sexta-feira, 30 de junho de 2006

Monoculturalismo plural

O Courrier Internacional de 9 de Junho incluía um texto de Amartaya Sen sobre os usos e abusos da ideia multiculturalista (pp. 41-42), publicado originalmente em The New Republic. Vale a pena citar extensivamente.

Uma das questões fundamentais relaciona-se com a forma como os seres humanos são vistos. Devemos classificá-los em função de tradições herdadas e dar automaticamente a essa identidade não escolhida a preeminência em relação a outras afiliações que podem dizer respeito, entre outros laços sociais, à política, à profissão, à pertença de classe ou de género, à língua, à literatura ou aos empenhos sociais? Ou será necessário considerá-los indivíduos com numerosas afiliações, que estabelecem eles próprios a sua ordem de prioridades (assumindo a responsabilidade inerente a essa escolha consciente)? Devemos apenas “deixar em paz” as pessoas provenientes de meios culturais diferentes ou apoiar activamente a sua capacidade de efectuar escolhas racionais, abrindo-lhes oportunidades sociais de educação e participação na sociedade civil?

Um ponto crucial tem a ver com a distinção entre multiculturalismo e aquilo a que podemos chamar “monoculturalismo plural”. […] Quando dois estilos ou tradições vivem lado a lado sem nunca se encontrarem, estamos em presença de monoculturalismo plural. E as vozes que se levantam hoje com tanta frequência para defender o multiculturalismo mais não fazem, muitas vezes, do que reivindicar um monoculturalismo plural.

“… se a religião ou a pertença étnica podem constituir factores identitários fundamentais para os indivíduos (sobretudo se estes podem escolher livremente seguir ou rejeitar tradições herdadas ou atribuídas), esses indivíduos têm iguais razões para valorizar outros laços ou afinidades.

Os habitantes do planeta não podem ser exclusivamente apreciados pelo prisma da sua pertença religiosa, como se este fosse uma federação mundial de religiões.

O Governo britânico procura impedir os dirigentes religiosos de fazerem incitações ao ódio nas suas orações, o que é legítimo. Mas o problema é mais vasto: trata-se de saber se os cidadãos de origem imigrante devem ser considerados, em primeiro lugar, como membros de comunidades e etnicidades religiosas específicas; e não se sentirem britânicos senão através dessa pertença, numa suposta federação de comunidades. Percebe-se facilmente que esta visão tornaria qualquer país mais vulnerável à incitação e a uma cultura de violência sectária.

Uma nação não pode ser encarada como um conjunto de segmentos sequestrados, com cidadãos que têm lugares cativos em segmentos predeterminados.

Infelizmente, não vejo possibilidade de atribuir outro sentido ao termo multiculturalismo do que aquele que prevaleceu, com a vitória simbólica dos comunitaristas: o de “monoculturalismo plural”. Por isso prefiro designar as estratégias alternativas para lidar com o pluralismo cultural no mundo contemporâneo com a expressão cosmopolitismo.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Pai, afasta de mim esse cálice


Não há vitória que apague a retórica profundamente autoritária que hoje domina a Selecção Nacional (bem, talvez a vitória na Final apague). Na conferência de imprensa que se seguiu ao (fantástico) Portugal-Holanda, lá voltou a conversa anti-intelectual: «São três ou quatro pessoas, eu sei, mas agora espero que se calem até ao fim da nossa campanha» (Pauleta, A Bola, 26 de Junho). Que se calem.
Num programa televisivo, os sms sucedem-se em rodapé: «Não sou intelectual. Sou pela Selecção! Fábio, Cova da Piedade». No mesmo programa, um jornalista, visivelmente espantado, descrevia a conferência de imprensa da Selecção do Irão como «uma batalha verbal». Se a crítica e o escrutínio a que estão sujeitas as selecções de futebol fossem critérios na classificação dos regimes, Portugal entrava directamente para «o eixo do mal».

O regresso de Santana

Há já algumas semanas que não se falava de Santana Lopes. Pois a semana passada, o ex-primeiro-ministro anunciou o seu regresso ao Parlamento. A notícia não parece ter sido bem recebida pelos seus companheiros de partido. Este facto é revelador de que o PSD continua a responsabilizar, no essencial, Santana pelo resultado eleitoral das últimas legislativas. Ao fazê-lo não só evita reflectir sobre as causas do seu insucesso, como mostra que continua a não perceber a razão porque o actual Governo, apesar das medidas impopulares, continua a ter assinalável apoio. Este é o tema do meu artigo do Diário Económico, que pode ser lido aqui.

Cultura virtual

Hoje quase só ouço rádio no carro, sintonizado, por regra, na Antena 2. Quando a conversa domina sobre a música mudo para a antiga Luna, hoje Classe FM. Esta, porém, exagera na falta de conversa, sendo frustrante ouvir uma peça que não se (re)conhece e não ter qualquer informação sobre ela. Em contrapartida, a Antena 2 é informativa mas esconde dos ouvintes a referência ao editor das músicas difundidas. Está lá tudo o resto: compositor, intérprete(s) e, em alguns casos, local e data de gravação. Sobre o editor, porém, nada. É como se as gravações existissem sem mediações editoriais, sem suporte físico, sem acção económica.
Disseram-me que é para evitar a publicidade, mas não me parece que o argumento faça qualquer sentido. Se assim fosse, as bibliografias académicas também deveriam omitir o editor dos livros referenciados. Ou, noutro campo, as transmissões e notícias sobre a competição automóvel deveriam omitir o nome das marcas. Imagine-se a notícia: “…a prova foi ganha pelo piloto do carro amarelo cuja marca começa por R, ficando em segundo o piloto do carro vermelho com um cavalinho amarelo pintado na carroçaria.”
Parece-me antes que esta prática ingénua revela o predomínio de uma concepção sobre a cultura com horror às indústrias da cultura. Um entendimento da cultura que convive mal com as condições materiais da sua produção e difusão, como se fosse possível a desmaterialização da obra cultural e exigível a sua total desmercantilização.
O apego a esta concepção da cultura como algo virtual e livre do mercado resvala para o preconceito. Mas o preconceito tem efeitos colaterais. Em rigor, o que a Antena 2 faz viola os princípios deontológicos da citação.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Disputa sobre a propriedade do sorriso

Esta notícia do IHT dá conta de uma disputa nos tribunais americanos sobre a posse do smiley, a imagem do sorriso. Parece que uma empresa francesa reclama do uso do sorriso pela Wal-Mart, uma empresa pela qual quem tenha visto o Bowling for Columbine não pode ter grandes simpatias, invocando que tem a patente registada em França e quer usar a marca com um perfil mais elevado. O Tribunal decidirá. Segundo uma das partes, ouvida pelo jornalista, este :-) não se inclui na disputa porque é só pontuação.
Mais uma boa notícia para a globalização. Neste mundo de marcas universais há duas empresas dispostas a apostar algum dinheiro para disputar a propriedade do sorriso.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Gesto patriótico?

Ninguém pensa que a polícia serve para estes "gestos patrióticos", pois não? Os portugueses de Bucareste, ontem hastearam livremente as bandeiras que traziam onde quiseram. Felizmente não havia por cá a PSP da Madeira nem a lei da República Portuguesa que é invocada nem sequer se lembraram ainda de exigir reciprocidade para reconhecer o direito de um estrangeiro a... pôr a bandeira do seu país à janela de casa sem ser acompanhada da do país em que é residente.

domingo, 25 de junho de 2006

Verdades inconvenientes

A entrevista feita a Al Gore pelo El País Semanal tem como pretexto a apresentaçao do filme deste dirigente político norte-americano sobre a mudança climática, cujo título é glosado no deste post
O "vice" de Bill Clinton - que ganhou a votos mas foi declarado derrotado em mandatos quando Bush filho chegou à Casa Branca - cita Jürgen Habermas para sustentar que o espaço público foi alterado com a chegada da televisao, o que supuso una regressión a los monasterios medievales, porque la fuente de los mensajes quedó en las manos de muy pocos. Ahora, el individuo no puede intervenir en la conversación por encima de los medios comunicación dominantes, uma situaçao que talvez venha a ser revertida, segundo Gore, pelo recurso conjugado da internet e do vídeo digital.
Nao resisto a duas citaçoes adicionais a propósito da relaçao entre a TV e a política:
1. La principal pregunta, la clave, es como conseguir que el conocimiento desempeñe de nuevo el papel determinante a la hora de dar forma a las decisiones que toman la democracias en en todo el mondo.
2. Irónicamente, la política se ha reducido a spots de no más de unos segundos, pero el problema es que algunas de la principales crisis, como la del clima, no pueden ser tratadas con estos escasos segundos.
E temos, nós e eles, Bush na Casa Branca ...

Feteasca Neagra

Considerado o pai dos vinhos romenos por ser uma casta autóctone gerada por mutação espontânea da vinha selvagem, o Feteasca Neagra é um vinho tinto que se produz em diversas regiões da Roménia. Diz-se que também por mutação espontânea gerou o Feteasca Branca, variante de vinho branco a partir do qual, já por intervenção vinhateira,nasceu a casta também branca Feteasca Regala.
A primeira vez que me deparei com ele foi num restaurante tradicional romeno, recomendado pelo empregado, em que abriram uma garrafa passada e embirrei, mal, que tivesse sido falsificado pelo restaurante por ser bizarramente apresentado em garrafa arrolhada mas sem protecção da rolha.
A segunda tentativa foi mais bem sucedida e, dos diversos vinhos tintos romenos que fui conhecendo, quase sempre monocasta, esta casta e este produtor foram-me ficando no palato e na memória. Não pode competir com as "grandes castas" internacionais, de que se faz aqui muito Merlot, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon, mas dá um perfume diferente e local que acompanha bem os rituais alimentares romenos das refeições de carnes mistas servidas com forte dinâmica comunitária.
O produtor, no vale de Prahova, entre Bucareste e o vale de Timis (onde se inclui a famosa Timisoara), uma região que merece uns dias de férias, foi comprado em 1998 por um importador britânico de vinhos. Mas não me atrevo a fazer notas de prova de vinhos pelo que não partilharia esta sensação sem um argumento externo de autoridade. Esse chegou-me pela mão desta revista romena de vinhos online, que põe este produtor e o ano à cabeça de um top ten de vinhos da casta.
O preço é muito razoável. No supermercado da minha rua custa 22 lei (um pouco mais de 6 euros), mas nas grandes superfícies custa menos um. Se vier à Roménia e gostar de vinhos, não deixe de experimentar.

Vinho: Feteasca neagra – Special reserve 2002
Produtor: Cramele Halewood
Região: Vale de Prahova, Roménia

sábado, 24 de junho de 2006

O futuro dos colaboradores com as ditaduras do passado

Mais de uma década e meia depois da derrocada dos regimes comunistas, as elites políticas das democracias que se lhes sucederam continuam submetidas ao escrutínio da actividade das antigas polícias políticas.
Só esta semana houve três casos públicos de alto nível: Georghi Parvanov, Presidente da República da Bulgária anunciou que tinha um nome de código na polícia secreta bulgara para a qual elaborou...um estudo sobre um patriota bulgaro da Macedónia no final do séc. XIX; Zyta Gilowska, Ministra das Finanças da Polóna foi demitida depois de ter sido acusada de mentir numa declaração escrita em que negava ter sido colaboradora da polícia política polaca, dado que no seu país é necessário declarar minuciosamente que relação se teve com a polícia política para poder exercer funções públicas; na Roménia, Dan Voiculescu, indicado para Vice-Primeiro Ministro, não acedeu ao cargo depois da comissão oficial que trata do assunto o ter declarado informador da securitate, quando trabalhava no instituto romeno do comércio externo.
Estes casos são exemplificativos de quanto as elites políticas dos países ex-comunistas saíram das fileiras das elites pelo menos de altos funcionários e dirigentes dos Estados comunistas, processo provavelmente inevitável, dada a asfixia que havia sobre toda a divergência e dissidência. Mas são também demonstrativos de que em todos estes países permaneceram arquivos cuidadosamente geridos dessas polícias e de que a relação com elas é um elemento incontornável da vida no espaço público.
Noutras transições para a democracia o processo foi muito diferente. Provavelmente tratava-se de polícias políticas que nunca tiveram tanta força como as comunistas. Hipoteticamente a continuidade entre as elites dirigentes ditatoriais e as democráticas foi menor. Seguramente, a relação com o passado, foi gerida de modo diferente, glorificando e bem os gestos heróicos das vítimas mas lançando um amplo véu de silêncio e esquecimento sobre o tecido social difuso de que todas as polícias políticas se alimentam.

Uma coisa é certa, os Estados policiais deixam marcas sobre as sociedades e criam problemas de qualidade da democracia e de exercício da justiça independente que lhes sobrevivem durante gerações.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Os territórios não têm direitos

Os nacionalismos são, na minha opinião, uma ameaça para os estados de direito e para os países europeus. […] Parece-me que os estados devem é abrir-se por cima, sob a forma de entidades internacionais, e não por baixo, através de tribos ou de grupos. […] Não são os territórios que têm direitos, mas sim os cidadãos. E é com os cidadãos (e não com os territórios) que devemos preocupar-nos.

Fernando Savater, Visão, 22 de Junho, p. 17 [destacado meu].

As audiências dos Gato Fedorento

Segundo a Marktest, a série Lopes da Silva dos Gato Fedorento, atingiu os seus maiores índices de audência nos segmentos da população idosa, das classes sociais mais baixas, residente no Interior ou na Grande Lisboa. Quem diria que o humor dos Gatos era, afinal, consumido predominantemente pelos nossos avós?

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Não compreendo a atitude do PS em relação ao esclarecimento dos alegados voos da CIA

Não compreendo a orientação do Grupo Parlamentar do PS na questão dos eventuais voos da CIA em território português.
O contributo do relator do Parlamento Europeu sobre as alegadas operações ilegais da CIA na Europa inclui uma lista detalhada de aviões, com voos, origens e destinos e datas, que carece de ser explicada. Talvez seja errada, talvez seja irrelevante, mas existe e foi apresentada publicamente, não pode ser ignorada.
Ficaria muito mais tranquilo se soubesse que as autoridades portuguesas de viva voz repudiam que qualquer operação ilegal da CIA nesse âmbito, envolvendo aqueles ou outros aviões, alguma vez tenha ocorrido em território português. Depois de ouvir o eurodeputado Carlos Coelho dizer que é necessário melhorar o controlo dos serviços secretos europeus, gostaria que os nossos responsáveis pelos serviços de informação esclarecessem que não foram envolvidos, activa ou passivamente, nem nunca recolheram nenhuma informação que conduzisse a que qualquer operação desse tipo tenha envolvido directa ou indirectamente Portugal.
Acho louvável o requerimento que o deputado José Vera Jardim apresentou ao Governo sobre este assunto. Compreendo que o PS não queira que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, as autoridades de navegação aérea e os serviços de informações sejam ouvidos nas datas e segundo o formato dos requerimentos do PCP e do Bloco de Esquerda.
Não percebo de todo, contudo, é porque é que o PS não apresenta uma iniciativa própria de audição de quem for relevante sobre o que significa a lista detalhada de voos apresentada pelo relator do Parlamento Europeu, incluindo, recorde-se, pela primeira vez, o relato de um voo que liga Portugal a Guantanamo. Por que critério a explicação desta ocorrência não é motivo suficiente para um esclarecimento público? Por que critério esse esclarecimento não deve ser prestado no Parlamento? A razão deve ser evidente e eu não a estar a perceber. Expliquem-me, por favor.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Os inimigos do Governo na área da educação

A política do Governo para a educação tem dois inimigos a abater, o insucesso escolar e o atraso nos níveis educativos do país. Tem um adversário de peso, a ineficiência da despesa pública com educação. E tem um objectivo claro, conseguir mais escola pública, mais diversificada, mais atenta às necessidades dos alunos, com mais actividades e mais sensível às famílias dos alunos.
No caminho, entre outros, há um escolho para remover, um sistema de carreira docente que juntou aos defeitos originais os que se acumularam pela maneira como foi sendo aplicado e interiorizado pelos agentes.
Quem pensar no Ministério da Educação que os professores são os seus adversários está rotundamente enganado. Quem pensar, do lado dos sindicatos, que se pode prescindir de rever este modelo de carreira, está preso a uma ilusão sem futuro.
É preciso romper com o triângulo do impasse: despesa publica a nível aceitável mas ineficiente; escola com segmentos de qualidade mas incapaz de chegar aos alunos que dela mais necessitam; níveis de escolarização baixos e demonstrando dificuldades sérias em progredir.
Quem se sentir confortável com a situação actual que se atenha ao edifício que existe. Quem não esteja e ache que o Governo está a errar o alvo que proponha melhorias e/ou alternativas. Só não percebo os que, sendo defensores da escola pública, se opõem ao que muda dizendo mal do que existe e não oferecendo outros caminhos possíveis.

“Aldeia global”

Como já foi assinalado, a utilização inicial da metáfora da “aldeia global”, a propósito do desenvolvimento da televisão, era prejudicada pelo carácter unidireccional daquele meio de comunicação. Apenas com o desenvolvimento de canais como a Internet, passaria a fazer sentido equiparar a intercomunicação mediada à intercomunicação presencial generalizada nas comunidades rurais.
Para mim, porém, o problema da metáfora de Marshall McLuhan sempre foi outro: a imagem positiva da “comunidade” que lhe estava associada. Como se a possibilidade da comunicação generalizada em contexto comunitário, “aldeão”, não constituísse, sobretudo, um poderoso instrumento de controlo social, de eliminação da possibilidade da individualização. Um instrumento que funciona através de mecanismos triviais mas eficazes, como o mexerico, a bisbilhotice, o boato…
No entanto, apesar de a metáfora me desagradar, não me incomodava, pois pensava ser inadequada. A multiplicação de programas televisivos onde, em público, se lava a roupa suja de casais e famílias, com avaliação instantânea pelo público presente em estúdio, começou a transformar o desagrado em incómodo. Parecia que a metáfora era, afinal, um pouco mais adequada do que o que parecia inicialmente. E confirmavam-se, também, as razões do meu descontentamento com os implícitos da metáfora. Não tinha, porém, imaginado a possibilidade descrita, um destes dias, no Jornal de Notícias: na China “marido traído usou Internet para se vingar”.
Confirma-se: a concretizar-se, a “aldeia global” será o pior dos pesadelos.

terça-feira, 20 de junho de 2006

Inteligência táctica

1. A Ministra da Educação tem um programa corajoso de reforma. Levanta dúvidas, terá, concerteza, aspectos complexos, enfrenta interesses organizados. Defende a escola pública e democrática, a tempo inteiro, de qualidade para o maior número e a melhoria dos níveis escolares do país. À esquerda há quem se deixe identificar com alguns interesses ameaçados, atitude aqui e acolá alimentada e potenciada por um ou outro exagero do próprio Ministério. Cavaco Silva, que agiu sempre orientado por um programa bem diferente para a educação, cola-se, para este efeito, ao Governo.

2. O Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social quer adequar a sustentabilidade financeira do sistema de segurança social às condições económicas projectadas para o país, ainda que estas sejam as que temos que agir para que não se produzam. Pretende ainda limitar fraudes e abusos, eliminar alçapões legais propícios à manipulação, promover os direitos dos trabalhadores idosos. À esquerda há quem só veja que nem todas as suas propostas são igualmente justas e que algumas poderiam facilmente caír para bem da sua própria ambição. Há ainda quem embarque no irreaismo demagógico, como, por exempo, quando defende a descida da idade legal de reforma. A CIP que representa os interesses que usavam as reformas antecipadas de um dos modos mais prejudiciais, que não subscreveu o acordo que criou a nova fórmula de cálculo das pensões porque queria uma redução da taxa social única que teria sido suicidária para o sistema e que pediu sempre um plafonamento em moldes altamente prejudiciais para o seu equilíbrio financeiro, faz apreciações encomiásticas.

3. Deixo aqui o meu elogio público à "flexibilidade ideológica" dos Presidentes da República e da CIP. Tenho pena que alguns sectores que defendem quer a escola quer a segurança social públicas, sustentáveis e de qualidade, não estejam a revelar idêntica capacidade.
Diz-me a experiência que os erros que sempre existem e acabam por ser corrigidos nas propostas iniciais serão os que aproximarem da disponibilidade dos parceiros com maior inteligência táctica na fase de negociação.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Um novo blogue

Com um final de ano lectivo um pouco mais complicado do que o habitual, a participação no Canhoto foi prejudicada. E continuará a sê-lo por mais uns dias (atrasando ainda mais, por exemplo, a correcção do texto sobre o PIB angolano).
Um regresso muito rápido, no entanto, para noticiar o aparecimento de mais um blogue à esquerda: BoaSociedade, de Elísio Estanque. Mesmo que, em relação aos primeiros textos, não compartilhe nem o pessimismo bolonhês nem, muito menos, o diagnóstico implícito nesta frase: “o Sr. Ministro quer realmente preservar e estimular a excelência das nossas universidades”?

sábado, 17 de junho de 2006

GM Azambuja: escolher a reforma, não a “vacina”!

1. Há um ano atrás, escrevi aqui que a Opel da Azambuja constituía o elo que faltava para concretizar uma estratégia sindical europeia de resposta à decisão unilateral da administração da GM Europa (GME) de proceder a cortes drásticos dos custos e do emprego.
Hoje está em cima da mesa a possibilidade de deslocalização da fábrica da Azambuja para Saragoça. Argumento: a diferença no custo de produção das viaturas construídas na Azambuja excederia em 546 € a sua produção em Saragoça, em consequência de causas tecnológicas, logísticas, geográficas e laborais.
2. Ao contrário do aconteceu em anteriores conflitos laborais na Azambuja, desta vez, a FEM – a organização sindical europeia que inclui o sector automóvel – manifesta-se a favor da posição dos trabalhadores da Azambuja. Com greves já anunciadas para Saragoça e outras fábricas europeias da GM, a FEM posiciona-se claramente contra a decisão da GME de encerrar a fábrica da Azambuja, declarando que se está perante […] a European-wide disinvestment plan that we are now faced with and Azambuja is only the first in a series of plant closures planned by GME in Europe e que GMe’s objective is to redeploy its activities to low-cost countries like Russia, China or Korea. […]. The EMF wants to alert the political decision-makers at national and European level about this disinvestment, which would be an economical and social disaster for many regions in Europe. This decision is also an infringement of the European framework agreement concluded between GME management and the EEF and on 8th December 2004.
Uns dias antes, Robert Reich, um professor de economia que foi Secretário do Trabalho durante o primeiro mandato de Bill Clinton, escrevia, sobre a redução de empregos, de direitos e de salários dos trabalhadores da GM nos EUA que […] the problem is not jobs. It’s wages and benefits. The real median wages and benefits of American auto workers have been dropping for several years. A quarter century ago, America’s auto workers were at the top of the heap. Technically, they were blue-collar, but their wages and benefits put them near the top of the middle class. Lately they’ve been descending into the lower middle class. This is partly because Americans who work for foreign-based automakers are not unionized and don’t earn UAW type wages and benefits. And it’s partly because even the UAW has been forced to accept cuts. The President of the UAW warns of more wage and benefit give-backs to come […].
A consequência parece-me óbvia: quando devidamente articulado entre os planos nacional e europeu,o diálogo social conta e dá resultados, mas não basta.
3. É por estas razões que alguns artigos - o de José Miguel Júdice (JMJ), publicado no Público de ontem, o de Nicolau Santos (NS), publicado no Expresso de hoje - dizendo muita coisa de meridiano bom senso, erram, a meu ver, no essencial: mesmo que se tivessem feito todas as reformas sugeridas por JMJ, mesmo que os representantes dos trabalhadores da Azambuja tivessem seguido desde sempre uma estratégia lúcida, ninguém bem informado e de boa fé poderia garantir que a GME não levantaria a tenda da Azambuja, como, aliás, está a fazer noutros pontos da UE e dos EUA.
É claro que se as instituições funcionassem melhor, se algumas reformas essenciais tivessem sido feitas há mais tempo, se os trabalhadores e os seus representantes dentro da Opel da Azambuja tivessem compreendido a tempo e horas o que estava em causa, talvez, mas apenas talvez, a Azambuja não se tivesse tornado o elo mais fraco da GME. Talvez, mas apenas talvez, os empregos tivessem sido perdidos noutra fábrica europeia ou americana da GM. JMJ tem razão, julgo, quanto às possíveis “ondas de choque” da Azambuja, tal como NS tem razão, parece-me, quando prefere a estratégia aprovada pelos trabalhadores da Autoeuropa à que foi seguida na Azambuja.
4. Mas erram, penso, quando os seus textos ignoram um dos principais protagonistas do conflito, a administração da GME . E, quando não analisam a estratégia por ela seguida, omitem uma parte da explicação, a meu ver indispensável, que se prende com a dupla assimetria, tornada possível pelo modelo actual de globalização: como o capital é cada vez mais capaz de ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço, tornou-se nómada e passou a poder ser gerido pela lógica financeira de curto prazo; como o trabalho é menos móvel do que o capital e como a perda parcial de meios de intervenção política dos estados-nação não foi compensada nem pelo desenvolvimento da Europa política e social nem pela regulação política da globalização, os modelos de gestão social e política tradicionais e baseados exclusivamente no estado-nação tornaram-se obsoletos.
5. Nesta situação pode adaptar-se o modelo que Kissinger desejava para Portugal em 1975, e usar a Opel da Azambuja como vacina contra o modelo social europeu. É o que faz JMJ. Mas também se pode replicar a estratégia dos que, como fez Mário Soares em 1975, conceberam e fizeram funcionar uma estratégia alternativa à da administração Nixon, encontrando um modo de dar à política o lugar central que lhe cabe nas arbitragens entre capital e trabalho e entre o plano nacional e supra-nacional. É o caminho dos que querem reformar o modelo social europeu mas não ignoram que uma parte do sucesso dessa via depende do que for feito para substituir a concepção neo-liberal da globalização que agora a rege por um modelo em que a dimensão social esteja presente. É o caminho dos que, percebendo o que está em curso, não querem viver num mundo de crescente insegurança, em que a única escolha possível seja entre níveis crescentes de desemprego com pobreza controlada, como na maioria da UE, ou aumentos drásticos da desigualdade, da pobreza e do encarceramento dos cidadãos para se ter um pouco menos de desemprego, como nos EUA. Esses escolhem a reforma, não a “vacina”.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Maradona

O mundial tem sido assim assim, mas a Argentina resolveu mudar a história. Já se sabe que quando a Argentina decide ser boa, é boa mesmo. Atrás tem o cinismo italiano e à frente o virtuosismo brasileiro (aliás, usar brasileiro como qualificativo para o virtuosismo é uma desfaçatez para a Argentina). Hoje decidiu ser fantástica, perfeita, absoluta, avassaladora. Tudo isso. Mas, o momento do jogo não foi nenhum dos momentos do jogo. O momento do jogo foi quando Messi entrou e a câmara filmou Maradona: braços no ar, sorriso infantil e um grito de felicidade. Tudo como se o mais importante não fossem os golos, a eficácia, mas sim, uma visão romântica do futebol, fintado, deslumbrante. Maradona é isso mesmo: um herói, um (o) génio, mas um tipo igual a nós, adeptos de bancada, entusiastas, cegos e capazes de sorrir com uma finta desnecessária, como se fosse a coisa mais importante do mundo. A Argentina que joga assim é mesmo a coisa mais importante do mundo.

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Livros #14


Gosta Esping-Andersen, Social Foundations of Postindustrial Economies, Oxford, Oxford University Press, 1999 (hardcover 207+ix pp.)

O debate sobre o futuro do Estado-providência é e será recorrente se queremos adaptar os modelos aos novos problemas e transformar as sociedades para que sejam mais igualitárias e justas. Gosta Esping-Andersen é o autor da mais célebre e discutida - por vezes mal apropriada - tipologia contemporânea do Estado-Providência.
Este livro revisita as teses das obras anteriores e procede essencialmente a uma reconceptualização do modelo original e à reflexão sobre a adaptabilidade dos modelos às novas realidades sociais e econóicas.
Do ponto de vista teórico revisita os princípios estruturais de protecção social (Estado, Mercado, Família), teorizando o terceiro pilar que ficara na sombra no passado e juntando à já famosa "desmercadorização" a ideia da "desfamilização". Os países escandinavos e o modelo social-democrata são, segundo o autor, os únicos que conseguem as duas.
Do ponto de vista empírico aborda alguns paradoxos aparentes como os que resultam do facto de seem os países mais familialistas aqueles em que há menos apoio activo do Estado às famílias e aqueles em que o equilíbrio demográfico mais é posto em causa pelos níves muito faixos de fecundidade.
Do ponto de vista programático apoia uma reforma do Estado social que implica a sua reconstrução para que possa estar de novo associado a mercados e famílias que funcionam bem e produzem bem estar. Na reconstrução proposta emergem dois pilares: a prestação de serviços às famílias e a atenção estratégica ao bem-estar das famílias jovens. Em síntese, um contributo para o socialismo (Esping-Andersen, à escandinava, chama-lhe socialdemocracia) do século XXI.

Índice

List of tables / Introduction / The democratic class struggle revisited / Social risks and welfare states/ The household economy / Comparative welfare states re-examined / The structural bases of postindustrial employment / Managing divergent employment dilemmas / New social risks in old welfare states / Recasting welfare regimes for a postindustrial era / Bibliography / Index

Citação

"If I am right in asserting that youth and young families are being disproportionally bombarded from all sides with risks of poverty, low income, unemployment and, perhaps, poverty entrapment in marginalization, what is called for is not more, nor less, welfare state but a major overhaul; a reprioritization of goals, a recast emphasis in favour of young families and, especially, their servicing needs. (...)
If I am right, a positive sum 'win-win' strategy means rebuilding the welfare state so that it, once again, can assume well-functioning, welfare-producing labour markets and families. This means changing the nexus between the state and and market as well as between state and families"(pp. 167-168)

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Lido nos blogues

Veja no Veu da Ignorância este texto do Hugo Mendes sobre o regresso em força das desigualdades extremas.
Há algum tempo eu próprio tinha dado conta, aqui, de um outro estudo que refere a incapacidade dos governos de Blair para inverter o acentuar do fosso entre os rendimentos do topo dos topos e da base das bases, mesmo tendo um bom desempenho em relação às classes médias.
Podem os socialistas do século XXI conviver com estas tendências? Acho que não. O que significa que é preciso pedir objectivos concretos e não apenas declarações de intenções neste domínio. Sabendo que Portugal é, como já foi apontado por outros Canhotos, aqui e aqui, um campeão da desigualdade na União Europeia, que são precisas políticas para a enfrentar e que estas não se devem confundir com o combate à pobreza, que é o ponto máximo do caminho a que os conservadores conseguem chegar connosco, um dos eixos de um programa político necessário e diferenciador da esquerda moderna salta à vista...