seu nome. Nestes casos vence sempre a curiosidade, pelo que espreitei o dito blogue, onde deparei com a seguinte frase:
A esquerda lacoste bate palmas aos causadores dos motins em França, afinal são jovens pertencentes a minorias que os causam e como tal, estão automaticamente inocentados.

Pode ser que haja quem se reveja nesta caracterização. Eu não. É fundamental separar a explicação de um fenómeno do julgamento dos que nele participam. E o meu julgamento sobre o que se passa em Paris é claro: a violência daqueles jovens não pode ser tolerada, devendo ser, quanto antes, reposta a ordem pública por meios policiais.
Mas como, e reafirmando algo já dito antes, nenhuma sociedade sobrevive muito tempo se recorrer sistematicamente à violência para repor a ordem pública, é indispensável não só julgar mas também explicar. Explicar, sobretudo, como é possível que num país como a França haja condições favoráveis à formação de jovens capazes dos comportamentos que temos visto. E sobre isto reafirmo tudo o que já disse, e que pode ser resumido num comentário seco à crónica de Vasco Pulido Valente no Público de hoje (11/10/2005).

A culpa: estado social ou estado nacional?
Vasco Pulido Valente responsabiliza o estado social pelo comportamento dos jovens franceses amotinados. Eu responsabilizo sobretudo os governos das etnonações europeias pela resistência que manifestam a transformarem estrangeiros imigrantes em novos cidadãos europeus. Claro que V.P.V. nunca poderá concordar com esta responsabilização, sendo, como é, um dos mais aguerridos “intelectuais orgânicos” da nação…

A desvalorização da mudança

Segundo Custódia Rocha, em declarações ao DN de ontem (10/11/2005), a igualdade de acesso ao ensino entre rapazes e raparigas “é retórica”. Não interessa o enorme progresso neste campo revelado por todos os indicadores. É retórica, pois trata-se de processo que não acaba com os estereótipos sobre homens e mulheres.
Confesso que me escapa a lógica do argumento, deste como de outros de Custódia Rocha. Mas fica a irritação com a desvalorização da mudança já conseguida. É que, para além do mais, não faz justiça às lutas que no passado tornaram possível o resultado agora posto em causa mas de que todos beneficiamos, incluindo Custódia Rocha.

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

Saber citar

Notícias surpreendentes, proclama João Carlos Espada (Expresso, 5/11/05), a propósito da publicação dum livro branco sobre a reforma do sistema educativo inglês pelo governo de Tony Blair. Cauteloso, fui espreitar aquele livro branco. Conclusão não muito surpreendente: Espada não sabe citar.

1. É verdade que a nova reforma anunciada promove a possibilidade de escolha das escolas pelos pais, bem como a possibilidade de as escolas escolherem o seu modelo de desenvolvimento e especialização, como é salientado por Espada. Mas é também verdade que (1) a escolha e a concorrência são meios, não fins, e (2) que essa reforma é a segunda realizada pelo governo de Blair. A primeira destinou-se a recuperar a qualidade do ensino público, melhorando a maioria das escolas ANTES de as colocar em concorrência entre si. Cito:
“Our aim is to transform our school system so that every child receives an excellent education — whatever their background and wherever they live. Because of the progress we have made since 1997 we can now take the next, vital steps” (p. 7, destacados a negrito por mim).
E o que fez ANTES o governo inglês? Segundo Blair, no prefácio ao livro branco, reformou as escolas públicas, investiu na rede escolar e no corpo docente, desenvolveu um sistema de avaliação das escolas: “We are at an historic turning point: we now have an education system that is largely good, after eight years of investiment and reform, which has overcome many of the chronic inherited problems of the past” (p. 1, destacados a negrito por mim). Resultado: “Ofsted reports the proportion of good or excellent teaching in primary schools rising from 45% in 1997 to 74% in 2004/05, and from 59% to 78% in secondary schools” (p. 2).

2. Ou seja, Blair quer mais escolha e concorrência entre as escolas públicas DEPOIS de as ter posto em condições de ganharem com essa concorrência, DEPOIS de ter investido na melhoria substancial da qualidade do seu ensino. Espada quer os princípios da escolha e da concorrência já, aproveitando o estado menos bom da nossa escola pública de hoje, pois para ela a possibilidade de escolha da escola tem prioridade sobre a melhoria da maioria das escolas. Ao contrário de Blair, não lhe importa a desigualdade desde que possa escolher, pois sabe que ficará sempre com a melhor parte.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Chirac no Canhoto

Nuno Melo, do alto da sua imensa sabedoria, informou-nos que os motins em França são uma consequência das políticas de imigração laxistas da esquerda. Com base nesta informação absolutamente nova não perdemos tempo: convidámos Chirac, Sarkozy e Villepin para integrar o núcleo de colaboradores do Canhoto. Reforços de esquerda, ainda por cima do estrangeiro.

Praxes

Sou absolutamente contra aquilo que se designa, com algum humor sádico e machista, por praxes académicas, como se nos devêssemos rir disso. São uma escola de falta de democracia e fascismo e devia haver uma atitude de menos complacência por parte de todos, nas universidades e fora delas. […] As universidades não são sítios onde a lei não se aplica. [… Vou] aplicar a lei e exigir o seu cumprimento dentro das universidades. […] Não há paraísos para a humilhação ou para práticas fascistas e esses paraísos não podem estar dentro do ensino superior.

(José Mariano Gago, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Público, 07/11/2005)

Eu sei que o slogan se revelou pouco recomendável

David Justino leu os meus posts sobre o “Portugal Maior” de Cavaco.
Compreendo o incómodo que a filiação da expressão no integralismo lusitano lhe causa, mas não a desmente, prefere atacar-me.
Não percebo porque decidiu enveredar pela insinuação de mau gosto, que não esperava, não acho que lhe fique bem e merece ficar sem resposta.
Quanto ao slogan, digo mais: ainda se pode acrescentar à lista dos usos passados pouco recomendáveis da expressão, pelo menos, um filme colonialista dos anos 20.
As reminiscências históricas são o que são e geram as familiaridades na memória que geram. Acredito que tenham pregado uma partida aos publicitários que desenvolveram o slogan. O que não o torna mais recomendável.

Armas químicas no Iraque?

Antes de ir dormir passei pelo Euronews e caí nesta notícia de que as tropas norte-americanas terão usado uma arma química – o fósforo branco – contra populações civis, em Fallujah.
A alegação do uso de armas químicas é séria e que esta tenha sido usada desta maneira e com estas consequências ou é mentira ou tem enorme gravidade e carece de denúncia imediata.
Até hoje não sabia o que era o fósforo branco e – impressionado pelas imagens mostradas – fui à procura. Encontrei esta descrição numa agência oficial norte-americana.
As democracias, mesmo quando fazem guerras, têm regras estritas. Faz parte da sua superioridade. No caso do concreto do Iraque, as notícias de que a Administração Bush as violou e viola repetidamente sucedem-se.
Ou esta notícia merece um desmentido peremptório do exército americano, ou a opinião pública carece de uma explicação que se afigura impossível, ou o apuramento de responsabilidades tem que ser feito.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Visitas ou novos membros da família?

Segundo Salgado de Matos (Público, 07/11/05), os distúrbios em França explicam-se pela recusa dos imigrantes em serem franceses. Isto, apesar de os “franceses pressuporem que todos os imigrantes querem ser franceses”. Estaríamos, pois perante um caso claro de amor não correspondido.

Estas afirmações de Salgado de Matos baseiam-se em nada (e as feitas sobre Portugal baseiam-se na ignorância pura e simples). Se há algo que falta, em todos os países europeus, é, exactamente, uma política de transformação dos imigrantes e seus filhos em novos cidadãos europeus. A começar pela lei da nacionalidade que, em França como em todos os países europeus, não reconhece automaticamente a nacionalidade do país de destino aos filhos dos estrangeiros aí nascidos, desde o nascimento. Por outras palavras, as políticas europeias de imigração e de nacionalidade prolongam no tempo, o mais que podem, a situação de estrangeiro dos seus imigrantes. Ao contrário dos EUA e dos novos países de imigração em geral. Depois estranha-se o contraste entre o patriotismo precoce dos novos americanos e a persistência de uma identidade de outsider entre os imigrantes europeus.

Não é por recusarem a França que os jovens da “segunda geração” a incendeiam, mas porque a França lhes foi recusada. E não porque a França os tenha recebido mal, mas porque os tratou sempre como visitas, nunca aceitando que fizessem parte da família. Como em Portugal.

A expressão soava-me vagamente familiar #2

O pano de fundo em que as palavras do actual slogan de Cavaco Silva foram usadas no século passado evoca, definitivamente, um imaginário oposto do pensamento laico, moderno, cosmopolita e democrático que deve caracterizar a República do século XXI.
Depois de o ter descoberto nas doutrinas da Mocidade Portuguesa Feminina, encontrei a origem ideológica do uso que aí se fazia. Nem mais nem menos do que o Integralismo Lusitano que, para quem não saiba, era monárquico, tradicionalista e anti-democrático.
Num ensaio de André Ventura, que pode consultar aqui, recorda-se o contexto religioso da expressão “Portugal Maior”, com a qual António Sardinha (que a usou outras vezes com o mesmo sentido) queria defender a sua visão tradicionalista e anti-liberal, combatendo a que a modernidade propunha, reduzida à imagem de erva daninha recente e ameaçadora. Escreve Sardinha:

Para que a visão cristã do Portugal Maior se descubra diante de nós, importa que se areje a torre fechada em que nos torcemos — importa que se destrua nas pregas mais insignificantes da nossa sensibilidade ou do nosso conhecimento qualquer raíz daninha que para lá bracejasse.
(António Sardinha, Ao Princípio Era o Verbo, citado por André Ventura, Integralismo Lusitano. Subsídios Para Uma Teoria Política, pp. 57-58)

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

A propósito das chamas nas periferias francesas


Citação
LIBERTÉ? French Muslims banned from wearing headscarves in school.
ÉGALITÉ? France's non-whites twice as likely to be unemployed.
FRATERNITÉ? French government admits integration policies have failed.
RÉALITÉ: Riots erupt for eleventh night.

(Fonte: Independent, 7 Nov 05)



(Fonte: El Pais, 7 Nov 05)

Uma pergunta: qual é a relação entre a situação existente nas periferias de algumas cidades francesas e a revolta que se seguiu à incapacidade da administração Bush prevenir os danos e limitar as consequências do Katrina?

Uma resposta: em ambos os casos, as consequências das políticas conservadoras aplicadas foram fortemente potenciadas por formas de gestão da crise em que o desrespeito pelos outros se fundiu com a irresponsabilidade e a incompetência dos governantes .

A expressão soava-me vagamente familiar

Quando Cavaco Silva se apresentou como candidato por “Portugal Maior” a ressonância da mitologia do “Portugal não é um pequeno país” veio-me imediatamente ao espírito. Mas afastei os fantasmas.
As deambulações bloguisticas estão-me a dizer que a mensagem subliminar que me chegou não deriva do hipercriticismo de um apoiante do adversário. Noutros tempos, outras pessoas quiseram fazer passar mensagens da redenção de Portugal recorrendo à mesma expressão.
Não acredito que quem concebeu o slogan de Cavaco tivesse a intenção de o fazer, mas que o passado da expressão não é recomendável, julgo que ninguém pode negar.
Se o post do História e Ciência não nos está a fazer lavrar em erro, a Mocidade Portuguesa Feminina, criada nos anos 30, visava explicitamente formar raparigas “conscientes dos seus deveres de Cristãs e Portuguesas e convictas da necessidade de cooperarem, pelas suas virtudes, pelo seu aperfeiçoamento moral, na conquista dum Portugal Maior”.

Livros #9

Culture and Equality. An Egalitarian Critique of Multiculturalism
de Brian Barry (Arnold A. Saltzman Professor, Department of Political Science and Department of Philosophy, Columbia University; Emeritus Professor of Political Science at the London School of Economics)
Cambridge, Polity, 2001, 412 pp.

Numa altura em que vai ser indispensável discutir as políticas adequadas para responder à desintegração revelada pelos motins em França, esta é uma obra fundamental. Uma crítica do multiculturalismo na continuidade da obra de Rawls. Barry argumenta que o “liberalismo igualitário” constitui a melhor alternativa ao multiculturalismo, o qual, exagerando a origem cultural da situação de desprivilégio das minorias, minaria políticas redistributivas cuja eficácia depende da salvaguarda de princípios universalistas.

Índice «Preface / Part I. Multiculturalism and Equal Treatment / 1. Introduction / 2. The Strategy of Privatization / 3. The Dynamics of Identity: Assimilation, Acculturation and Difference / Part II. Multiculturalism and Groups / 4. Theories of Group Rights / 5. Liberalism and Illiberal Religions / 6. The Public Stake in the Arts and Education / Part III. Multiculturalism and Egalitarianism / 7. The Abuse of 'Culture' / 8. The Politics of Multiculturalism / Notes / Index.»


O debate sobre o polémico livro de Brian Barry deu origem a
Multiculturalism Reconsidered. “Culture and Equality” and its Critics
organizado por Payk Kelly
Cambridge, Polity, 2002, 256 pp.

Índice «Introduction: Between Culture and Equality (Paul Kelly) / 1. Liberalism and the Accommodation of Group Claims (Samuel Freeman) / 2. Choice, Chance and Multiculturalism (Susan Mendus) / 3. Liberalism, Equal Opportunities and Cultural Commitments (David Miller) / 4. Defending some Dodos: Equality and/or Liberty? (Paul Kelly) / 5. Equal Treatment, Exceptions and Cultural Diversity (Simon Caney) / 6. The Illiberal Liberal: Barry’s Polemical Attack on Multiculturalism (James Tully) / 7. Culture, Equality and Diversity (Judith Squires) / 8. Barry and the Limits (or Dangers) of Liberalism (Bhikhu Parekh) / 9. All Must Have Prizes: The Liberal Case for Interference in Cultural Practices (Clare Chambers) / 10. Democratic Justice and Multicultural Recognition (Ian Shapiro) / 11. The Life of Brian, or Now for Something Completely Difference Blind (Chandran Kukathas) / 12. Second Thoughts: And Some First Thoughts Revived (Brian Barry) / Index.»

domingo, 6 de novembro de 2005

A Pátria contra a democracia

Segundo Manuel Alegre, “[t]emos que voltar a dizer com orgulho a palavra Pátria e dar-lhe um sentido de modernidade e de futuro”. Lendo o discurso de apresentação da candidatura, de onde esta citação foi retirada, encontro raízes a mais: é a alma do povo português, seja lá o que isso for, é a identidade de séculos, que vive eterna não se sabe como, é a retórica nacionalista comum sempre presente. Há um predomínio da pátria sobre a democracia, como transparece na justicialista proposta de respeitar a presunção de inocência em abstracto mas anulando-a em concreto (quando se pergunta “se um cidadão pronunciado, ainda que sem pôr em causa a presunção de inocência, poderá ser candidato a cargos políticos”).
Não sei já se este é um discurso de esquerda. Mas cosmopolita e democrata não é de certeza.

Os nossos bairros continuam a crescer


1. A escola é, por definição, um dos primeiros quadros em que os comportamentos disruptivos juvenis se manifestam. Aos que hoje se surpreendem com o que se passa em Paris, vale a pena lembrar que o fechamento social em meios sociais homogéneos e fortemente estigmatizados precedeu esta reacção e que os sintomas se acumulam há muito tempo.
O Rui Pena Pires lembrou ontem os efeitos da não integração dos imigrantes na comunidade nacional.

2. A construção das pátrias de refúgio dos cidadãos que se desiste de integrar atravessa os fenómenos da vida social e tem na intolerância religiosa um factor de ancoragem historicamente recorrente.
Para ajudar à compreensão do que se passa em França vale a pena ler
este relatório da sua Inspecção-geral da educação, de 2004, que abordou de modo impressivo e preocupante os fenómenos de intolerância religiosa nas escolas das comunidades segregadas.
Quem pensa que o que está em causa é apenas o comportamento dos jovens islâmicos, engana-se, embora entre estes a gravidade da situação a que se chegou pareça maior.
Uma das mais importantes conclusões conduz a um apelo à acção promotora da mistura social (e, consequentemente, religiosa)nas escolas. Só surpreende que o apelo já seja necessário e desta forma.

3. É natural que cada um procure intervir onde e como pode, mas convém recordar que há uma grande responsabilidade das políticas públicas de habitação na construção da probabilidade de encontrar os meios cujos efeitos nefastos se pretende contrariar na escola.
Depois do desastre sociourbanístico dos "projects" americanos, com os seus gangs, a Europa está a viver o das cidades "HLM", com a intolerância religiosa e a recusa de valores democráticos fundamentais.

4. Os nossos bairros continuam a crescer.

sábado, 5 de novembro de 2005

Motins em França

Os motins nos subúrbios de Paris constituem um aviso sério sobre o estado de degradação da coesão social e nacional em França como noutros países europeus.

1. É indispensável separar claramente a explicação dos motins do seu julgamento, e ser claro neste. A degradação da coesão social e nacional não está apenas na origem dos motins, é também por estes agravada. Não é pois possível desculpabilizar os comportamentos violentos dos jovens amotinados apenas porque a origem destes pode ser explicada por factores colectivos.
Porém, não é viável a sobrevivência de uma qualquer sociedade moderna e democrática se esta tiver que recorrer rotineiramente à violência para garantir a ordem social. É pois necessário, também, identificar os factores de desintegração social que estão na origem dos motins e actuar sobre eles.

2. Em minha opinião, o problema-chave é identitário, ainda que agravado por dinâmicas de exclusão social. Agravado apenas, porque pobre não tem que ser, automaticamente, delinquente! A sistemática e fácil associação entre pobreza e delinquência, para além de não ter suporte empírico, é estigmatizante. Porém, a pobreza pode facilitar a produção da delinquência e de comportamentos violentos quando está associada à rarefacção dos controlos morais que se tornam efectivos pelo julgamento colectivo. Ou seja, embora as nossas sociedades não sejam comunidades, só são viáveis quando incluem dinâmicas comunitárias de pressão social.
Ora, na maioria das sociedades europeias as “origens étnicas da nação” levam a uma categorização demasiado fácil dos emigrantes como “outros”. E é com relutância que se reconhece a esses “outros” o estatuto de verdadeiros nacionais. Assim, na Europa, a concessão da nacionalidade aos imigrantes é ainda vista mais como um prémio do que como um mecanismo de integração. Em consequência, mesmo em França, a aquisição da nacionalidade francesa pelos filhos dos imigrantes já nascidos no destino, a chamada “segunda geração”, só se torna plenamente efectiva entre os 13 e os 18 anos. A construção do sentimento de pertença à colectividade nacional é pois suspensa durante a juventude, reduzindo-se por esta via a construção do compromisso moral para com essa colectividade e a eficácia desta no controlo social destes jovens. E quando a este enfraquecimento da pertença colectiva se adiciona o racismo, ou seja, a rejeição pela colectividade, a desafectação de parte dos jovens pode ser total.

3. O problema da desafectação nacional agrava-se quando a distribuição dos imigrantes no território é marcada pela segregação residencial, isto é, quando os imigrantes estão residencialmente concentrados, frequentemente em subúrbios de elevada densidade populacional e construtiva. E agrava-se, porque essa concentração permite a criação de uma pertença colectiva segregada que, suprindo parcialmente a desafectação nacional, facilita a legitimação da revolta étnica. Pertença colectiva que tende a ser ideologicamente justificada com base num pretenso direito à diferença cultural independentemente do julgamento dessa diferença.
A ideia de que é possível, se não mesmo preferível, manter os imigrantes fora da nação remetendo-os para uma pretensa comunidade etnocultural, facilitada sempre que estes estão residencialmente concentrados, apenas sedimenta as dinâmicas de segregação e, portanto, de degradação da coesão social e nacional. O multiculturalismo, enquanto ideologia que suporta este ideal de “segregação benigna”, é pois parte do problema, nunca parte da solução.
Pelo contrário, é parte da solução o reforço sistemático da inclusão dos imigrantes e dos seus descendentes na colectividade nacional, por todos os meios. Como é parte da solução uma política de realojamento caracterizada pela mistura, não pela segregação.
Em França como em Portugal.
Para não nos espantarmos amanhã.

Trata-se de eleger um Presidente da República

Há muitos argumentos que podem justificar a candidatura presidencial de Manuel Alegre, mesmo depois de o seu partido ter decidido o candidato que apoiava. Mas há um que me tem sido repetido por militantes do PS que não conduzirá a lado nenhum.
As eleições presidenciais não são a segunda volta da eleição interna para Secretário-Geral. Nesta, Alegre perdeu e por muito. Se nessa derrota, em que também estive, houve lamentáveis comportamentos de controlo aparelhista por parte dos vencedores, é inegável que a vontade dos militantes era, naquele momento, aquela.
Estas eleições também não são a oportunidade de vingança sobre esse tal controlo aparelhista. Primeiro, porque o candidato apoiado à esquerda que quiser ganhar as eleições tem que pedalar muitissimo para além, mas com, todo o PS e não o fará resmungando contra ele. Segundo, porque Mário Soares está há muito afastado de qualquer aparelho partidário em geral e do que hoje controla o PS em particular.
Manuel Alegre já demonstrou que ocupa nestas eleições um espaço político próprio, que mobiliza sectores culturais específicos, que apela aos espíritos de esquerda que se movem entre franjas do PS, da CDU (neles incluidos muitos compagnons de route e até militantes desiludidos com o PCP) e do BE. Demonstrar porque se distingue o projecto presidencial que move estas pessoas será o próximo passo do candidato, se quiser passar além do quadrado interior. Dizer que é porque o PS tomou uma decisão que consideram errada, que querem corrigir, repetindo um tique, frequente à esquerda, de tentar tutelar as escolhas deste partido sem participar nele ou depois de nele ser derrotado, é apoucar simultaneamente o PS, Soares e o próprio Alegre.

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

"This is not what America stands for"

1. A notícia da possibilidade de haver campos de detenção ilegais geridos pela CIA na Europa só é novidade por causa da localização.
Há anos que se sucede a alegação da existência de campos secretos e já tinha sido noticiado que o Vice-Presidente Dick Cheney está a tentar evitar que a legislação sobre tratamento cruel e degradante se aplique aos agentes da CIA. Um passo tão arriscado só deve ter sido dado por haver um fundamento forte que o justifique.
Mas a localização não é irrelevante. Os europeus são - e bem - muito reactivos a tal possibilidade. A CIA não pode ignorá-lo, portanto, a escolha só pode ser sinal de uma enorme provocação ou da existência de problemas sérios. Nenhuma das hipóteses é reconfortante.

2. Os auto-designados atlantistas hão-de dar-nos uma explicação tranquilizante e criticar o injustificado exagero anti-americano da reacção apressada da velha Europa. Enquanto preparam o discurso, talvez valha a pena que anotemos que há quem tenha lido assim a notícia:

"This is not what America stands for. This is more like Chile under [former dictator Augusto] Pinochet, or Argentina under the [former] junta" .

Não se trata, registe-se de nenhum intelectual europeu radical mas de um membro do Congresso (Jim McGovern, democrata do Massachusetts).