Eu ontem adormeci assim

"I was surprised, I was happy for a day in 1975
I was puzzled by a dream, stayed with me all day in 1995"
The State I am in
As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: «Se te libertas morres!». As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. [Amin Maalouf, Origens]

"I was surprised, I was happy for a day in 1975
I was puzzled by a dream, stayed with me all day in 1995"
The State I am in
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pedro adão e silva
às
11:14
Francisco Louçã está muito chocado: «O Avante tem, com regularidade, pequenos insultos e tricas. Na entrevista ao Expresso, o secretário-geral do PCP cometeu a grosseria espantosa de comparar o BE com um chinelo. Não damos a isso um valor facial. Sabemos que o sectarismo é a doença senil da esquerda» (Expresso, 15 de Julho). Não sei se Louça ainda se lembra, ou se também já foi atingido pela «doença senil da esquerda», mas há exactamente um mês, em entrevista ao Diário de Notícias, deu um contributo que seria do maior interesse para o Estudos sobre o Comunismo: «O partido comunista não tem ideologia. O PCP tem 85 anos de história, quase todos vividos na base da União Soviética. A única ideologia a que isto corresponde é aquela que não pode ser dita: a ideologia de um partido que defendeu o Estado repressivo. Este modelo de sociedade – que é um modelo pavoroso, de destruição da liberdade do povo e da própria ideia de socialismo – é o que corresponde à história inteira do PCP.» Terá razão. E também não andaria longe da verdade, se, em vez do PCP e União Soviética, Louça falasse da UDP, da China e da Albânia. Aliás, entre «chinelos» e «Gulags», nada disto seria grave, se estes senhores (Louça, mas também Jerónimo) não representassem uma parte importante da esquerda. Mas representam. A guerra fratricida entre Bloco e PCP já teve consequências negativas na vida dos sindicatos e, pior, nos resultados autárquicos e presidenciais da esquerda. Para o ano, há referendo sobre despenalização do aborto.
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Filipe Nunes
às
18:33
Em início de regresso gradual ao Canhoto, um comentário sugerido por duas crónicas do dia, no Público.
1. Eduardo Prado Coelho refere-se a um estudo da MacCann Erickson sobre o que considera ser um tema significativo: “a quem é que uma comunidade se sente pertencer?” Note-se que como as comunidades são conjuntos de pessoas definidas pela semelhança das suas pertenças e representações, a pergunta é sobre “a quem é que pertence a pertença comunitária”. Assim colocada, a pergunta fica um pouco circular e a pertença comunitária algo fantasmagórica, mas adiante…
No resto do texto somos confrontados com um conjunto de exemplos sobre a homogeneização de consumos, estilos de vida e gostos entre os jovens, tudo sinais ditos de desenraizamentos definidos como problemáticos. Nada de novo. Sempre que o tema da homogeneização na globalização é tratado, directa ou indirectamente, os exemplos são centrados no que se convencionou chamar “cultura de massas”. De parte ficam os processos de homogeneização por universalização do gosto erudito e dos estilos de vida da elite: ou alguém ouviu já referências críticas à universalização do gosto pela música clássica de origem alemã, do consumo do vinho tinto produzido à francesa ou do uso do fato e gravata inventado pelos ingleses? Não, os problemas da homogeneização são sempre situados no campo dos consumos da música ligeira, dos hambúrgueres ou das calças de ganga. Ou seja, a globalização é má quando é jovem e popular, mas nem globalização é quando é erudita e elitista: fala-se, então, de “elite cosmopolita”.
2. Na mesma página, outro fantasma, o do país (ou da sociedade), por via da metáfora presente no título da crónica de Mário Pinto: “O caso dos exames, espelho do país”. Sendo retórica banal, merece, por isso mesmo, um curto comentário.
Imaginemos que um dia, em zapping televisivo, passamos por vários canais onde se realizam debates sobre o tema da violência: no canal A debate-se a violência na família, no B a violência na escola, no C a violência nas ruas, … Em todos, a mesma explicação: a violência na família é o reflexo da violência na sociedade, a violência na escola é o reflexo da violência na sociedade, a violência nas ruas é o reflexo da violência na sociedade, … Há, porém, um problema com este modelo de explicação: se à sociedade retirarmos os espaços em que é dito que ela se reflecte (a família, a escola, as ruas…), ficamos com um fantasma, pois a aquilo que chamamos sociedade não é ente sobrenatural (embora com Mário Pinto…) mas um conjunto durável e ordenado de subconjuntos de relações sociais mais ou menos especializadas, como os que designamos por família, escola ou ruas. Por outras palavras, ficamos não com uma explicação do eventual problema mas com um álibi para não o explicar parecendo que o fazemos. Como se vê, aliás, pelo texto em causa de Mário Pinto.
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Rui Pena Pires
às
17:19
Sexta-feira passada, Augusto Santos Silva esteve em Setúbal a conversar sobre o governo, o PS e o congresso que aí vem. Também lá estive.
O DN de hoje cita uma frase minha, faz uma interpretação dessa frase que não corresponde ao que queria dizer e não aborda o sentido geral do que pretendi dizer nessa reunião.
O jornalista tem, obviamente, o direito de interpretar como entende o que ouve e o que considera relevante no que é dito. Mas o sentido que pretendi dar ao que disse não aparece no artigo, apesar da frase citada. Para quem tiver ficado com alguma curiosidade de saber aquilo que penso – e posso até não ter formulado suficientemente bem na sexta-feira à noite – aqui fica um registo do sentido político que queria dar às minhas palavras:
1. O Governo está a executar um Programa subordinado à recuperação orçamental e à necessidade de interromper o ciclo recessivo, como se impõe na actual conjuntura.
2. Há no actual governo uma tendência excessiva para rever em baixa o contributo dos anteriores governos do PS. António Guterres foi o mais cosmopolita dos Primeiros-ministros portugueses desde Mário Soares e quem liderou a transição do PS de partido apenas preocupado com a exclusão social para o partido da modernidade que é hoje. Este valor, aliás, esteve durante muito tempo ligado a Cavaco Silva e ao PSD e este governo poderá materializar em novas políticas a ruptura iniciada por Guterres. Não pode é pensar que a percepção pública dos partidos são imutáveis.
3. José Sócrates pôs a questão da igualdade na agenda, na entrevista que deu a Maria João Avillez. Concordo e não era evidente, há uns meses atrás, que o estivesse agora a fazer.
4. O PS deve começar a preparar o programa para a próxima legislatura. Ou seja para quando deixar de ter que subsumir outras prioridades à recuperação da situação orçamental. Esse programa tem que romper com a inércia conservadora na questão da desigualdade, valorizar mais os direitos cívicos, continuar a modernizar e elevar a qualidade dos serviços públicos, incluir um impulso sério nas políticas de vida (a que Augusto Santos Silva chamou “agenda dos costumes”) e olhar para o nosso modelo social com a ideia de reforçar a sua sustentabilidade social, corrigir a sua insuficiente capacidade redistributiva, aumentar a sua eficiência contra a pobreza e considerar adequadamente os novos riscos sociais.
5. Tudo isto devia ser começado a preparar já no Congresso do fim deste ano. Por exemplo fazendo entrar em funções um grupo de alto nível, mandatado pelo próprio Congresso, para a preparação do programa para a próxima legislatura
6. Se o PS cair no erro de chegar às próximas eleições com a mera continuidade do actual programa de governo arrisca-se a não merecer de novo a confiança dos eleitores.
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Paulo Pedroso
às
21:42
A direita portuguesa continua a olhar para o problema das alterações climáticas como se de uma invenção de meia dúzia de fundamentalistas se tratasse. É verdade que a direcção de Ribeiro e Castro nunca se apresentou propriamente como representante da direita moderna. Foi por isso sem surpresa que assistimos no início desta semana às pérolas de Pedro Sampaio Nunes (Vice-Presidente do CDS e consultor do programa nuclear do senhor Patrick Monteiro de Barros): «Quem manda em Portugal é a Quercus». Mais estranha foi a intervenção de António Pires de Lima, no debate do Estado da Nação. Por uma vez, a grande esperança da direita moderna alinhou com a direcção do partido, e logo para atacar o regime de licenças de emissão de gases em vigor. Afinal, o fascínio pela agenda modernizadora de David Cameron tem dias.
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Filipe Nunes
às
12:36
Na primeira metade da década de 80, quando a esquerda radical tomou conta do partido trabalhista, vários social-democratas moderados bateram com a porta e criaram o SDP, que está na base dos actuais Liberais Democratas. Roy Hattersley pertencia ao grupo social-democrata do "Labour" mas optou por ficar a defender a moderação. Hoje, perante a estratégia centrista de Blair, Hattersley e outros social-democratas reconhecem com alguma ironia que, no espaço de uma década, passaram de «direitistas» a «velhos esquerdistas», sem terem saído da mesma posição ideológica. Foi assim que, muito naturalmente, os Liberais Democratas apareceram nos últimos anos à esquerda dos trabalhistas no espectro partidário britânico.
Vem isto tudo a propósito da manifesta crise de identidade que o PSD atravessa. Pacheco Pereira costuma dizer que o PSD ocupou em Portugal o espaço que o PSOE de Felipe Gonzalez ocupou em Espanha: de acordo com esta teoria, o PSD teria uma espécie de monopólio da representação do reformismo centrista entre nós. É verdade que o PS se foi aproximando desse espaço, mas convenhamos que, com Guterres, houve centrismo a mais e reformismo a menos. Subitamente, em quinze meses de governo Sócrates, tudo mudou. O PSD já não tem o monopólio do reformismo. Pior: começa a ficar claro que verdadeiramente nunca teve.
Confrontado com este problema de demarcação política, o PSD, sem grandes raízes ideológicas e a actuar num país que preza o papel do Estado, podia seguir a estratégia «social» dos liberais democratas ou seguir, simplesmente, o que sempre foi a tradição da direita europeia: politicamente autoritária e muito desconfiada da economia de mercado. Era o caminho eleitoralmente mais fácil. Mas, honra lhe seja feita, não é esse o caminho de Marques Mendes. Mendes parece concordar com a última tese de Pacheco Pereira: a única alternativa ao PS é mais liberalismo. Ainda ontem, no Estado da Nação, o líder do PSD defendeu a privatização dos transportes e da segurança social. Mendes chegou mesmo a classificar o actual governo de «conservador». É verdade, e ainda bem, que este não é um governo puramente liberal. Mas duvido que, para além de Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes, algum português queira mais liberalismo económico. Segundo as sondagens, eleitorado olha para este governo como um governo competente e reformista. Que «está a fazer o que é preciso» para salvar um modelo minimamente digno de vida em sociedade. Mesmo que daqui a três anos o défice, o crescimento e o emprego estejam mais ou menos na mesma, os portugueses dificilmente optarão por uma alternativa que seja vista como «mais do mesmo» ou que ponha em causa aquilo que para a maioria deles é inegociável: os serviços públicos e o Estado social.
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Filipe Nunes
às
13:10
1. Julgo que o post que ontem aqui coloquei é coerente com o que venho defendendo, no Canhoto e fora dele, sobre a necessidade de reforma das políticas de regulação dos mercados de trabalho.
2. Não disse, nem ontem nem há um ano atrás, que as estratégias localistas e imediatistas constituiam a causa eficiente do que se está passar na GM Azambuja: disse e penso que talvez tenham contribuido para um desastre social que está a atingir aquela região mas que atinge outros pontos do mundo, EUA incluídos. Disse e penso que me parece mais ajustada à defesa dos interesses dos trabalhadores a estratégia que estes seguiram em Palmela do que a que que foi seguida na Azambuja.
3. O que disse sobre este assunto, e continuo a pensar que vem sendo confirmado pela realidade, dentro e fora de Portugal, pode ser lido aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
4. A questão essencial é que, sob pena de grave incoerência lógica e política, não se pode, nos dias pares, demonizar a globalização, e, nos dias ímpares, favorecer estratégias que não têm em conta que a globalização - porque reforça as assimetrias que opõem países, segundo a sua posição na escala mundial do poder, e capital e trabalho, em detrimento deste e benefício daquele - reduziu, sem ter anulado, as possibilidades de intervenção localista quer dos actores sociais, quer do estado-nação.
5. Ao contrário quer dos que demonizam, quer dos que louvam, a globalização como um deus ex machina, eu sou dos que pensam que é possível e necessário pôr em prática estratégias renovadas de regulação dos mercados de trabalho que têm conta a perda de eficácia de alguns instrumentos tradicionais de intervenção política nos mercados de trabalho que, tendo provado a sua eficácia noutros tempos, dão hoje mostras claras de perda de eficiência.
6. Para não alongar este post, reitero apenas que, no meu entender - no plano nacional e, se possível, também no plano europeu - o melhor modelo disponível é o da flexigurança, isto é, a policy strategy that attempts, synchronically and in a deliberative way, to enhance the flexibility of labour markets, work organisation and labour relations on the one hand, and to enhance security - employment security and social security - notably for weaker groups in and outside the labour market, on the other hand. (Wilthagen, 2004).
7. No essencial, trata-se de realizar duas mudanças: primeiro, substituir o objectivo central das políticas de regulação dos mercados de trabalho, com a "segurança" de emprego no posto de trabalho actual a dar lugar à "segurança" de emprego, ainda que noutro posto de trabalho e com outro empregador; segundo, substituir parcialmente a protecção legal contra despedimentos por políticas de promoção da empregabilidade - formação profissional e reconhecimento e certificação de competências adquiridas - e de protecção dos rendimentos em caso de desemprego.
8. Se se quizer reduzir o rigor a benefício da simplicidade, trata-se de substituir a protecção dos empregos existentes pela protecção - pela educação e formação e pela segurança social - dos empregados e dos que procuram emprego.
9. Será necessário explicitar que uma estratégia deste género não é sequer parecida nem com a desregulamentação proposta pela direita, nem com a recusa de adaptar a regulação social à era da globalização, que uma parte da esquerda insiste em recusar?
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António Dornelas
às
08:43
Para além do espectáculo dos que espreitam a oportunidade da crítica fácil e oportunista, tão frequente como lamentável, valeria a pena aprender com o que se vem passando na GM da Azambuja.
Por mim, tiraria três lições, que vêm confirmar, uma vez mais, outras tantas convicções que a observação da realidade social portuguesa vem sedimentando:
1. As estratégias localistas e imediatistas pagam-se caro: é isso mesmo que sugere a comparação dos comportamentos dos representantes dos trabalhadores na GM da Azambuja e na VW de Palmela (AutoEuropa); ao contrário do que aconteceu na AutoEuropa, no primeiro caso deu-se prioridade à revindicação salarial, ignorou-se durante muito tempo quer a decisões, quer a participação activa no diálogo social europeu;
2. Os instrumentos do diálogo social, mesmo quando utilizados a tempo e horas e articulando as instâncias nacionais e supra-nacionais – europeias e internacionais – não são, por si sós, capazes de suster as estratégias empresariais de empresas como em situação de profunda crise, como é o caso da GM;
3. No plano nacional, os instrumentos tradicionais de intervenção política na regulação dos mercados de trabalho – designadamente, a legislação sobre despedimentos - são ineficazes justamente quando são mais necessários, isto é, quando a limitação legal visa controlar consequências sociais de factores económicos e não a simples regulação do poder do empregador despedir ou contratar.
É por razões desta natureza que continuo a entender que há que repensar e redefinir os instrumentos tradicionais de intervenção, substituindo parte dos instrumentos legais tradicionais – tantas vezes ilusórios – por instrumentos sociais eficazes, de que os mais eficientes continuam a ser as políticas activas de emprego e a protecção dos rendimentos em caso de desemprego.
E como seria útil que, sobretudo à esquerda, isto se percebesse a tempo e horas, deixando para a direita política o espectaculo degradante dos oportunismos de ocasião
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António Dornelas
às
11:25
Talvez Medeiros Ferreira projecte demasiado em Freitas do Amaral a sua própria visão, de experiência feita, do conteúdo actual do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas retrata muito bem o perfil político do homem que diz o que pensa, seja sobre a inimputabilidade de George Bush ou a intocabilidade da Virgem Maria. Umas vezes concorda-se, outras discorda-se, mas, como se lê aqui, Freitas é um homem de escolhas, das poucas personalidades políticas que dá mais importância à capacidade de opção do que à aparência de uma coerência linear, tantas vezes paupérrima em termos culturais e vivenciais mas segurizante para todos, e até para o próprio.
Não me agradou a manobra táctica que levou ao convite a Freitas para MNE e na crise das caricaturas gostaria que Portugal tivesse tido uma atitude bastante diferente. Mas Freitas, reconheça-se e elogie-se, não foi diferente de si próprio. Se alguém dele esperava o contrário, enganou-se, mas o erro era seu.
Tal como Medeiros Ferreira, também eu gostaria que houvesse mais políticos assim, desapegados à rotina da sobrevivência e à disciplina da obediência, que se cansem e cansem, se irritem e irritem, escolham e tirem conclusões.
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Paulo Pedroso
às
17:29
"O entusiasmo com que são recebidos os ministros independentes, os episódios que lhes costumam estar associados e o fechamento dos executivos que é imputado às suas saídas, são tudo sinais da fraca institucionalização da democracia portuguesa. O problema essencial é que são sinais que em lugar de serem contrariados tendem a ser reforçados por todos os actores – membros dos Governos, dirigentes partidários e comunicação social."
continue a ler aqui.
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pedro adão e silva
às
16:23
Andou tudo numa excitação desmesurada com a selecção. Eu que gosto de futebol imoderadamente, sinto-me à vontade para dizê-lo. Pois os primeiros resultados da excitação estão à vista. O Dr. Madaíl, essa grande figura do nacional-futebolismo, prepara-se para pedir ao Governo que isente de pagamento de IRS os prémios dos nossos bravos. A batata quente fica do lado do Governo. Afinal, os jogadores andaram a “divulgar e prestigiar” o País (sic). Isto lembra-me uma frase muito usada, “à política o que é da política, à justiça o que é da justiça”. Pois toda a gente se tem esquecido que a mesma asserção deveria ser válida para o futebol: “à política o que é da política, ao futebol o que é do futebol”. É que quando a política se mete em futebóis sai-se sempre mal, até porque, como é sabido, os tipos do futebol têm por hábito cobrar.
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pedro adão e silva
às
10:46
Jacques Cirac recebeu os heróis do estádio. É absolutamente normal que o tenha feito. Já o discurso que lhes fez foi além da hiperbole compreensível na situação. Disse-lhes que participaram numa epopeia extraordinária, que é assim que uma nação se supera a si mesma cumprindo o seu destino, comentou a qualidade do futebol praticado e garantiu a Zidane o afecto de toda a nação:
"Vous avez joué hier un match exceptionnel, exceptionnel d'engagement, de talent, de rigueur, de solidarité. A un tel niveau de la compétition, nous le savons tous, la victoire se joue à si peu de chose que ce n'est pas cela qui compte.
Je mesure bien sûr une certaine tristesse chez vous et peut-être une certaine déception ce que je comprends. Mais ce que je veux vous dire, c'est que nous sommes tous très fiers de vous, de vous tous.
Vous avez fait, à tous égards, honneur à la France.
Tout au long de cette Coupe du monde, vous avez montré des qualités exceptionnelles et d'abord, l'esprit d'équipe. Ce fut votre rempart contre le doute, en début de compétition. Ce fut aussi votre force dans cette extraordinaire épopée. C'est ainsi qu'une nation se dépasse pour accomplir des destinées collectives, des exploits. Vous y avez tous contribué, des plus "capés" aux plus jeunes sélectionnés. Un collectif de 23 joueurs, conduit par son exceptionnel capitaine, Zinedine Zidane, distingué, à juste titre, ce matin comme meilleur joueur du Mondial 2006 par la FIFA.
Cher Zinedine Zidane, ce que je veux vous dire, au moment le plus intense, peut-être à un moment dur de votre carrière, c'est l'admiration et c'est l'affection de la nation tout entière, son respect aussi, mais l'affection et l'admiration. Vous êtes un virtuose, un génie du football mondial. Vous êtes aussi un homme de cœur, d'engagement, de conviction. Et c'est pour cela que la France vous admire et vous aime.
O discurso de Chirac simbolizou a fusão entre a nação e o jogo, a transformação do hino nacional em cântico de torcida de estádio e da bandeira nacional em estandarte de guerra desportiva. Foi muito além do apoio ao mérito de um colectivo excepcional de jogadores. Transformou a equipa numa questão nacional.
A tendência não é monopólio francês. A selecção italiana aterrou num aeroporto militar e teve direito a exercícios acrobáticos da Força Aérea. Tivessemos nós sido campeões mundiais e não seria muito diferente.
O mérito, incluindo o desportivo, deve ser celebrado. Os políticos por vezes têm a palavra demasiado fácil. Mas a relação entre a pátria e o futebol está a reganhar uma intimidade excessiva.
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Paulo Pedroso
às
22:22
No primeiro semestre de 2006, segundo a audimetria da Marktest, “entre os residentes no Continente com mais de 64 anos, o tempo médio de audiência de televisão atinge as 4 horas, 58 minutos e 23 segundos, mais 42.8% do que a média do universo.”
Estes dados não deixam margem para dúvidas. Num país marcado pelas migrações intergeracionais, com elevadas taxas de emprego de homens e mulheres em idade activa, poucos serviços – incluindo públicos – às famílias e baixo poder de compra dos idosos, o isolamento social destes encontrou um factor de compensação (ou um factor de reforço?) na televisão.
Já se percebe melhor que sejam eles a maior audiência televisiva até dos programas que manifestamente não os tinham como alvo principal. Também se compreende um pouco melhor para que Portugal os programadores dos canais dirigem o seu foco principal de atenção.
Mas há outra leitura a fazer destes dados e que desafia a política social. Que políticas poderiam favorecer a diminuição da teledependência dos idosos, reforçar a sua vida social dentro e fora de casa, estimular o envelhecimento com forte participação social?
O tempo cheio de televisão talvez seja apenas a compensação do tempo vazio de tantas outras coisas. Dito isto, viva a televisão que alivia os idosos do sofrimento gerado pelo isolamento social e os mantém ligados ao mundo exterior.
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Paulo Pedroso
às
13:38
Benedito XVI está em Espanha. O Primeiro-Ministro vai encontrar-se com o Chefe de Estado do Vaticano mas não vai à Missa do Papa. Se fosse em Portugal também era assim, não era?
A pergunta da versão orginal do post suscitou, entre outros, dois comentários que justificam que volte ao tema.
Hb escreve: "penso que o primeiro-ministro português é católico, portanto é possível que fosse como cidadão".
Paulo Malicia escreve, por sua vez, que "Não vai à missa do Papa porque o sermão é capaz de o incomodar… Quando era candidato às legislativas foi e ficou na primeira fila. Neste caso, a questão não é a missa do Papa, mas a homilia que o Papa vai fazer sobre a família. É pena. Fazia-lhe bem ouvir."
De facto, sempre que um Primeiro-Ministro for católico, a questão não se levanta. É absolutamente natural que um católico assista à missa do seu Papa.
As questões de Paulo Malicia tocam no centro dos pontos sensíveis. Bento XVI vai expressamente a Espanha para falar da família. A sua homilia será naturalmente divergente do espírito e da letra da lei espanhola. Se o Papa tem evidentemente todo o direito de recordar aos católicos a doutrina da sua Igreja sempre que o entender, pelo modo que considerar adequado e onde o desejar, já a diplomacia da Santa Sé marcou esta viagem na plena consciência dos efeitos políticos a ela associados. É corajoso da parte do Primeiro-Ministro espanhol que dê sinal público de que percebeu.
A coincidência ou diferença entre a opinião da Igreja e a legislação de cada Estado não é um bem nem um mal, apenas um dado a ter em conta. Mau seria se um Estado mudasse de política ou se abstivesse de tomar iniciativas por causa dessa diferença.
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Paulo Pedroso
às
16:13
Os habitantes da cidade da Praia estão irritados com os recorrentes apagões, que sofrem há muitos meses. Queixam-se de que o serviço que pagam não é prestado em condições minimamente aceitáveis.
Acontece que essa queixa atinge a empresa que produz e distribui a electricidade em Cabo Verde, a ELECTRA, que foi privatizada há uns anos e que os seus accionistas maioritários são hoje a EDP e AdP, ou seja, são "os portugueses".
Deve haver muitas e boas razões técnicas e económicas para a situação que a ELECTRA atravessa. Seguramente que não corta a electricidade por falta de vontade de a fornecer.
Mas a minha preocupação tem a ver com a nossa diplomacia económica. Para que se possa apoiar com sucesso as empresas portuguesas é vital que as que se instalam consigam boa reputação nos mercados.
Quando acontece o que se está a passar com a energia eléctrica em Cabo Verde, a diplomacia económica não pode apagar-se e demitir-se do problema. Porque uma diplomacia económica que se limite ao momento do investimento será ingénua ou enganosa. Porque, na Praia, só muito depois de se acabar o apagão se começa a apagar o problema da imagem pública "dos portugueses".
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Paulo Pedroso
às
23:52

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Filipe Nunes
às
16:49
A discussão sobre se o PS quando chega ao Governo vira ou não à direita é tão velha como a democracia portuguesa. Independentemente da sua bondade e adesão à realidade, na sua versão actual traz duas questões politicamente relevantes, que resultam menos do enquadramento ideológico da governação e mais da postura governativa (i.e. o enfrentar dos “interesses corporativos”). Uma primeira que tem a ver com a própria eficácia das políticas implementadas contra os interesses organizados sectoriais. A este propósito, recomendo vivamente o artigo que o Pedro Magalhães escreveu no Público há umas semanas, e que entretanto já está disponível aqui. E uma segunda que remete para os riscos eleitorais de uma estratégia de governação que enfrenta a base social que tradicionalmente apoia o PS. Sobre este tema, escrevi um artigo na Revista Atlântico de Junho, que pode ser lido aqui.
“O Governo enfrenta um importante dilema: saber se deve continuar a fazer o que o realismo obriga a que seja feito, fragilizando a relação com a sua base social ou, pelo contrário, governar consolidando a sua ancoragem partidária e eleitoral. Enganar-se-á quem pensa que há uma solução win-win, assente num futuro de sucessivas vitórias eleitorais. O país ficará um pouco mais sustentável, mas quem vier depois terá como principal missão “juntar os cacos”. Está em jogo um trade-off entre realismo e sustentabilidade futura do PS, um trade-off que é também entre governabilidade e institucionalização da democracia. A opção tomada, sendo acertada, é de enorme risco. Um risco talvez apenas superado pela tentação para fingir que ele não existe.”
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pedro adão e silva
às
10:47
"Pouco antes do início de uma representação teatral, um desconhecido entra em cena para expor o seu "próprio caso". Logo é interrompido por um trabalhador do teatro, depois por uma actriz, até ao autor e por fim toda a companhia. Cada qual acaba por falar do seu " próprio caso" e gera-se a discussão. A cena vai finalmente ter lugar, mas tudo recomeça da mesma maneira. Ouve-se então um texto de Beckett. Mais uma vez sobe o pano, desta vez o som está ao contrário, uma verdadeira Torre de Babel! Seguidamente assiste-se ao diálogo de Job com Deus, com os mesmos actores da peça a fazerem de amigos de Job. No final, Job e a mulher são felizes na Cidade Ideal de Pierro della Francesca." (Sinopse de "O meu caso", filme luso-francês, realizado por Manoel de Oliveira)
Um encontro Portugal-França, com duração de cerca de 90 minutos (87 para ser mais preciso) a não deixar de ver, esta noite, por quem se interrogue sobre o que vale o indivíduo perante a exaltação colectiva. Eu, que gosto muito do filme, vou fazer um intervalo para, nessa mesma exaltação, acompanhar o jogo em ecran gigante, com fervor nacionalista, numa esplanada de Bucareste. É que não faço parte dos bloguistas futebol-exaltados nem dos futebol-entediados. O meu caso não é esse. Nem o de Manoel de Oliveira, que foi atleta e corredor de automóveis. Como disse o próprio a João Benard da Costa, em afirmação reproduzida na biografia incluida num dossier especial da Madragoa Filmes (a que pode aceder através do link da sinopse do filme) e vale a pena repetir hoje, quer aos exaltados quer aos entediados, quer ainda aos apáticos: "O Meu Caso é feito de bocados separados, que aparentemente não têm ligação nenhuma uns com os outros. Mas há um substracto comum. E esta é a ideia de O Meu Caso".
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Paulo Pedroso
às
16:00
A sondagem da Marktest para o DN sobre a questão da paridade dá indicações muito interessantes quanto à opinião dos inquiridos sobre a questão da paridade:
1. Uma larga maioria (69,6%) acha que a participação das mulheres na vida política é insuficiente e que (75,3%) a percentagem de mulheres no Governo deveria ser superior à que existe;
2. Uma maioria, mas menos expressiva do que as anteriores, entende que o aumento da participação feminina vida política favoreceria a melhoria da qualidade desta (57,5%) e concorda com a introdução dum sistema de quotas obrigatórias nas listas eleitorais dos partidos (52,0%);
3. Uma folgada maioria (61,3%) opõe-se à ideia de, perante a eventualidade de não existirem quotas, os partidos verem aumentada a subvenção que recebem do Orçamento do Estado quando incluíssem uma determinada proporção de mulheres nas suas listas.
Há, portanto, duas perguntas que falta fazer:
A apresentação de listas paritárias por um dado partido atrai o seu voto para esse partido?
A apresentação de listas com largo predomínio de um dos sexos condiciona negativamente o seu voto no partido que as apresenta?
A sondagem hoje publicada sugere que sim. Mas eu preferiria saber a resposta depois de feitas as perguntas.
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António Dornelas
às
13:05