quinta-feira, 6 de julho de 2006

O socialismo e a gaveta

A discussão sobre se o PS quando chega ao Governo vira ou não à direita é tão velha como a democracia portuguesa. Independentemente da sua bondade e adesão à realidade, na sua versão actual traz duas questões politicamente relevantes, que resultam menos do enquadramento ideológico da governação e mais da postura governativa (i.e. o enfrentar dos “interesses corporativos”). Uma primeira que tem a ver com a própria eficácia das políticas implementadas contra os interesses organizados sectoriais. A este propósito, recomendo vivamente o artigo que o Pedro Magalhães escreveu no Público há umas semanas, e que entretanto já está disponível aqui. E uma segunda que remete para os riscos eleitorais de uma estratégia de governação que enfrenta a base social que tradicionalmente apoia o PS. Sobre este tema, escrevi um artigo na Revista Atlântico de Junho, que pode ser lido aqui.
“O Governo enfrenta um importante dilema: saber se deve continuar a fazer o que o realismo obriga a que seja feito, fragilizando a relação com a sua base social ou, pelo contrário, governar consolidando a sua ancoragem partidária e eleitoral. Enganar-se-á quem pensa que há uma solução win-win, assente num futuro de sucessivas vitórias eleitorais. O país ficará um pouco mais sustentável, mas quem vier depois terá como principal missão “juntar os cacos”. Está em jogo um trade-off entre realismo e sustentabilidade futura do PS, um trade-off que é também entre governabilidade e institucionalização da democracia. A opção tomada, sendo acertada, é de enorme risco. Um risco talvez apenas superado pela tentação para fingir que ele não existe.”

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Portugal-França, 1986

"Pouco antes do início de uma representação teatral, um desconhecido entra em cena para expor o seu "próprio caso". Logo é interrompido por um trabalhador do teatro, depois por uma actriz, até ao autor e por fim toda a companhia. Cada qual acaba por falar do seu " próprio caso" e gera-se a discussão. A cena vai finalmente ter lugar, mas tudo recomeça da mesma maneira. Ouve-se então um texto de Beckett. Mais uma vez sobe o pano, desta vez o som está ao contrário, uma verdadeira Torre de Babel! Seguidamente assiste-se ao diálogo de Job com Deus, com os mesmos actores da peça a fazerem de amigos de Job. No final, Job e a mulher são felizes na Cidade Ideal de Pierro della Francesca." (Sinopse de "O meu caso", filme luso-francês, realizado por Manoel de Oliveira)

Um encontro Portugal-França, com duração de cerca de 90 minutos (87 para ser mais preciso) a não deixar de ver, esta noite, por quem se interrogue sobre o que vale o indivíduo perante a exaltação colectiva. Eu, que gosto muito do filme, vou fazer um intervalo para, nessa mesma exaltação, acompanhar o jogo em ecran gigante, com fervor nacionalista, numa esplanada de Bucareste. É que não faço parte dos bloguistas futebol-exaltados nem dos futebol-entediados. O meu caso não é esse. Nem o de Manoel de Oliveira, que foi atleta e corredor de automóveis. Como disse o próprio a João Benard da Costa, em afirmação reproduzida na biografia incluida num dossier especial da Madragoa Filmes (a que pode aceder através do link da sinopse do filme) e vale a pena repetir hoje, quer aos exaltados quer aos entediados, quer ainda aos apáticos: "O Meu Caso é feito de bocados separados, que aparentemente não têm ligação nenhuma uns com os outros. Mas há um substracto comum. E esta é a ideia de O Meu Caso".

Paridade, sim! Dinheiro, não! E votos?

A sondagem da Marktest para o DN sobre a questão da paridade dá indicações muito interessantes quanto à opinião dos inquiridos sobre a questão da paridade:
1. Uma larga maioria (69,6%) acha que a participação das mulheres na vida política é insuficiente e que (75,3%) a percentagem de mulheres no Governo deveria ser superior à que existe;
2. Uma maioria, mas menos expressiva do que as anteriores, entende que o aumento da participação feminina vida política favoreceria a melhoria da qualidade desta (57,5%) e concorda com a introdução dum sistema de quotas obrigatórias nas listas eleitorais dos partidos (52,0%);
3. Uma folgada maioria (61,3%) opõe-se à ideia de, perante a eventualidade de não existirem quotas, os partidos verem aumentada a subvenção que recebem do Orçamento do Estado quando incluíssem uma determinada proporção de mulheres nas suas listas.
Há, portanto, duas perguntas que falta fazer:

A apresentação de listas paritárias por um dado partido atrai o seu voto para esse partido?

A apresentação de listas com largo predomínio de um dos sexos condiciona negativamente o seu voto no partido que as apresenta?


A sondagem hoje publicada sugere que sim. Mas eu preferiria saber a resposta depois de feitas as perguntas.

Críticas públicas, colaborações secretas

Já sabiamos que diversos governos europeus tiveram uma atitude dúplice em relação a Guantanamo e à violação de direitos humanos por parte das autoridades americanas. Em público criticaram, em segredo tentaram partilhar benefícios possíveis daquelas detenções. Isso mesmo se pressentia em sucessivas declarações de altos responsáveis americanos e vem demonstrado hoje, em relação a França, no documento reproduzido pelo Liberation (ver imagem ao lado). Cito o jornal:

Un document exclusif que s'est procuré Libération atteste que les six prisonniers français des Américains à Guantanamo (Cuba) ont bel et bien été interrogés par les officiers français de la direction de la surveillance du territoire (DST) et de la direction générale de la sécurité extérieure (DGSE), sur la base militaire, en janvier et en mars 2002.

Leia tudo aqui.

terça-feira, 4 de julho de 2006

O triunfo da aritmética

O Governo e os parceiros sociais continuam hoje a discutir as medidas propostas para a segurança social. Concordo com muitas delas. Naturalmente, discordo de algumas. Pude já expressar a visão geral que tenho - e é muito positiva - sobre a lógica de actuação do Governo nesta matéria.
Mas há uma de que discordo por razões que têm a ver com modos de entender a função da política: a introdução de uma fórmula automática para os aumentos anuais de pensões.
Este mecanismo defendido há muito, com base numa retórica tecnocrática, por alguns políticos do sector como Fernando Ribeiro Mendes, é um sintoma tardio da visão original do séc. XIX dos sistemas bismarckianos de pensões de reforma, que as vêem como meros seguros que se distinguem dos outros apenas por serem públicos, obrigatórios e em regime de repartição. É pouco provável que seja contrariada na concertação social, onde essa lógica bismarckiana, por definição, tende a ser predominante. Se tivesse estado em vigor em Portugal nos últimos anos teria impedido os aumentos diferenciados de pensões que permitiram melhorar um pouco o carácter redistributivo - ainda muito insuficiente - das pensões e retirar muitas famílias de idosos de situações aflitivas de pobreza. Se estivesse em vigor no Reino Unido nos últimos anos teria impedido um dos eixos centrais de reforma das pensões de Blair e Brown, os quais, apesar de não conseguirem diminuir a desigualdade no país, melhoraram significativamente o nível de vida dos idosos.
No estado actual do país, esta medida passa de forma praticamente consensual porque é ancorada na desconfiança da política e dos políticos, reduzidos à categoria de irresponsáveis quanto à gestão do sistema de pensões. Essa atitude garante popularidade mas diminui democraticamente os governos e o Parlamento. Pelas mãos de um governo socialista e de um Ministro que tenho a certeza absoluta que tem a melhor das intenções prepara-se uma derrota, para mim inesperada, da responsabilidade política às mãos da aritmética.
Num país em que os idosos continuam a ser um dos grupos mais expostos à pobreza, tal caminho vai significar uma de três coisas. Ou alivia a pressão sobre os governos para reduzir a pobreza dos idosos quando voltarem a ter recursos para o fazer , agora "desresponsabilizados" pela lei. Ou, em alternativa, os encoraja a ir, à portuguesa, por caminhos laterais, ínvios ou paralelos, acumulando medidas compensadoras da sua própria auto-inibição. Ou revogam a lei que agora se auto-impõem, o que Gordon Brown seguramente faria se chegasse a Primeiro-Ministro em Portugal.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Notoriedade e consensualidade dos Ministros em Junho de 2006

No último mês de Freitas do Amaral no Governo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros continuava a diferenciar-se da média, por ser simultaeamente bastante mais notório e mais consensual que o conjunto dos Ministros.
No gráfico pode ver o perfil destes em dois parâmetros (notoriedade e consensualidade), segundo os indicadores que calculei a partir dos dados do Barómetro da Marktest publicado pelo DN (edição em papel).
No gráfico surgem dentro do rectângulo mais pequeno os Ministros que em ambos os parâmetros se encontram a menos de um desvio-padrão da média do governo e, por isso, se pode dizer que não se diferenciam fortemente da imagem geral deste, nem em notoriedade nem em consensualidade. Os que se diferenciam dessa média são, assim:

1. O Ministro dos Negócios Estrangeiros cessante, mais notório e mais consensual.
2. Os Ministros da Administração Interna e da Ciência e Ensino Superior, mais consensuais.
3. Os Ministros da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, mais discretos.
4. A Ministra da Educação, mais notória (e com consensualidade inferior à média, embora dentro do intervalo de um desvio-padrão)
5. O Ministro da Saúde, simultaneamente mais notório e mais controverso.
6. O Ministro da Agricultura, mais controverso.

No caso do Ministro da Agricultura é, por outro lado, de salientar que o desapoio do Presidente da República não afectou ou até influenciou positivamente a sua imagem pública: o mês passado o rácio opiniões positivas/negativas era, para este Ministro, de 0,52 e este mês subiu para 0,63.

Comparativamente com o mês passado, note-se ainda que o Ministro do Ambiente se juntou aos da Economia e das Obras Públicas no quadrante dos menos notórios e menos consensuais, todos eles, contudo, menos que um desvio-padrão abaixo da média.

Seu Marcelo

É muito ténue, já se sabe, a fronteira entre o populismo eficaz e o populismo desastroso. Politicamente, a coisa só funciona bem no fio da navalha. Mas poucos conseguem manter o equilíbrio durante muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Uma das excepções é «o nosso querido Professor Marcelo» (para usar a expressão carinhosa da apresentadora do programa Portugal no Coração). Marcelo Rebelo de Sousa anda por estes dias na Alemanha. E, sejamos justos, o facto de o Professor não perceber nada de futebol é completamente ofuscado pelo prazer que exibe em comentar para a RTP esse «acontecimento único» que é o mundial de futebol. E se fosse Santana Lopes? Já toda a gente lhe tinha caído em cima, claro. Não por ter havido, desde sempre, uma deliberada má-vontade para com Santana, mas porque Santana é Santana e Marcelo é Marcelo. Marcelo está ali sempre no limite do aceitável, mas, para os padrões estabelecidos, nunca chega a ultrapassar esse limite. Marcelo mergulha no Tejo em campanha? Sim, mas a ideia era chamar a atenção para o problema da poluição. Marcelo mostra a fotografia dos netos na televisão? Sim, mas era dia do avô. Marcelo oferece um leitão ao jornalista da TVI? Sim, mas o jornalista fazia anos. Marcelo agora comenta bola e o Mozer trata-o por «Seu Marcelo»? Sim, mas o programa era gravado numa biblioteca de uma Faculdade alemã, que até tinha um livro do português António Lobo Antunes. O populismo eficaz é uma arte na qual Marcelo é exímio.

Manuela, a vencedora

vale a pena ler este post do João Pinto e Castro, que transcrevo. E, entretanto, aproveitem para ler tudo o que ele tem escrito a propósito do mundial.

"Certos especialistas em tapar o céu com uma peneira deram de há uns tempos a esta parte em procurar minimizar o naufrágio dos dois governos de coligação PSD-PP argumentando que Sócrates está agora a fazer aquilo que, por falta de tempo e de condições políticas, Manuela Ferreira Leite teve que deixar a meio.
Entendo, mas não é verdade.
Em primeiro lugar, Manuela Ferreira Leite foi tão incapaz no Ministério das Finanças como anos antes o fora no da Educação. Em segundo lugar, ela não fez nada porque muito simplesmente não sabia o que fazer. Em terceiro lugar, ela e o seu partido faziam e fazem um diagnóstico errado dos males que afligem o país.
Tornou-se um artigo de fé afirmar que "estamos todos de acordo com o diagnóstico", mas isso não é verdade.
O PSD acha que o problema económico central do país é o défice do Orçamento Geral do Estado e que ele se resolve desmantelando o Estado Social.
Eu acho, e nisso concordo com este Governo, que o principal problema económico do país é o défice da balança de transacções correntes e que ele se resolve criando condições para que as empresas portuguesas sejam mais competitivas.
Há um abismo entre esses dois diagnósticos e essas duas políticas."

sábado, 1 de julho de 2006

Uma década de Rendimento Mínimo Garantido

A alguns parecerá que foi ontem; a outros parecerá ter passado muito mais tempo. Fez por estes dias dez anos que foi promulgada a Lei que instituiu pela primeira vez a garantia de um rendimento mínimo em Portugal.
Apesar de Portugal ser, já então, dos poucos países da Europa em que não existia uma medida deste tipo, nos anos que o antecederam o Rendimento Mínimo Garantido (RMG) foi objecto de uma intensa controvérsia: sobre a sua bondade, primeiro que tudo, mas também sobre a sua exequibilidade e sobre a capacidade institucional e financeira do Estado de o montar. Essa discussão esteve, aliás, no centro do debate eleitoral de 1995, onde funcionou como marco de clara divisão ideológica.
Contra um coro de críticas da direita (e, não o esqueçamos, reservas audíveis de parte da esquerda), o RMG acabaria por avançar logo em Junho de 1996. Primeiro em projectos-piloto localizados, num período experimental, depois de forma generalizada. E o que se passou nos anos que se seguiram é conhecido.
Desde logo, o êxito da experiência mostrou que era exequível, e muito vantajoso, introduzir um esquema deste tipo - num dos países com maiores índices de pobreza e de desigualdade na Europa.
A polémica, por seu turno, foi sendo alimentada ao longo dos anos, garantindo visibilidade quase contínua à medida e instrumentalizando-a, não poucas vezes, como mera arma de arremesso e símbolo de clivagens ideológicas.
O mapa destas clivagens, porém, transformou-se significativamente. À esquerda as reservas iniciais tornaram-se cada vez menos audíveis; e à direita o consenso (ou consentimento) relativo que se instalou à esquerda estendeu-se também ao PSD, que abandonou gradualmente a sua oposição militante à ideia. O CDS ficou, nesse quadro, isolado no papel de "oposição" assumida – de que o partido se apropriou, aliás, como trunfo eleitoral e como símbolo de identidade partidária.
O facto, porém, é que o RMG sobreviveu, mesmo com o CDS no Governo a partir de 2002 e ocupando a pasta da Segurança Social. Mudou o nome para Rendimento Social de Inserção, mudaram transitoriamente algumas das normas, viu ameaçado algum do seu potencial de intervenção. Mas, depois de tantos anos de sucessivos ataques cerrados à sua legitimidade, mesmo assim o RMG/RSI sobreviveu até hoje. Este facto, aparentemente simples, deve significar alguma coisa.
A longevidade do RMG/RSI é, em si mesma, um sinal de como, no campo social, a sedimentação e o capital de legitimidade do tipo de intervenção que o RMG introduziu, como algo fracturante, há dez anos é hoje um dado praticamente adquirido. E só isso já seria um ganho importante, na perspectiva de modernização do país e do seu modelo de protecção social.

sexta-feira, 30 de junho de 2006

Monoculturalismo plural

O Courrier Internacional de 9 de Junho incluía um texto de Amartaya Sen sobre os usos e abusos da ideia multiculturalista (pp. 41-42), publicado originalmente em The New Republic. Vale a pena citar extensivamente.

Uma das questões fundamentais relaciona-se com a forma como os seres humanos são vistos. Devemos classificá-los em função de tradições herdadas e dar automaticamente a essa identidade não escolhida a preeminência em relação a outras afiliações que podem dizer respeito, entre outros laços sociais, à política, à profissão, à pertença de classe ou de género, à língua, à literatura ou aos empenhos sociais? Ou será necessário considerá-los indivíduos com numerosas afiliações, que estabelecem eles próprios a sua ordem de prioridades (assumindo a responsabilidade inerente a essa escolha consciente)? Devemos apenas “deixar em paz” as pessoas provenientes de meios culturais diferentes ou apoiar activamente a sua capacidade de efectuar escolhas racionais, abrindo-lhes oportunidades sociais de educação e participação na sociedade civil?

Um ponto crucial tem a ver com a distinção entre multiculturalismo e aquilo a que podemos chamar “monoculturalismo plural”. […] Quando dois estilos ou tradições vivem lado a lado sem nunca se encontrarem, estamos em presença de monoculturalismo plural. E as vozes que se levantam hoje com tanta frequência para defender o multiculturalismo mais não fazem, muitas vezes, do que reivindicar um monoculturalismo plural.

“… se a religião ou a pertença étnica podem constituir factores identitários fundamentais para os indivíduos (sobretudo se estes podem escolher livremente seguir ou rejeitar tradições herdadas ou atribuídas), esses indivíduos têm iguais razões para valorizar outros laços ou afinidades.

Os habitantes do planeta não podem ser exclusivamente apreciados pelo prisma da sua pertença religiosa, como se este fosse uma federação mundial de religiões.

O Governo britânico procura impedir os dirigentes religiosos de fazerem incitações ao ódio nas suas orações, o que é legítimo. Mas o problema é mais vasto: trata-se de saber se os cidadãos de origem imigrante devem ser considerados, em primeiro lugar, como membros de comunidades e etnicidades religiosas específicas; e não se sentirem britânicos senão através dessa pertença, numa suposta federação de comunidades. Percebe-se facilmente que esta visão tornaria qualquer país mais vulnerável à incitação e a uma cultura de violência sectária.

Uma nação não pode ser encarada como um conjunto de segmentos sequestrados, com cidadãos que têm lugares cativos em segmentos predeterminados.

Infelizmente, não vejo possibilidade de atribuir outro sentido ao termo multiculturalismo do que aquele que prevaleceu, com a vitória simbólica dos comunitaristas: o de “monoculturalismo plural”. Por isso prefiro designar as estratégias alternativas para lidar com o pluralismo cultural no mundo contemporâneo com a expressão cosmopolitismo.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Pai, afasta de mim esse cálice


Não há vitória que apague a retórica profundamente autoritária que hoje domina a Selecção Nacional (bem, talvez a vitória na Final apague). Na conferência de imprensa que se seguiu ao (fantástico) Portugal-Holanda, lá voltou a conversa anti-intelectual: «São três ou quatro pessoas, eu sei, mas agora espero que se calem até ao fim da nossa campanha» (Pauleta, A Bola, 26 de Junho). Que se calem.
Num programa televisivo, os sms sucedem-se em rodapé: «Não sou intelectual. Sou pela Selecção! Fábio, Cova da Piedade». No mesmo programa, um jornalista, visivelmente espantado, descrevia a conferência de imprensa da Selecção do Irão como «uma batalha verbal». Se a crítica e o escrutínio a que estão sujeitas as selecções de futebol fossem critérios na classificação dos regimes, Portugal entrava directamente para «o eixo do mal».

O regresso de Santana

Há já algumas semanas que não se falava de Santana Lopes. Pois a semana passada, o ex-primeiro-ministro anunciou o seu regresso ao Parlamento. A notícia não parece ter sido bem recebida pelos seus companheiros de partido. Este facto é revelador de que o PSD continua a responsabilizar, no essencial, Santana pelo resultado eleitoral das últimas legislativas. Ao fazê-lo não só evita reflectir sobre as causas do seu insucesso, como mostra que continua a não perceber a razão porque o actual Governo, apesar das medidas impopulares, continua a ter assinalável apoio. Este é o tema do meu artigo do Diário Económico, que pode ser lido aqui.

Cultura virtual

Hoje quase só ouço rádio no carro, sintonizado, por regra, na Antena 2. Quando a conversa domina sobre a música mudo para a antiga Luna, hoje Classe FM. Esta, porém, exagera na falta de conversa, sendo frustrante ouvir uma peça que não se (re)conhece e não ter qualquer informação sobre ela. Em contrapartida, a Antena 2 é informativa mas esconde dos ouvintes a referência ao editor das músicas difundidas. Está lá tudo o resto: compositor, intérprete(s) e, em alguns casos, local e data de gravação. Sobre o editor, porém, nada. É como se as gravações existissem sem mediações editoriais, sem suporte físico, sem acção económica.
Disseram-me que é para evitar a publicidade, mas não me parece que o argumento faça qualquer sentido. Se assim fosse, as bibliografias académicas também deveriam omitir o editor dos livros referenciados. Ou, noutro campo, as transmissões e notícias sobre a competição automóvel deveriam omitir o nome das marcas. Imagine-se a notícia: “…a prova foi ganha pelo piloto do carro amarelo cuja marca começa por R, ficando em segundo o piloto do carro vermelho com um cavalinho amarelo pintado na carroçaria.”
Parece-me antes que esta prática ingénua revela o predomínio de uma concepção sobre a cultura com horror às indústrias da cultura. Um entendimento da cultura que convive mal com as condições materiais da sua produção e difusão, como se fosse possível a desmaterialização da obra cultural e exigível a sua total desmercantilização.
O apego a esta concepção da cultura como algo virtual e livre do mercado resvala para o preconceito. Mas o preconceito tem efeitos colaterais. Em rigor, o que a Antena 2 faz viola os princípios deontológicos da citação.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Disputa sobre a propriedade do sorriso

Esta notícia do IHT dá conta de uma disputa nos tribunais americanos sobre a posse do smiley, a imagem do sorriso. Parece que uma empresa francesa reclama do uso do sorriso pela Wal-Mart, uma empresa pela qual quem tenha visto o Bowling for Columbine não pode ter grandes simpatias, invocando que tem a patente registada em França e quer usar a marca com um perfil mais elevado. O Tribunal decidirá. Segundo uma das partes, ouvida pelo jornalista, este :-) não se inclui na disputa porque é só pontuação.
Mais uma boa notícia para a globalização. Neste mundo de marcas universais há duas empresas dispostas a apostar algum dinheiro para disputar a propriedade do sorriso.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Gesto patriótico?

Ninguém pensa que a polícia serve para estes "gestos patrióticos", pois não? Os portugueses de Bucareste, ontem hastearam livremente as bandeiras que traziam onde quiseram. Felizmente não havia por cá a PSP da Madeira nem a lei da República Portuguesa que é invocada nem sequer se lembraram ainda de exigir reciprocidade para reconhecer o direito de um estrangeiro a... pôr a bandeira do seu país à janela de casa sem ser acompanhada da do país em que é residente.

domingo, 25 de junho de 2006

Verdades inconvenientes

A entrevista feita a Al Gore pelo El País Semanal tem como pretexto a apresentaçao do filme deste dirigente político norte-americano sobre a mudança climática, cujo título é glosado no deste post
O "vice" de Bill Clinton - que ganhou a votos mas foi declarado derrotado em mandatos quando Bush filho chegou à Casa Branca - cita Jürgen Habermas para sustentar que o espaço público foi alterado com a chegada da televisao, o que supuso una regressión a los monasterios medievales, porque la fuente de los mensajes quedó en las manos de muy pocos. Ahora, el individuo no puede intervenir en la conversación por encima de los medios comunicación dominantes, uma situaçao que talvez venha a ser revertida, segundo Gore, pelo recurso conjugado da internet e do vídeo digital.
Nao resisto a duas citaçoes adicionais a propósito da relaçao entre a TV e a política:
1. La principal pregunta, la clave, es como conseguir que el conocimiento desempeñe de nuevo el papel determinante a la hora de dar forma a las decisiones que toman la democracias en en todo el mondo.
2. Irónicamente, la política se ha reducido a spots de no más de unos segundos, pero el problema es que algunas de la principales crisis, como la del clima, no pueden ser tratadas con estos escasos segundos.
E temos, nós e eles, Bush na Casa Branca ...

Feteasca Neagra

Considerado o pai dos vinhos romenos por ser uma casta autóctone gerada por mutação espontânea da vinha selvagem, o Feteasca Neagra é um vinho tinto que se produz em diversas regiões da Roménia. Diz-se que também por mutação espontânea gerou o Feteasca Branca, variante de vinho branco a partir do qual, já por intervenção vinhateira,nasceu a casta também branca Feteasca Regala.
A primeira vez que me deparei com ele foi num restaurante tradicional romeno, recomendado pelo empregado, em que abriram uma garrafa passada e embirrei, mal, que tivesse sido falsificado pelo restaurante por ser bizarramente apresentado em garrafa arrolhada mas sem protecção da rolha.
A segunda tentativa foi mais bem sucedida e, dos diversos vinhos tintos romenos que fui conhecendo, quase sempre monocasta, esta casta e este produtor foram-me ficando no palato e na memória. Não pode competir com as "grandes castas" internacionais, de que se faz aqui muito Merlot, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon, mas dá um perfume diferente e local que acompanha bem os rituais alimentares romenos das refeições de carnes mistas servidas com forte dinâmica comunitária.
O produtor, no vale de Prahova, entre Bucareste e o vale de Timis (onde se inclui a famosa Timisoara), uma região que merece uns dias de férias, foi comprado em 1998 por um importador britânico de vinhos. Mas não me atrevo a fazer notas de prova de vinhos pelo que não partilharia esta sensação sem um argumento externo de autoridade. Esse chegou-me pela mão desta revista romena de vinhos online, que põe este produtor e o ano à cabeça de um top ten de vinhos da casta.
O preço é muito razoável. No supermercado da minha rua custa 22 lei (um pouco mais de 6 euros), mas nas grandes superfícies custa menos um. Se vier à Roménia e gostar de vinhos, não deixe de experimentar.

Vinho: Feteasca neagra – Special reserve 2002
Produtor: Cramele Halewood
Região: Vale de Prahova, Roménia

sábado, 24 de junho de 2006

O futuro dos colaboradores com as ditaduras do passado

Mais de uma década e meia depois da derrocada dos regimes comunistas, as elites políticas das democracias que se lhes sucederam continuam submetidas ao escrutínio da actividade das antigas polícias políticas.
Só esta semana houve três casos públicos de alto nível: Georghi Parvanov, Presidente da República da Bulgária anunciou que tinha um nome de código na polícia secreta bulgara para a qual elaborou...um estudo sobre um patriota bulgaro da Macedónia no final do séc. XIX; Zyta Gilowska, Ministra das Finanças da Polóna foi demitida depois de ter sido acusada de mentir numa declaração escrita em que negava ter sido colaboradora da polícia política polaca, dado que no seu país é necessário declarar minuciosamente que relação se teve com a polícia política para poder exercer funções públicas; na Roménia, Dan Voiculescu, indicado para Vice-Primeiro Ministro, não acedeu ao cargo depois da comissão oficial que trata do assunto o ter declarado informador da securitate, quando trabalhava no instituto romeno do comércio externo.
Estes casos são exemplificativos de quanto as elites políticas dos países ex-comunistas saíram das fileiras das elites pelo menos de altos funcionários e dirigentes dos Estados comunistas, processo provavelmente inevitável, dada a asfixia que havia sobre toda a divergência e dissidência. Mas são também demonstrativos de que em todos estes países permaneceram arquivos cuidadosamente geridos dessas polícias e de que a relação com elas é um elemento incontornável da vida no espaço público.
Noutras transições para a democracia o processo foi muito diferente. Provavelmente tratava-se de polícias políticas que nunca tiveram tanta força como as comunistas. Hipoteticamente a continuidade entre as elites dirigentes ditatoriais e as democráticas foi menor. Seguramente, a relação com o passado, foi gerida de modo diferente, glorificando e bem os gestos heróicos das vítimas mas lançando um amplo véu de silêncio e esquecimento sobre o tecido social difuso de que todas as polícias políticas se alimentam.

Uma coisa é certa, os Estados policiais deixam marcas sobre as sociedades e criam problemas de qualidade da democracia e de exercício da justiça independente que lhes sobrevivem durante gerações.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Os territórios não têm direitos

Os nacionalismos são, na minha opinião, uma ameaça para os estados de direito e para os países europeus. […] Parece-me que os estados devem é abrir-se por cima, sob a forma de entidades internacionais, e não por baixo, através de tribos ou de grupos. […] Não são os territórios que têm direitos, mas sim os cidadãos. E é com os cidadãos (e não com os territórios) que devemos preocupar-nos.

Fernando Savater, Visão, 22 de Junho, p. 17 [destacado meu].

As audiências dos Gato Fedorento

Segundo a Marktest, a série Lopes da Silva dos Gato Fedorento, atingiu os seus maiores índices de audência nos segmentos da população idosa, das classes sociais mais baixas, residente no Interior ou na Grande Lisboa. Quem diria que o humor dos Gatos era, afinal, consumido predominantemente pelos nossos avós?