quarta-feira, 14 de março de 2007

Beleza tranquila

Não terá a força irrequieta de interpretações mais “de época” (como a de Christophe Rousset recentemente reeditada pela Universal na colecção dos prémios Gramophone). Mas as suites de Rameau tocadas por Angela Hewitt têm uma beleza tranquila difícil de igualar.

Jean-Philippe Rameau (1683-1764)
Keyboard Suites
Angela Hewitt, Hyperion, 2006

CDA67597; SACDA67597
Suite in E minor [21'35]: Pièces de clavecin (1724, rev. 1731)
Suite in G minor [28'26]: Nouvelles suites de pièces de clavecin (c. 1729–30)
Suite in A minor [28'17]: Nouvelles suites de pièces de clavecin (c. 1729–30)

terça-feira, 13 de março de 2007

Sombras sobre o futuro

Confesso que não tinha ideia do peso do carvão no abastecimento energético actual. Foi só ao ler o último número da Science & Vie que o descobri.

1. Descobri, por exemplo, que o carvão não só é a segunda fonte de energia primária, logo após o petróleo, como, ao contrário deste, tem acompanhado a procura crescente de energia nas últimas décadas (ver figura 1). Ou que o carvão é a principal fonte de electricidade, no plano mundial, posição que, inclusive, consolidou nos últimos 30 anos, representando hoje 40% da origem de toda a electricidade (ver figura 2): percentagem que sobe para cerca de 98% na Polónia, ultrapassa os 75% na África do Sul, China e Austrália e é superior a 50% na Alemanha e nos EUA.

2. Como o consumo do carvão é ainda mais poluente que o de petróleo, 40% das emissões de CO2 devem-se hoje ao uso energético do carvão (contra 35% em 1973: ver figura 3). A ameaça do efeito de estufa é assim reforçada pelo progressivo esgotamento do petróleo e a sua paulatina substituição por um carvão mais abundante (com reservas para centenas de anos) e mais equitativamente distribuído em termos geográficos. Ou seja, o uso do carvão é, no curto prazo, uma tentação a que será difícil resistir, sobretudo nas economias emergentes em rápido desenvolvimento: na China, constrói-se quase uma central eléctrica a carvão por semana.

3. É verdade que o uso do carvão encontra hoje limites no domínio em que continua a reinar o petróleo: o dos transportes (ver gráfico 4). Pense-se, porém, o que poderia significar a generalização do automóvel movido a electricidade produzida em centrais a carvão; para já não falar nas tentativas recentes de transformação do carvão em carburante, com uma qualidade bem superior à do usado durante a II Guerra Mundial. Soluções baratas mas com custos ambientais assustadores.

4. O risco de catástrofe ambiental associado ao uso crescente do carvão abre caminho à reavaliação positiva da alternativa nuclear, limpa em CO2. O risco do aquecimento é assim substituído pelo de acidente nuclear. Raio de escolha!

5. O Público dava conta, hoje, de projectos em curso de ampliação ou construção de grandes barragens em Portugal. Venham elas, mesmo não sendo isentos de consequências negativas no plano ambiental (e quais o são?). Incluindo a do Côa...


Figura 1. Produção total de energia primária


Figura 2. Produção total de energia eléctrica


Figura 3. Emissões de CO2


Figura 4. Consumo final por sectores, 2004

Fonte das figuras: International Energy Agency (IEA), Key World Energy Statistics 2006.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Raízes...

1. A última edição do Expresso (10/03/07) incluía um interessante e divertido artigo sobre o impacto territorial das novas vias rodoviárias. Intitulado “Um país a encolher” (pp. 20-21), era ilustrado com alguns dados simples sobre a redução do tempo nas ligações entre as principais cidades do país: Lisboa-Porto fazia-se, em 1973, em 5h09, contra 2h49 em 2007 (e ainda não há TGV...).

2. Numa caixa à margem, a referência ao “lado perverso da revolução rodoviária”. Segundo o jornalista, “Fernando Nunes da Silva, docente universitário e especialista na área dos transportes, (...) alerta para os dois lados da moeda. Por um lado, maior acesso do interior a bens e serviços, nomeadamente com algum grau de sofisticação. Por outro, um efeito perverso que tem a ver com a quebra dos laços tradicionais que mantinham as pessoas presas às terras de origem, com a consequente migração para as cidades do litoral dos elementos mais jovens e dinâmicos, em busca de emprego qualificado”.

3. Naquela longa citação, a expressão-chave é “a quebra dos laços tradicionais”. Como as estradas não cortam laços sociais, convém traduzir a retórica. E esta significa, simplesmente, que as pessoas deixaram de viver na ignorância de alternativas de vida. Os laços que explicavam a permanência eram os que resultavam do desconhecimento, os que resultavam da colocação das pessoas numa situação de não escolha. Não consigo perceber por que razão é o fim dessa situação, negativamente definida, um “lado perverso” da mudança. Parece-me mais o outro lado positivo da mesma mudança.

4. Em boa verdade, o argumento soa a salazarento: se os mantivéssemos isolados e ignorantes, a tradição estaria salva e com ela o território. Ainda que à custa das pessoas...

sábado, 10 de março de 2007

E podem? E devem?

Que Portugal tem uma elevadíssima percentagem de gravidezes adolescentes, é um facto tão incontestável quanto os resultados do recente referendo nacional sobre a despenalização da IVG.Que Daniel Serrão é um professor de medicina com posições ultra-conservadoras, também.Que o Hospital da CUF pode comprar e pagar consultoria a quem bem entender, idem-idem, aspas-aspas.Mas alguém me explica onde pára o Bastonário da Ordem dos Médicos - que ainda há poucos meses arranjou tempo e vontade para cantar hossanas em louvor dos médicos que protestaram contra o controle da assiduidade num hospital público - quando se repetem notícias de que a administração de hospitais privados pretende limitar a liberdade profissional dos obstetras em práticas profissionais legais, como a prescrição da pílula do dia seguinte ou a prática da IVG nas condições legalmente previstas?E, já agora, podem as instituições públicas ter protocolos de colaboração com instituições privadas que impedem actos médicos privados legalmente legítimos?E, por último, se os juristas concluirem que as leis da República podem ser detidas à porta dos hospitais privados por decisões duma qualquer administração de empresa, sempre restará a questão política: e devem os dinheiros dos contribuintes servir para alimentar lucros privados de instituições refractárias às leis da República?

sexta-feira, 9 de março de 2007

Baralhar e voltar a dar


A música é perigosa, lembrava-me, há uns dias, um amigo recordando o que dizia o General Konrad. O Matthew Herbert, entre alguns excessos de proselitismo, tem-se encarregado de demonstrar que é assim. Depois de em dois discos (Around the House e Bodily Functions) ter inventado um par de coisas que são das poucas que vão perdurar da vaga electrónica (as micro-partículas fragmentadas que no fim ganham coerência), tem também dado alguns passos em falso. Mas pelo menos arrisca: esta apropriação jazzística pela big-band de “the audience” de Bodily Functions é disso exemplo (aqui a versão original, para os comparativistas). Não é totalmente conseguida, mas tem identidade e alguma coisa para “dizer”. Não há registos no youtube com a mesma qualidade para actuações ao vivo sem big-band, mas apanhei o teledisco do Suddenly, que ajuda a explicar o que queria dizer e mostra as portas que Bodily Functions abriu e que, verdade seja dita, acabaram por ficar por explorar devidamente.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O «terceiro homem»?

É costume dizer-se que as eleições se ganham ao centro. Mas em França, aparentemente, as eleições ganham-se à direita. Desde 1958, só houve um presidente de esquerda (Mitterrand). O centro acaba sempre por apoiar a direita (ou vice-versa). E as sondagens mais recentes indicam que 90 por cento do eleitorado tenciona votar em quatro candidatos: um de esquerda (Ségolène), um de centro-direita (Bayrou), um de direita (Sarkozy) e outro de extrema-direita (Le Pen). Se em Portugal, por exemplo, onde a maioria dos eleitores se autoposiciona à esquerda, a esquerda ganha quando se aproxima do centro, imagine-se em França, onde a correlação de forças é claramente favorável à direita.
Deste ponto de vista, Ségolène até começou bem. Nas primárias do PSF, apostou na democracia participativa e na ideia de «uma ordem justa» como forma de contrariar o fosso entre elites e eleitorado, que em França atinge especialmente os socialistas. Ganhou popularidade para além do eleitorado tradicional do partido e, como tal, ganhou a confiança dos militantes socialistas (muitos deles novos militantes). A partir daí, assistiu-se a uma sucessão de asneiras. Nas habituais viagens de legitimação internacional, Ségolène foi passeando gaffes por esse mundo fora, aliás na senda da resposta que já havia dado à questão da adesão da Turquia à EU: «a minha posição será a dos franceses consultados em referendo». Ainda assim, tudo isto podia ter sido relativizado internamente, se a candidata tivesse aproveitado o programa eleitoral para corrigir as fragilidades reveladas em matéria de política externa e de política económica (aqui os conselhos de Strauss-Kahn podiam ser úteis). Acontece que em vez de apresentar um pacto presidencial digno desse nome, Ségolène apresentou uma espécie de Plano Nacional para o Desenvolvimento Económico e Social que ficaria bem a um candidato a ministro dos Assuntos Sociais do pós-guerra. Aumentos salariais, aumentos de pensões; nenhum grupo sócio-profissional foi esquecido nas «100 propositions». Tudo o que era novo na esquerda de Ségolène caiu, tudo o que era velho ficou.
Traumatizados pelo que aconteceu nas últimas presidenciais (fragmentação da esquerda, Le Pen na segunda volta), os estrategas socialistas optaram desta vez por unir a esquerda na primeira volta para chegar ao centro na segunda. Sucede que, desta vez, a concorrência não está à esquerda (as intenções de voto aí são residuais) mas ao centro, onde já há algum tempo François Bayrou aparecia como «o terceiro homem». As consequências desta estratégia do PSF estão hoje bem à vista. Segundo a última sondagem da CSA, Bayrou sobe 7 pontos e reúne 24 por cento das intenções de voto na primeira volta, estando apenas a um ponto da candidata socialista e a dois de Sarkozy. Mais: 55 por cento dos franceses querem vê-lo na segunda volta. Por este andar, o «terceiro homem» vai passar em breve a ser o segundo ou mesmo o primeiro homem das eleições presidenciais francesas. Mesmo que Ségolène, no meio da confusão, consiga chegar à segunda volta, terá muito mais dificuldades com o centrista Bayrou do que teria com o direitista Sarkozy.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Maria Raducanu


O Institut Franco-Portugais anuncia para 23 de Março um concerto com Maria Raducanu. Admito que diga pouco ou nada à generalidade dos protugueses. Para uma primeira apresentação diga-se que é uma cantora romena e que o seu percurso, ainda curto, a levou a procurar encontros entre o jazz e a musica popular. O resultado é uma música de sabor balcânico mas grande contenção estilística (muito longe do espalhafato que estamos habituados a associar à música balcânica). Eu, quando ouvi o primeiro disco, de 2002, gostei bastante. Entretanto, outros se seguiram.
Infelizmente Maria Raducanu ainda não chegou ao you tube e a sua editora, a romena La Strada, dá-nos apenas acesso a curtíssimos extractos de dois dos seus discos, que estão longe de mostrar, na minha opinião, a diversidade do trabalho da cantora.


Contudo, é o que temos(Pe Vale e Colinde) e quem quiser ouvir mais, pode dar, se puder e quiser, um salto à Av. Luis Bívar.

terça-feira, 6 de março de 2007

O eterno mito do retorno

E ao vigésimo quarto mês, Paulo Portas regressou. Fê-lo com a capacidade de fixar a atenção dos ‘media’ que o caracteriza, mas, ultrapassado o entusiasmo momentâneo, nada de substantivo disse. Nem sobre a alteração das circunstâncias que o levaram a demitir-se, nem sobre o modo de ultrapassar a encruzilhada em que se encontra o espaço do centro-direita. Não menos grave, regressa com uma nuvem de falta de carácter a pairar sobre a sua relação com Ribeiro e Castro. Com este regresso, Portas, até ver, apenas consolidou a ideia de que é um político que se rege por um vai-e-vem ideológico: umas vezes liberal, outras populista, para logo se tornar conservador e intermitentemente um estadista contaminado pelo realismo. Ao serviço das conveniências.
continue a ler aqui.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Maravilhas de Portugal #4

1. Em termos de mobilidade, Portugal de hoje nada tem a ver com o de há 30 anos: o Marão deixou de ser obstáculo maior, Espanha e a Europa ficaram mais perto e as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto cresceram e adensaram-se. Aumentando a mobilidade espacial, aumentaram as oportunidades de vida, incrementou-se a difusão da modernidade, abriram-se as portas a um cosmopolitismo crescente.

2. Estradas e vias férreas, portos e aeroportos foram fundamentais para aquela mudança radical. Quando, no caso das vias terrestres, os obstáculos eram maiores, pontes e viadutos foram a solução, encurtando ainda mais as distâncias. E as pontes são, hoje, das maravilhas maiores de Portugal, com dimensão mundial.

3. De início, o Porto tomou a dianteira. A ponte de D. Luís, primeiro, a da Arrábida, depois, removeram o obstáculo do rio transformando-o em cenário de obras de destaque tanto no plano técnico como no estético. Lisboa veio mais tarde, pois o obstáculo era maior, tendo sido necessário esperar por 1966 para, com a inauguração da que ficaria mais tarde conhecida como Ponte 25 de Abril, o Sul ficar mais perto do resto do país.

4. A Ponte 25 de Abril teve um impacto inultrapassável na estruturação do território metropolitano e nacional, reforçado em 1999 com a abertura do tabuleiro para o tráfego ferroviário. Porém, no plano estético foi superada pela mais recente Ponte Vasco da Gama, a minha escolha neste modalidade.

domingo, 4 de março de 2007

O comentário que eu queria ter escrito

A crónica de Clara Ferreira Alves, na Única que acompanha o Expresso de ontem, é o comentário que eu gostava de ter sabido escrever a tempo e horas sobre a excelente entrevista que Ana Gomes deu e que a Única da semana passada publicou.
Idiosincrasias à parte, a entrevista de Ana Gomes ilustra uma atitude que a honra como mulher política e que confirma a determinação e a frontalidade que se lhe conheceram ao longo das décadas em que se bateu pelos direitos dos timorenses.

sábado, 3 de março de 2007

Devem as minorias ter direitos?

Resposta curta: não.

1. Resposta mais desenvolvida: as minorias não devem ter direitos porque não constituem entidade moral. Mas as pessoas que se definem (e/ou são por outros definidas) como pertencendo a uma minoria devem ter todos os seus direitos protegidos de qualquer tentativa de discriminação por pertença, escolhida ou, mais frequentemente, herdada ou imputada, a essa minoria. Por outras palavras, a igualdade de direitos deve ser independente da chamada pertença de um indivíduo a uma qualquer minoria (religiosa, étnica, ...).

2. Combater a discriminação criando direitos por “minorias” é a pior das soluções para um problema real. E é uma má solução porque essencializa atributos dos indivíduos particulares em lugar de os tornar normativamente irrelevantes, como se tem vindo a conseguir com a construção da categoria “indivíduo” em termos cada vez mais abstractos. Só essa abstractização garante plenamente o princípio da igualdade social. O contrário traduzir-se-á numa lamentável e perigosa tribalização das nossas sociedades.

3. Senti necessidade de reafirmar estes princípios básicos depois de ler, através da página do ACIME, o Terceiro Relatório sobre Portugal da ECRI (Comissão contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa). De facto, os equívocos da ECRI são tais que se começa a correr o risco de ver o que começou por ser uma iniciativa louvável a passar progressivamente mais para o lado do problema do que da sua solução. Voltarei a este relatório em próximo texto. Por agora queria só salientar uma das suas primeiras recomendações: a ratificação, por Portugal, da Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias (acessível, em português, no portal da Associação Galega da Língua).

4. Não incluindo a definição de “línguas regionais ou minoritárias” as línguas faladas pelos imigrantes, a única com aquele estatuto, em Portugal, seria o mirandês. O principal dinamizador do Sítio de I Mirandés, Amadeu Barros Ferreira, não tem dúvidas sobre tal estatuto e propõe, portanto, que essa ratificação se faça em breve e com consequências nos planos do ensino público, do pré-escolar ao universitário, no uso do mirandês nas relações com os organismos do sistema de justiça e da administração pública, na promoção pública de meios de comunicação e de programas em mirandês, na promoção do uso do mirandês nas instruções de equipamentos técnicos, ...

5. Segundo o relatório da ECRI, as autoridades portuguesas estariam a considerar a possibilidade de uma ratificação, em breve, daquela Carta. Esperemos que não — seria, no mínimo, brincar com o fogo...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Manuel Galrinho Bento (1948-2007)

Várias das primeiras memórias que tenho de gostar de futebol incluem Bento. Como o mítico benfica-sporting em que "agrediu" Manuel Fernandes, foi expulso e o resultado foi o que se sabe. Defesas de antologia, falhas raras mas não menos grandiosas. Era o tempo em que os grandes jogadores, os de topo, ficavam muitos anos no mesmo clube, não eram milionários e não tinham na lista de dez principais funções ajudar os clubes a vender camisolas. E em que era possível ter um metro e setenta e três e ser um grande guarda-redes, talvez o melhor de sempre em Portugal. Nada de errado com o futebol mais mercantilizado e "optimizado" de hoje. Mas a beleza imperfeita do jogo desses tempos merece ser recordada.

Au Revoir Simone


A Virginia Astley parece que se encontrou com os Stereolab e deu nisto: ambientes bucólicos, sonhos pueris e teclados anacrónicos. O video, para além das promessas que abre para o álbum que está para sair, revela também a superioridade evidente do segundo sexo. Há quem lhes chame as irmãs Bronte do electro-pop. É adequado.

O nosso papão está vivo

O Público de ontem ocupava dois terços da primeira página com uma fotografia sombria e um título pouco mais luminoso ("nuestros maestros"), sobre a suposta inspiração espanhola de duas soluções propostas pelo Governo - a chefia coordenada das forças de segurança e as cirurgias ambulatórias para combater listas de espera.

Curioso. Tem sido recorrente, e explícita, a utilização de exemplos de (vários) outros países para a definição de políticas e medidas em Portugal, sobretudo em tempos recentes. Coisa que, aliás, se forem asseguradas as condições de comparabilidade das situações e de transferibilidade das soluções, é bastante positiva. Só não me lembro de alguma vez isso ter tido honras de título principal de um jornal...

quinta-feira, 1 de março de 2007

Fiquei curioso

O FMI pôs à venda um livro sobre o que a China e a Índia aprenderam uma com a outra no plano económico. Fiquei com curiosidade de ver o que há de paralelo na preparação das vias asiáticas - a ditatorial e a democrática - para o capitalismo do século XXI.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

O meu programa político


Em Lisboa, no Verão.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Presidency Summary


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Notícias do Paraíso

Não se sabia, mas temos o melhor ensino universitário do mundo. No que ao ensino superior diz respeito vivemos no paraíso, perdão, no Paraíso. Infelizmente, é um Paraíso que corre sérios riscos de corrupção, a curto prazo, em consequência da iniciativa do ministro da Ciência e do Ensino Superior, que “quer reconhecimento automático para licenciaturas e mestrados estrangeiros”. Inclusive, pasme-se, para as classificações obtidas nesses cursos (se calhar mesmo para os de Medicina feitos na República Checa). As reacções a tamanha desfaçatez foram prontas.

1. João Cunha e Serra, do Departamento do Ensino Superior da Fenprof, alerta para o facto de ser necessário ter “o cuidado de ver se os países em relação aos quais este sistema vai ser aplicado dispõem de agências de acreditação e avaliação credíveis”. Tem toda a razão, pois Portugal é, neste campo, exemplar, tendo tido nos últimos anos um fabuloso sistema de avaliação das universidades protagonizado pelos próprios interessados nos resultados da dita. Um paraíso...

2. Seabra Santos, Reitor de Coimbra e novo presidente do CRUP, vai mais longe, argumentando que “a mobilidade é uma exigência das sociedades e das universidades modernas, mas a qualidade também o é” e, na Europa “existem boas universidades e más universidades, piores do que existem cá, pelo que é preciso acautelar a qualidade”. Uma vez mais a razão está do lado da Reacção, perdão, da reacção, pois em Portugal TODAS as universidades são boas. E assim fica esclarecido o mistério da ausência de classificação final nas avaliações antes conduzidas pelo Cnaves: não era necessário distinguir claramente entre cursos avaliados porque eram todos igualmente de grande qualidade. O paraíso...

3. Seabra Santos junta ainda a sua voz à voz de Lopes da Silva (ex-reitor da Universidade Técnica de Lisboa e ex-presidente do CRUP) para reclamar que a reciprocidade deve ser condição fundamental do reconhecimento (tipo, só reconhecemos os diplomas concedidos pela Universidade de Cambridge se os bifes reconhecerem os diplomas concedidos pelo Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras). Magnífica reivindicação, pois a decência e a racionalidade não se podem sobrepor à defesa da Pátria -- e quem não o percebe não é bom benfiquista, perdão, patriota!

4. Só mesmo estes para me fazerem vir em defesa de uma iniciativa do ministro da Ciência e do Ensino Superior quando o que me apetecia era antes escrever um post a explicar que a política não pode ser uma charada...

A esquerda e a direita unidas jamais serão vencidas

Foi hoje publicada mais uma entrevista Público-Rádio Renascença. Na edição impressa, o nome original do programa («Diga Lá, Excelência») caiu, mas nem por isso a coisa perdeu graça. Às tantas, Nuno Gaioso Ribeiro, o entrevistado desta semana, diz que, para resolver o problema de Lisboa, «preferia uma solução atípica a eleições intercalares»: nada mais, nada menos do que uma lista de personalidades independentes, apoiada por PCP, Bloco, PS e CDS. A ideia remete-nos imediatamente para o poeta chileno Nicanor Parra que, em 1972, num momento em que se gritava «a esquerda unida jamais será vencida», lançou para a história um slogan de compromisso: «la izquierda y la derecha unidas jamás serán vencidas».

Nestas paragens # 3
















Monsaraz, Fevereiro de 2007

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Maravilhas de Portugal #3

1. As barragens substituíram os aquedutos como parte visível e monumental das redes de infra-estruturas públicas: Castelo de Bode sucedeu às Águas Livres. E o engenho, monumentalidade e beleza foram assim incrementados.

2. Mas as barragens não serviram só para armazenar água (embora esta função vá ter, no futuro próximo, uma importante revalorização). Elas constituíram, sobretudo, uma peça-chave na industrialização das sociedades modernas, no sentido mais lato do termo: a electrificação não suportou nem suporta apenas a actividade fabril, mas a expansão da industrialização a toda a actividade económica e ao espaço doméstico. Hoje ainda mais do que ontem, com o desenvolvimento das novas tecnologias de informação.

3. No passado, o esforço de electrificação simbolizou como poucos o investimento no desenvolvimento. Mas a palavra desenvolvimento passou de moda, repudiada por neoliberais que consideram desnecessário qualquer esforço coordenado para optimizar os resultados sociais da expansão da actividade económica, e alvo de suspeita por ideólogos ambientalistas. Neste último caso, a depreciação da palavra foi mais subtil, passando pela subordinação do substantivo ao adjectivo: do desenvolvimento sustentado retém-se habitualmente o sustentado esquecendo-se o desenvolvimento.

4. Eu maravilho-me com o desenvolvimento, e as barragens são dele um símbolo simultaneamente monumental e belo. Em Portugal existem muitas grandes barragens, com múltiplas funções, que merecem ser nomeadas. Para além de Castelo de Bode, poderiam ser escolhidas, por motivos completamente diferentes, as da Aguieira, do Picote ou do Alqueva. Mas eu escolho a do Alto Lindoso, campeã das barragens portuguesas em termos de capacidade instalada de produção eléctrica, de uma altura (110m) esmagadora e de uma simplicidade monumental só comparável à da paisagem agreste que a rodeia.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

A ofensiva

Há uns tempos, nesta casa, debatíamos com o Pedro Mexia e o Pedro Lomba a questão da ofensiva da esquerda na imprensa diária. Bem sei que já há não coluna infame, mas se existisse, o que diriam disto?

Público – José Manuel Fernandes
Diário de Notícias – João Marcelino
Correio da Manhã – Octávio Ribeiro

Homenagem


Fez ontem vinte anos que morreu Andy Warhol e hoje vinte anos que morreu Zeca Afonso. Enquanto pela blogoesfera lusa há muito quem se entretenha a legitimar com sofismos no mínimo insultuosos para o que foi a vida de muitos portugueses (concretos, com nome e cara) a grandeza de um medíocre – que foi, acima de tudo, um grande filha da puta –, aqui fica um exemplo singelo do que era uma impossibilidade no Portugal dominado pelo ser funesto: o rock’n’roll tal como criado por Warhol/Reed/Cale/Nico/Tucker/Morrison. Em 1965, em Nova Iorque fazia-se isto. Nós por cá, continuamos a tentar acompanhar o passo. O Zeca, um grande português, ajudou a que, ainda assim, estejamos hoje menos distantes.

Brown ainda pode ganhar

O Guardian publicou esta semana uma sondagem que dá aos conservadores o seu melhor resultado desde que, em 1992, Major venceu Kinnock. Todas as sondagens, de resto, têm colocado David Cameron à frente de Gordon Brown na corrida para as próximas eleições gerais. Isto não significa, no entanto, que os conservadores tenham conquistado uma maioria social. No Reino Unido, onde ainda entra a Escócia, continua a haver uma maioria progressista. Apesar de Cameron aparecer como um tipo «cool», ao fim de dez anos de Blair, o Labour e os Liberais, juntos, continuam a estar à frente nas intenções de voto. Claro que o sistema eleitoral maioritário permite maiorias relativas conservadoras transformarem-se em maiorias absolutas no parlamento. Mas também não impede a reedição do histórico pacto «lib-lab», assinado em 1903 por Gladstone e MacDonald. Se em determinadas circunscrições mais tremidas, os liberais democratas e os trabalhistas, alternadamente, desistirem de apresentar candidaturas a favor do candidato/partido que estiver mais bem colocado para bater os tories, evitam a divisão de votos no campo progressista. Esta aliança, impossível nos anos 80, por causa do esquerdismo do Labour, e desnecessária nos últimos 10 anos, por causa dos «landslides» de Blair, pode muito bem ser agora liderada por Gordon Brown - o pacto «lib-lab» em pessoa.

O humor cruel do Guardian

Enquanto o Irão resiste ao cumprimento da decisão das Nações Unidas que lhe impõe a travagem do programa de desenvolvimento nuclear que está a desenvolver, alegadamente para fins pacíficos, os EUA continuam a aumentar a concentração de meios militares de grande porte na vizinhança daquele país.
E o Reino Unido? O Reino Unido faz saber que um dos filhos de Carlos e Diana de Gales vai partir em missão militar para o Iraque, ao mesmo tempo que o Governo Blair anuncia o início da retirada das suas forças militares daquele país, onde Bush, Blair, Aznar, Berlusconi e Barroso conseguiram aumentar a desestabilização numa região estratégica e transformar uma ditadura sanguinária numa anarquia.
É por tudo isto que o cartoon de Steve Bell, publicado no Guardian, me parece brilhante: é difícil ironizar melhor com uma situação tão complexa.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Cartas de Iwo Jima

Se As Bandeiras dos Nossos Pais era um bom filme, Cartas de Iwo Jima (2006) é um grande filme. Talvez o melhor de Clint Eastwood. E um dos que mais sublinha a inutilidade e a crueldade da guerra. Independentemente dos olhos usados para (re)viver o conflito.
Perto do fim, já com a derrota japonesa confirmada, um diálogo simples entre o general Kuribayashi e o soldado Saigo resume os equívocos do militarismo, mesmo quando protagonizado pelo militar menos militarista (e cito de memória):
General Kuribayashi: “És um bom soldado!”.
Soldado Saigo: “Não, sou um padeiro longe de casa”.

No princípio do filme, um diálogo entre o mesmo Saigo e outro soldado ilustra a futilidade e a arrogância da cultura da morte dos poderosos (e cito novamente de memória):
“O que estás a ler?”
“Um livro sobre um rei que mandou fazer um castelo para a sua mulher, que morreu.”
“Um castelo para uma morta? Devia ser um país muito rico.”

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Rigor em saldo

No DN de domingo (18/02/07), Isabel Lucas assina uma reportagem que intitula “Doutores em saldo” . A ideia-chave da reportagem é assim resumida: “Marco, Paula, Margarida Inês e Bruno têm entre 23 e 30 anos, têm uma licenciatura, têm um emprego, mas nenhum dos cinco exerce a função para a qual recebeu formação.”

1. O primeiro equívoco deste tipo de textos reside na relação formação-profissão. Quase nenhuma formação superior, sobretudo se universitária, é profissionalizante, no sentido estrito do termo. Talvez medicina seja a única excepção a esta regra. Todas as outras são formações que permitem o desempenho de várias profissões ou actividades. Por exemplo, a formação em História Moderna e Contemporânea (um dos exemplos da reportagem) permite o desempenho não da “profissão” de “historiador especializado na era moderna e contemporânea” (!!) mas as mais diversas profissões em que o conhecimento em História Moderna e Contemporânea pode ser útil: jornalismo, edição, turismo, ensino, animação sociocultural e, até, ... investigação em história. No caso concreto da reportagem, o jovem em causa, licenciado em História Moderna e Contemporânea, trabalha em câmbios. A relação é mínima? Pois é, e depois? Era preferível que tivesse estudado menos? E que conclusão se pode tirar sobre a inserção profissional de um licenciado com 27 anos?

2. Noutros casos retratados na reportagem, não se percebe sequer o fundamento da tese da desadequação entre formação e profissionalização. Que desfasamento existe entre o trabalho numa editora, de livros, e a formação em jornalismo? Ou entre uma formação em ciências da comunicação e o trabalho numa livraria? E mesmo quando existe algum desfasamento é algum drama? O sociólogo que queria estudar comunicação mas acabou em sociologia e hoje trabalha como vendedor lá confessa que, mesmo nessa actividade tem “a vantagem de ter mais habilitações. Afinal, sempre tenho uma licenciatura e isso pode ajudar na progressão.” Entretanto, decidiu que precisava de mais (e não de menos) estudos e frequenta um mestrado em comunicação, para assim melhorar as suas possibilidades de obtenção de emprego na área da comunicação. Até porque tem tempo, pois só tem 23 anos. Como a licenciada em Ciências da Comunicação, que, tendo descoberto o gosto pela tradução, afirma que “se pudesse, fazia uma pós-graduação em Letras e um curso de espanhol”. Mais formação, não menos, agora mais específica, depois de uma experiência no mercado de trabalho.

3. A pérola da reportagem é porém a frase “sentem-se rejeitados por um mercado que não os aceita como trabalhadores, mas que os aliciou com o eldorado que poderia representar uma licenciatura.” O “mercado aliciou” quem e como? Significa o quê esta frase vazia? Deixando de lado a retórica, pouco profissional num texto jornalístico, talvez a autora esteja simplesmente a querer dizer que aqueles jovens pensavam que teriam mais e melhores oportunidades profissionais com uma licenciatura do que sem ela. Pois se o pensavam, pensavam bem, como as estatísticas demonstram facilmente: em média, um licenciado tem mais e melhores oportunidades profissionais do que quem tem apenas o secundário ou o básico. Oportunidades, mas não garantias.

4. A reportagem insiste, porém, no carácter precário e mal remunerado dos trabalhos desempenhados pelos jovens entrevistados. Curiosamente, não intitula “mercado de trabalho em crise”! Pelo contrário, arruma o problema no lado da formação. Está certo, deve obedecer a uma lógica que eu domino mal...

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Maravilhas de Portugal #2

1. É normal que a primeira reacção de quem vê as pirâmides do Egipto seja de admiração pela grandiosidade da coisa e pela façanha técnica que representa. Porém, pensando melhor e mais friamente, a obra sendo monumental é também revoltante. Só em tempos de grande desumanidade seria possível tamanho desperdício de recursos e de vidas com a construção do túmulo de um indivíduo.

2. Infelizmente, é mais difícil o encantamento com a utilidade mesmo quando monumental. Veja-se o que acontece com um dos mais geniais desenvolvimentos da era contemporânea, o das redes de infra-estruturas: de electricidade, de água, de esgotos, de gás, de comunicações... Que permitem depois o funcionamento de comodidades prosaicas como o quarto de banho ou a iluminação doméstica.

3. Para essa indiferença pelas maravilhas que sustentam a comodidade do nosso quotidiano contribui o facto de as redes de infra-estruturas serem em geral invisíveis porque enterradas. A mesma razão por que os túneis são menos admirados do que as pontes, ao ponto de o túnel sobre a Mancha não constar da lista das novas 7 maravilhas do Mundo, apesar do seu estatuto mítico.

4. Há, porém, e há muito, elementos visíveis dessas redes que as podem simbolizar com eficácia. Como os aquedutos que constituiram um primeiro esforço humano para colocar a obra monumental ao serviço de objectivos pacíficos e socialmente úteis, ainda por cima com realizações de grande beleza. Em Portugal, destacam-se dois: o de Elvas e o das Águas Livres. O segundo, que ainda pode ser observado em funcionamento, é a minha escolha de hoje. Pelo que representa de excepção num legado de templos, palácios e fortificações (ou de túmulos faraónicos).

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

O problema do PSD

Quando há cerca de 10 anos a JS de Sérgio Sousa Pinto apareceu a defender a despenalização do aborto, o PS de Guterres ficou embaraçado. A partir de então, sempre que se falava do assunto, falava-se de problemas para o PS. Mesmo durante a liderança de Ferro e nos primeiros dois anos de Sócrates foi essa a perspectiva dominante na análise política, desde logo porque o reposicionamento do PS passava por ganhar um novo referendo. De repente, foi como se tudo tivesse mudado a 11 de Fevereiro de 2007: afinal, a questão fracturava essencialmente o PSD, dividido entre um grupo de elites e eleitores conservador (maioritário à direita) e um grupo mais liberal (minoritário, embora importante para obter maiorias eleitorais).
Mas, na verdade, este problema do PSD com as «questões fracturantes» não começou agora nem se resume ao aborto. Bem vistas as coisas, o problema já se podia adivinhar há algum tempo: pelo menos, desde o início desta legislatura (Março de 2005). Quando se discutiu a Lei da Paridade, a Lei do Protocolo de Estado (que reduziu a preponderância das Forças Armadas e da Igreja Católica), a Lei da Nacionalidade ou o projecto do CDS que visava reduzir a idade da imputabilidade de menores para os 14 anos foram visíveis, através de algumas intervenções públicas e declarações de voto, as divergências na bancada do PSD. E mais recentemente, foram aprovados na Assembleia da República dois projectos-lei: um sobre procriação medicamente assistida; outro sobre implementação de projecto-piloto de troca de seringas em meio prisional. No primeiro caso, com inteira liberdade de voto, 8 deputados do PSD votaram a favor e 21 abstiveram-se (em 75 deputados). No segundo caso, 20 deputados do PSD manifestaram a sua discordância com a direcção da bancada através de declarações de voto favoráveis ao programa de troca de seringas.

L.C.



Muitas das músicas de que gostava muito continuo a gostar delas por nostalgia, por conseguir ouvir hoje o que nelas ouvia no passado. Há outras que ouvia e continuo a descobrir com um prazer novo. Por casa, sou “acusado” de estar sempre a ouvir os Durutti Column (no que não vejo nada de nostálgico) e, tamanha heresia, sou fã do Vini Reilly a “cantar”. Não sei se isto diz algo de errado sobre mim enquanto encarregado de educação, mas o meu filho já gosta e arrisca uma improvável dança quando ouve o Sketch for Summer. No fundo, uma utopia situacionista de trazer por casa.
A versão ao vivo da Jacqueline que aqui se vê (de 1988) é superior à versão mais curta do LC (ou da LC). Aliás, o tema sempre ganhou em versões ao vivo, com o solo do Bruce Mitchell (tão impressionante como a sua expressividade) a criar o contexto certo para que a guitarra volte a cair no tema.
Sobre os Durutti Column, o Miguel Esteves Cardoso escreveu: “esta música não é uma coisa prosaica e ingénua; não é papel-de-parede para tapar os buracos verdadeiros. Aqui há também uma luta. O que é preciso é raspar levemente a superfície da pintura, para encontrar a sua base de tintas negras e feias, o seu medonho inconsciente. Não há beleza sem contraponto, nem harmonia sem contraste. E a música de Vini Reilly é só isso.” É mesmo isso.

Referendo

Agora que tudo está acabado e, felizmente, ganhou o sim, é altura de reflectir sobre o uso do referendo.

1. Nunca, em minha opinião, se deveria ter levado a referendo a questão da descriminalização do aborto (embora, depois do primeiro referendo, fosse difícil outra solução). Esta é exactamente o tipo de questão que não deve ser referendada, pois não é, ao contrário do que se disse, uma questão de consciência.

2. Questão de consciência será agora, depois da descriminalização, a decisão da mulher individual colocada perante a hipótese de abortar. No referendo, porém, o que estava em causa era decidir sobre matéria de direito penal, decisão em cuja discussão as paixões e a demagogia tendem a sobrepor-se à necessária racionalidade. Foi como se tivéssemos levado a referendo a pena de morte...

3. Uma das virtudes da democracia representativa, apesar da deterioração da actividade política induzida pela mediatização da vida pública, sobretudo em sede parlamentar, está na criação de um espaço em que é possível a tomada de decisão em ambiente protegido da demagogia. Por isso, esse espaço deve ser preservado e nele devem estar sedeadas as decisões sobre matérias em que a racionalidade seja mais ameaçada pelas paixões e pela demagogia. Como o são as decisões sobre matérias penais.

4. O campo do referendo deverá ser mais o do conflito de interesses instrumentais do que o do conflito de valores. E o modo da sua aplicação, depois de assim especificado o seu campo, deverá ter por base objectivos de mobilização definidos de modo pragmático: por exemplo, fazendo coincidir as datas de referendo com as de eleições do mesmo âmbito territorial.

5. Para além do que importa relançar a discussão sobre o requisito do nível de participação. Estando devidamente acautelado o controlo sobre a proposição do referendo, não percebo a pertinência daquele requisito. Parece-me mesmo um dos factores de desmobilização mais poderosos que se poderia ter inventado. Ainda por cima apelando à irresponsabilidade.

Com amigos destes

É impressão minha ou a declaração de Fontão de Carvalho ontem teve como efeito imediato criar uma hierarquia de arguidos entre os autarcas social-democratas? Depois do “sou arguido, mas fico” de Fontão, Gabriela Seara – a quem, em última análise foi retirada a confiança política pelos vários níveis de direcção do PSD – ficou a ver pairar sobre ela um espectro de culpabilidade lançado pelo próprio partido.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Maravilhas de Portugal #1

[Na sequência de Capturados pela História, de 4.ª Feira, 14]. Em primeiro lugar, o Douro.

1. O Douro é das paisagens mais bonitas de Portugal. E das mais humanamente fabricadas também: com as pontes que o atravessam, a começar pelas que ligam Porto a Gaia, e com as barragens que o regulam, de Crestuma a Miranda; com a linha do Douro e os ramais do Corgo e do Tua. E, sobretudo, com os socalcos da vinha.


2. Pontes, barragens e vias de comunicação serão categorias de nomeação autónomas. Voto, por isso, nos socalcos. Para questionar, também, a oposição natural/artificial e, sobretudo, uma outra variante da captura pela história: o conservacionismo ambiental.



[Aproveitando ainda para, em contraponto a um tempo
ameaçado pelo light, celebrar a vinha e o vinho.]

História de P

por joão pinto e castro.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Capturados pela história

Está em curso a votação das 7 “maravilhas de Portugal”. As 21 “maravilhas” finalistas incluem 8 templos, 7 fortificações, 4 palácios, os Paços da Universidade de Coimbra e as ruínas de Conímbriga. Ausentes: obras do século XX (ou mesmo do século XIX) e obras de interesse público pacífico e profano.

1. A incapacidade para nos maravilharmos com o que conseguimos fazer hoje é desanimadora. Nunca como no mundo contemporâneo se construiu tanto e com tanta eficácia e grandiosidade. Seria pois de esperar orgulho com a obra do presente. Mas não, capturados pela história voltamos costas ao presente, desistimos do futuro e sentamo-nos a contemplar passivamente o passado.

2. O menosprezo pela obra útil é chocante. Embasbacados perante templos e palácios, prolongamos a captura pela história com a reverência pelas hierarquias do passado, menosprezando a moderna democratização da obra monumental. O encantamento fica reservado para o passado e para o inacessível. Ou para a lenda guerreira. No país mais desigual da UE não fervilha o encantamento pelo bem comum.

3. O problema reside, aliás, na confusão entre património e maravilha: “Tudo começou com uma lista de 793 monumentos nacionais, classificados como tal pelo IPPAR”, informa a página “oficial” das 7 Maravilhas de Portugal.

4. Não vou votar nesta selecção realizada primeiro por “sete peritos”, depois por um “Conselho de Notáveis”. Em alternativa, proporei, nos próximos dias, uma lista de candidatos às 10 Maravilhas de Portugal. Dez e não sete, que é número com referentes mais racionais e menos cabalísticos. Dez obras de entre as muitas que, em parte, nos chegaram do passado, mas que, na sua maioria, foram construídas no último século. Dez obras profanas que contribuem para o bem comum mais do que para celebrar vaidades privadas. Dez maravilhas para nos maravilharmos com o que podemos fazer hoje para construir um presente e um futuro com mais desenvolvimento.

Eu não estive lá mas é como se tivesse estado



Ainda a propósito de transformações sociais: os Arcade Fire (a única banda com hype do último par de anos que vai resistir ao síndroma do 2º disco) deram um concerto de apresentação do novo álbum “neon bible” em Londres para duas centenas de pessoas – de que aliás o Y dava conta na última semana. Até aí nada de especial. O especial é que depois do concerto avançaram para o foyer e no meio do público tocaram a versão atípica de “wake up” que aqui se pode ver. Parece um anúncio da TMN, com tantos telemóveis erguidos. No YouTube pode, aliás, fazer-se o exercício de adivinhar quem é que está a filmar e depois procurar o respectivo upload. Neste video, por exemplo, é possível ver Chris Martin (no frame dos 6 segundos, no canto esquerdo), ainda que – infelizmente – não se veja Gwyneth Paltrow. O que lembra que os Arcade, para além de serem uma banda do caraças, interpretam com precisão o espírito do tempo: estão no meio de nós. Sem fenómenos como a banda canadiana, o You da Time não era possível.

Eppure si muove

Ainda a propósito de transformações sociais: será difícil encontrar na história recente portuguesa uma semana como a que passou – despenalização da IVG; fim da revista Dia D e machadada no seu liberalismo de pacotilha (cada vez mais uma espécie de equivalente funcional da vulgata estruturalista dos anos sessenta/setenta); e, não menos importante, fim da revista Xis (o que põe os nossos filhos a salvo de influências perniciosas).

As duas maiorias políticas em Portugal

Este mapa das frequeguesias em que ganhou o sim e o não em 1998 e em 2007, elaborado pea Marktest, é elucidativo da realidade factual da propensão à formação de duas maiorias de sinal contrário a norte do Mondego e a sul do Tejo, com uma zona de transição entre Tejo e Mondego.
Estabelecidos os factos, há que interpretá-los. Abundam os "achismos" sobre o tema. Eu só gostava de conhecer os resultados de investigações sérias sobre as origens e as manifestações, para além da política, da clivagem.



Comentários:

E como seria na Itália? Na Alemanha? Na Roménia? Mesmas causas, mesmos efeitos? (P.)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Bem-vindo!

O Diplomata, um novo blog aparecido há cerca de uma semana e dedicado à análise sobre relações internacionais e temas conexos, onde já li bons posts e que tem bons links para os media estrangeiros e internacionais. Que seja bem-vindo.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

O take-over dos partidos de direita

Em Portugal a sociedade civil tende a ser secundária e com pouca autonomia, muito dependente, nuns casos do Estado, noutros dos poderes políticos. Daí que, frequentemente, quando as organizações sociais assumem protagonismo sofram pressões dos partidos. O caso do movimento sindical português é bom exemplo disso mesmo, para ficarmos nos “velhos” movimentos sociais. A campanha para o referendo teve por isso um aspecto distintivo, muito claro no campo do não: um take-over dos partidos pelos movimentos sociais. As cores na sede de campanha do CDS ontem, a gravata de Ribeiro e Castro, mas, acima de tudo, o modo como o PSD foi evoluindo de uma posição híbrida para um não assumido, entregando de facto a gestão dos instrumentos de campanha à plataforma “não obrigado”, são exemplos bem reveladores da baixa autonomia dos partidos de direita neste referendo (e.g. os direitos de antena do PSD com João Paulo Malta e Gentil Martins). Nenhum partido abdica da gestão destes instrumentos de ânimo leve e ainda não vi nenhuma explicação convincente para que o PSD o tenha feito. Continuo muito intrigado com a autoria e gestão da campanha do não.

(Também) uma vitória da esquerda

A noite eleitoral acabou cedo nas televisões, mas continuou noite dentro nas rádios. Acho que já passava da meia-noite quando Luís Osório deu assim por encerrada a emissão do Rádio Clube Português: «Tirando o Ricardo Araújo Pereira, não vejo assim uma figura pública que se tenha destacado neste referendo.». O outro pivot, de que não me recordo agora do nome, não percebeu a subtileza do director de informação e respondeu: «Bem, talvez José Sócrates». Piadas à parte, tendo a concordar com o pivot. Em 1998, nos referendos do aborto e da regionalização, o PS apareceu mais ou menos dividido e acabou por ser nas suas zonas de influência que a abstenção mais se fez sentir. Nos dois casos, o não ganhou. Desta vez, o PS apareceu unido e mobilizado em torno de uma posição equilibrada e tolerante. E o sim ganhou mesmo. Dizer, como dizem hoje Pedro Lomba (DN) ou Pacheco Pereira (Abrupto), que o resultado de ontem não significa uma vitória da esquerda nem permite leituras partidárias é negar todas as evidências. Nem vale a pena lembrar o facto de o aborto ser, historicamente, uma das questões em que as clivagens eleitorais mais coincidem com a divisão esquerda/direita (e assim continuará enquanto a nossa direita for como é). Basta olhar para a distribuição regional da abstenção (nos mapas que os jornais de hoje nos fornecem) para se perceber a impacto que tiveram, por um lado, a mobilização dos partidos de esquerda e, por outro, a desorientação da direita, que deixou a estratégia do «Não» inteiramente nas mãos dos movimentos de cidadãos. O estilo «soviético» de Sócrates, de que Inês Pedrosa se queixava na última edição do Sol, ontem deu bastante jeito.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

A fronteira imaginária do Mondego

Quando as consultas eleitorais em Portugal facilitam leituras dicotómicas, surge no mapa, recorrentemente, uma maioria a norte e outra a sul, com o Porto a alinhar com o "sul". É uma fronteira imaginária que cinde os eleitorados maioritários. A Norte do Mondego (às vezes do Tejo), mais peso do tradicionalismo, voto mais à direita no espectro político, melhor convivência com as desigualdades, leituras diferentes das soluções para os problemas do país.
Uma vez um colega disse-me que discutiu a questão com um historiador. Dizia o sociólogo que é assim desde o 25 de Abril e ter-lhe-á respondido o historiador que é assim desde o período da formação da nacionalidade.

Quem é que fez a campanha do não?

vários movimentos que afinal eram só um. a campanha do não foi demasiado boa para as decisões terem sido muito participada pelas bases. valia a pena perceber exactamente o que é que se passou na campanha do não. será que se vai perceber?

SIM! Já não era sem tempo!

Ganhou, como disseram a Ana Gomes e o Vital Moreira e como citou o Paulo Pedroso, quem está do lado da liberdade individual, seja ou não católico, quem prefere que uma decisão de interromper uma gravidez, que nunca foi nem será fácil de tomar, seja concretizada nas melhores condições possíveis.
Perderam, os que tentaram continuar a usar o direito penal para intimidar mulheres em situação de extrema fraqueza fazendo-as agir contra a sua consciência, e, dentro desses, os mesmos que agora querem criar observatórios.
Observatórios? De quê? Do aborto clandestino ou do aborto legal? Da eficiência da legislação que a AR irá aprovar? Vindo de quem vem, é preciso descaramento!

os jovens e o voto

a intercampus para a TVI e Rádio Clube mostra a intenção de voto por faixa etária. Os jovens esmagadoramente no sim, se a isso somarmos o voto urbano, percebe-se melhor o sarilho que Marques Mendes herdou. nunca nenhum partido foi para o governo sem crescer nos jovens e sem ganhar nos meios urbanos. é aí que primeiro o eleitorado muda e é aí que se começam a construir maiorias. com tanta insatisfação social perante as políticas de austeridade, começa a ser difícil de entender qual é o caminho possível para uma alternativa de governo no centro direita.

Obrigado Gatos, obrigado José

A Ana Gomes tem razão.
Quem foi decisivo na campanha? O Gato Fedorento (obrigada, meus! incluindo o Prof. Marcelo) e José Sócrates.

Um novo consenso social para combater o aborto clandestino

Os bons vencedores são magnânimes. Assim é o discurso de José Sócrates.
Propôe-se "consolidar um novo consenso social" capaz de eliminar o aborto clandestino. Nesse contexto anuncia expressamente a introdução de um período de reflexão da mulher que decide abortar, respeitando as "boas práticas" de outros países e tal como Vital Moreira propusera e Ana Catarina Mendes defendera no Prós e Contras.

uma vitória do pluralismo

o pedro lomba, sentado ao meu lado no Rádio Clube, escreve que é um equívoco ler o resultado como uma vitória da esquerda. é bem mais do que isso: é uma vitória de uma visão pluralista e liberal da sociedade, partilhada por muita gente de esquerda e de direita.

As suspensões de processo depois do sim

Até hoje havia partidários do não que defendiam que a melhor solução para combater o aborto clandestino era a suspensão dos processos às mulheres. O recurso ao aborto clandestino diminuirá drasticamente com a lei que há-de saír do referendo de hoje. Para os casos residuais em que persista, a proposta humanista poderia aplicar-se, agora a muito menos casos. Continuarão os seus defensores intransigentes de 0ntem a defender a sua aplicação amanhã aos casos que persistam?

o pós-materialismo

o resultado (e a campanha) do referendo revela que as questões pós-materialistas têm uma importância crescente em Portugal. mas não haveria maior erro do que pensar que deviam passar a ser temas prioritários da agenda política.

um partido dividido

marques mendes fala de um país dividido. está claramente a pensar nos problemas que vai enfrentar no PSD. não é uma questão entre mendistas e menezistas, é mesmo a de saber como é que o PSD se vai reposicionar estratégica e politicamente nos próximos tempos. Depois de o episódio Santana ter servido para que não se falasse sobre o posicionamento estratégico do PSD, com o modo como o partido geriu o dossier referendo torna-se muito difícil adiar a discussão.

O herdeiro dos problemas

O Pedro tem razão no que escreveu aqui sobre os problemas do PSD. Ouvindo Marques Mendes conformar-se com o sim enquanto elogia o não e quer "reconciliar os portugueses" só parece que anda à procura do espaço perdido pelo partido.
O passe de mágica que impediu a aprovação parlamentar de uma lei da IVG há oito anos deu óptimos resultados a Marcelo e a Portas, mas gerou agora os problemas que Marques Mendes vai herdar, a menos que quem os herde seja o seu sucessor no PSD.

Vitória dos católicos?

Francisco Louçã proclama a vitória dos católicos com a vitória do sim. Com que propriedade o líder do BE se mete por aí? Representa a Igreja Católica? É católico? Infelizmente está só a namorar a fé para efeitos partidários e faz mal. É muito pouco laico.

o conservadorismo social

sem margem para criticar o PS na política económica e financeira, a opção conservadora nos costumes do PSD coloca o partido em terrenos complicados. longe do eleitorado urbano e próximo do conservadorismo social que, o referendo mostra-o, está em recuo.

O exemplo do Bloco

em 1998, a consequência imediata da posição do PS foi a criação de um novo partido, o Bloco de Esquerda. depois, a história é conhecida, a impossibilidade de uma maioria absoluta. o que é que acontecerá agora perante a posição híbrida do PSD?

Um aperfeiçoamento da igualdade

Manuel Antunes diz na SIC que o 11 de Fevereiro não é o 25 de Abril das mulheres. Mas não tem razão. O sim à despenalização da IVG é um aperfeiçoamento da igualdade entre mulher e homem e uma decisão emancipatória que merece a comparação. Se não o merecesse, a mobilização para a impedir não tinha sido tão forte e persistente.
Não tomaria a iniciativa da comparação, mas feita, são duas datas com sinais do mesmo tipo e não o seu contrário.

um grande CDS?

com a posição híbrida que o PSD desta feita herdou do PS, meteu-se numa alhada estratégica. agora, o tema só pode ser reintroduzido sob a forma de "opção césar das neves". muito interessante para se transformar num partido de nichos eleitorais, um pouco como um grande CDS. não suficientemente grande para governar.

Políticas da vida

No âmbito das políticas da vida, como lhe chama Anthony Giddens, as linhas de fractura entre a direita e a esquerda mudam em relação às demarcações quanto às políticas económicas e sociais. Nestas, os sociais-democratas e os sociais-cristãos facilmente estão do mesmo lado, com os liberais do outro. Nas políticas da vida, frequentemente liberais e sociais-democratas fazem parte do mesmo lado, com os sociais-cristãos do outro. As próximas discussões de política da vida reforçarão a nitidez da demarcação e talvez desafiem mais o centro-direita e, em particular o PSD, do que qualquer outro partido.
Contudo, a aliança social-democrata e democrata-cristã que dura no PS desde 1995 também vai enfrentar novos desafios.

a reconfiguração das clivagens

durante a campanha tentou criar-se a ilusão de que o não era plural. não era. o que havia era várias intensidades de não, mas com um cimento comum, a religião. o pluralismo esteve do lado do sim, onde coexistiram muitos lados, também o religioso -o que ajudou a fazer a diferença. o país está a mudar.

O efeito aprendizagem

Os eleitores decidiram se votavam ou não e como no referendo sabendo o resultado de há oito anos. Parece claro que houve uma franja eleitoral significativa que quis mudar. De algum modo, houve um efeito aprendizagem, quer dos partidos (e em particular do PS) quer das pessoas (e em particular do que se inclinavam para o sim mas se tinham abstido).

os partidos contam

a diferença na participação deste referendo, por comparação com o anterior, revela que os partidos ainda contam. a esquerda dividida e o PS sem posição deu no que deu em 1998: derrota e abstenção superior. Agora, com a esquerda toda do mesmo lado, com muita gente de direita do lado do sim, a diferença está à vista.

depressa e sem ruído

é o que se pede no que toca à regulamentação da lei. não vale a pena inventar muito, nem protelar.

o tema fica encerrado

independentemente do resultado, dificilmente se voltará a votar o tema. se o sim ganhar, ao campo do não resta reintroduzir o tema sob a forma de repenalização. improvável, muito improvável. se o não ganhar, duas derrotas do sim, impossibilitam que se regresse ao tema nos próximos ciclos políticos.

a interpretação da derrota

quando começam os discursos de que o resultado conta pouco porque menos de 50% votaram, nada mais se está a fazer do que tentar fazer spinning da derrota eleitoral.

valem os que votaram

independentemente dos níveis de participação, politicamente o referendo é absolutamente vinculativo.

o que aborta é o referendo

com uma participação eleitoral em redor dos 40 e pouco por cento, o que aborta é a própria ideia de referendo. a partir de agora, será difícil que a experiência se volte a repetir nos mesmo moldes. referendos, só no modelo suiço em que coexistem várias perguntas ou, solução, mais interessante, como acontece em Itália, em que várias questões são referendadas em simultâneo com outros actos eleitorais. o discernimento dos eleitorados maduros ajudará a contrariar a tendência para a contaminação dos diversos temas.

dissonância cognitiva

recuperando uma expressão que se tornou popular na última semana. os dados da participação eleitoral, ainda que bem melhores do que em 1998, revelam que os portugueses sofrem de dissonância cognitiva: quando questionados em sondagem se achavam que a despenalização da IGV devia ser submetida a referendo, a maioria afirmava que sim. quando há referendo, a maioria opta por não ir votar.

notas do Rádio Clube

o canhoto está com problemas técnicos, pelo que transfiro para aqui a experiência de ir comentando o referendo desde o rádio clube português. ao meu lado, o Pedro Lomba e do outro lado, o Rodrigo Moita de Deus e o Rui Castro.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Outras paragens (dia de reflexão)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

l'avrei distrutto con la fantasia


A Itália tem uma boa linhagem de cantautores, mas boa parte deles combina o melhor com o pior. Francesco de Gregori é disso exemplo: tem coisas fantásticas, principalmente no registo dylanesco açucarado, como este Rimmel, de que usava e abusava nos anos setenta. Desde aí, tornou-se uma coisa só açucarada, sem interesse. Rimmel, como Alice, é uma música fantástica. No fio da navalha, como todas as músicas de amor convincentes. Um pouco mais e descambava.
“Santa voglia di vivere e dolce Venere di Rimmel.
Come quando fuori pioveva e tu mi domandavi
se per caso avevi ancora quella foto
in cui tu sorridevi e non guardavi.
Ed il vento passava sul tuo collo di pelliccia
e sulla tua persona e quando io,
senza capire, ho detto sì.
Hai detto "E' tutto quel che hai di me".
È tutto quel che ho di te.”

Carta furada

A campanha do não foi muito profissional (demasiadamente?). Notava-se em tudo: na coexistência de vários níveis de campanha – uma urbana, com convidados escolhidos a dedo para os programas televisivos e com outdoors eficazes e uma outra, para os meios mais rurais, do tipo grass-root; na coerência da mensagem; nos instrumentos de propaganda; na influência da agenda dos media (maxime o segundo round do prós e contras). Mas, precisamente por força do profissionalismo, não houve maior sintoma de desnorte do que a introdução apressada nos últimos dias da variante, “não que afinal quer dizer sim”. Não foi nem acaso, nem flexibilidade táctica, foi apenas o reconhecimento dos limites da estratégia antes definida. Acontece que inversões de campanha à última hora, raramente dão bons resultados. Pelo contrário.
publicado no sim no referendo.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Causas e escolhas

1.
À medida que se aproxima a data do referendo, é normal que se multipliquem (e se radicalizem) os discursos e que comece a ser difícil encontrar argumentos que não repitam outros já apresentados - algo a que podemos chamar o ponto de saturação do debate. Mas é importante não perder de vista o essencial.

Ninguém questiona que temos um problema. A actual lei tem mais de vinte anos. O primeiro referendo foi há quase dez. O que mudou na situação do aborto clandestino em Portugal? Não sabemos ao certo, mas sabemos uma coisa: para melhor, nada mudou.

2.
Os movimentos e decisores políticos que se opuseram à despenalização não foram capazes de resolver o drama do aborto clandestino e os graves problemas de saúde pública a ele associados; nem de o substituír por aquilo que consideravam "alternativas" (aconselhamento, apoio às mulheres).
Mas não foram capazes por uma razão muito simples: porque a escolha entre despenalizar a interrupção da gravidez e a aposta em políticas de planeamento, aconselhamento e apoio é uma falsa alternativa. Pelo contrário: a clandestinidade da opção de interromper a gravidez desencoraja o recurso a aconselhamento por quem precisa de ajuda. Ao contrário do que teimam os "defensores da vida", a proibição não diminui o número de IVG's realizadas; muito provavelmente só despenalizar a IVG vai fazer com que diminua o seu número.

3.
E não nos enganemos. Mesmo essa diminuição, a existir, será parcial. O aborto nunca vai deixar de existir, dentro ou fora da lei. Podemos desejar a sua erradicação, mas a realidade é outra: a mulher que quiser recorrer a ele, provavelmente vai encontrar meios do fazer. O que está em causa, quer gostemos ou não, são outras coisas.
A questão é saber se o faz com acompanhamento, com possibilidade de ser realmente aconselhada, em condições de saúde aceitáveis, e caso cumpra os requisitos legalmente definidos para ter essa possibilidade.
A questão é se vamos finalmente lidar com as mulheres que querem pôr termo à gravidez com recurso a médicos, psicólogos e outros profissionais, com transparência, com informação. Ou se vamos continuar a deixar tudo como está: a humilhar as mulheres, a condená-las à clandestinidade (ou pior, ao julgamento), a deixar que prolifere o aborto selvagem, a deixar que seja um caso de polícia e de tribunais.
A questão é se queremos agir para que diminua fortemente o negócio escuro dos abortos clandestinos, sem controle, sem saúde, sem informação às pessoas (e impedindo que se conheçam os números reais sobre a situação em Portugal). (E, não o esqueçamos, ao acabar com o grosso da procura do verdadeiro mercado que existe em torno do aborto ilegal , diminuirão as possibilidades de interromper a gravidez fora das condições previstas na lei)
A questão é se queremos avançar para uma lei moderada, mais próxima do que se faz nos países mais desenvolvidos e civilizados do mundo, ou continuar tristemente alinhados com o que de mais atrasado e atávico há na periferia da Europa.

4.
Por muito que custe a algumas pessoas, proibir na lei e penalizar as mulheres não produz melhoria alguma, nem sequer na "defesa da vida". Pelo contrário, só fomenta o aborto completamente selvagem e sem controle algum, só cria problemas e perversidades que não são ultrapassáveis no actual quadro legal.

Por isso, a escolha que há a fazer é, no fundo, só uma. É entre deixar tudo como está, sem resolver problema algum enquanto assobiamos para o lado a fingir que nada se passa; ou avançar para uma nova lei, mais equilibrada, mais adequada. Uma nova lei que crie condições para diminuir drasticamente o drama do aborto clandestino e proporcione às pessoas melhores condições de aconselhamento e de opção.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

É no dia 11

Marcam uma conferência de imprensa a uma semana do referendo e chegam com um ar salvador de quem vem tranquilizar todas as consciências. Nove anos depois do último referendo; vinte e três anos depois da actual lei.

Dizem que, afinal, votar sim é outra coisa qualquer e que quem é pelo “sim” à despenalização deve votar “Não” à despenalização. Dizem que a mulher que abortar há-de ser uma criminosa de um crime sem pena, mas também sem perdão. Anunciam que esta era a resposta que o país esperava há 9 anos, e que esperava agora, sem saber. Dizem que resolveram o referendo e que resolvem o problema como num truque de magia, com a cartinha que hão-de enviar à Assembleia da República para acabar com a penalização das mulheres. Mas, afinal, condenam-nas ao aborto clandestino e a uma espécie de perdão hipócrita.

Chegam, e só trazem o maior desrespeito à Democracia. Dizem que afinal o voto de todos já não é necessário, já não conta. O que conta é a tal cartinha e votar “Não”, pasme-se, para despenalizar. Chegam acompanhados do segundo partido mais representado no parlamento – o tal que supostamente não tem posição oficial; o tal que esteve na origem do primeiro referendo, e da formulação da pergunta.

De tudo isto, daquela conferência de imprensa, fica um partido político a dizer a todos que os votos afinal não contam; ou que contam ao contrário. Que a pergunta aprovada (criada e votada por eles próprios) afinal não vale, que o Referendo que tanto quiseram não serve. A mensagem, entendamo-nos, é esta: tudo deve ficar na mesma (retirando só aquilo que dizem que já não acontece – a condenação no tribunal). Entretanto, business as usual. Com mulheres a morrer, com aborto de vão de escada, com feridas que não saram, com investigações, com devassa da vida das pessoas, sem nenhum tipo de cuidados ou de informação. No fim, porque são muito bonzinhos, ninguém é julgado.

É no dia 11 que se resolve a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. É no dia 11 que se dá o passo para acabar com o aborto clandestino. É no dia 11, e é votando SIM.

Para acabar de vez com o assunto

Não sei se em alguma sondagem foi perguntado aos portugueses se queriam continuar a discutir a despenalização do aborto. Caso tivesse sido, arrisco dizer que uma esmagadora maioria tenderia a responder não. Tirando uma mão-cheia de activistas militantes de ambos os lados da barricada, a maior parte dos portugueses está cansada da discussão. É natural. Como qualquer pessoa que já tenha passado, directa ou indirectamente, pela situação sabe, o aborto toca dimensões complexas das nossas vidas e envolve decisões dramáticas e vividas com sofrimento. Que esse tema seja alvo de sistemática discussão pública só pode causar repulsa e servir para relembrar o sofrimento.

É também isso que está em causa no referendo de próximo Domingo, fazer com que o aborto deixe de ser tema de discussão política e seja devolvido ao seu lugar: a esfera privada e da responsabilidade individual. Entre outras garantias que oferece, a vitória do sim encerra o assunto e ultrapassa a situação actual.
continue a ler aqui.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Deve ter lógica

Depois de o Parlamento Europeu ter considerado que havia coisas a investigar sobre Portugal e os alegados voos da CIA, o Ministério Público considerou hoje que há fundamentos para abrir um inquérito-crime sobre tais voos.
A Assembleia da República nada quis averiguar e a sua função de controlo do governo sai ridicularizada se pode haver ílicitos onde nada há que investigar no plano político. Seria melhor se tudo fosse um erro de gestão do dossier e, no fim de tudo, se descubrisse que afinal nada havia para apurar. Mas surpreende que, sobre tudo isto, um porta-voz do PS, José Lello, diga sobre o inquérito do MP que "deseja que as investigações sejam profundas". Tendo em conta o que o PS tem dito e feito no Parlamento, deve ter lógica...

Das duas, uma

Ou o Prós e Contras desta noite já estava previsto na semana passada e é lamentável que não tenha sido dito logo que ia haver dois debates, ou foi decidido à 25ª hora, sabe-se lá a pedido de quem e vai procurar dar uma segunda oportunidade ao campo do não depois deste ter sido arrasado argumentativamente no debate anterior e quando tenta manobras desesperadas de prestidigitação.
Isto é, ou Fátima Campos Ferreira arbitrou mal o jogo da semana passada escondendo a existência de uma segunda parte ou há por aí quem tente e consiga prolongamentos a ver se o resultado muda.
Se tudo decorrer de acordo com a primeira hipótese logo à noite teremos um segundo debate. Se decorrer de acordo com a segunda, assistiremos a um exercício em que se tentará credibilizar a mirabolante tese de que a melhor maneira de despenalizar o aborto é votar contra a sua despenalização e se baterá insistentemente na tecla de que três deputadas independentes do PS representam, para este efeito, tanto como os restantes 118 deputados do Grupo Parlamentar do PS.
Em todo o caso, seja quem for o árbitro que marcou este prolongamento não anunciado, Fátima Campos Ferreira terá o teste da sua vida de jornalista. Porque, seja quem for que o tenha desejado, só a ela cabe conduzir o programa.
Por tudo isto, logo à noite não é Prós e Contras, é mais Das Duas, Uma.
Logo se vê.

O melhor argumento a favor do "SIM"

O melhor argumento que já li a favor do "Sim" no referendo sobre a despenalização da IVG usou-o Frei Bento Domingues no seu artigo semanal do Público.
É este: quem acredita na capacidade de discernimento das mulheres e nas virtudes das decisões bem informadas, não precisa da ameaça da pena de prisão para evitar o recurso displicente ao aborto.
Está aqui tudo o que é essencial: simplicidade e clareza a lidar com um problema complexo, em que as liberdades se cruzam com os deveres.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

A Desmancha-Prazeres

Howard Dean, Ned Lamont e Ségolène Royal ganharam os respectivos partidos graças à blogosfera. Curiosamente, chegado o momento de consultar o conjunto do eleitorado, através dos meios tradicionais, as coisas não lhes correram/correm tão bem. Independentemente disso, a tendência para a utilização política da Internet veio para ficar. A seguir às eleições para o Congresso, o NYT dava conta da quantidade de bloggers recrutados para as campanhas democratas e republicanas. Por cá, o Presidente da República, o primeiro-ministro, o coordenador do Bloco, o Prof. Marcelo e a jovem Elisa também já comunicaram directamente pela net. Esta semana, o Diário de Notícias dava conta do fenómeno. E o próprio Paulo Gorjão interrogava-se sobre «quando serão as primeiras eleições em que teremos blogonautas a acompanhar in loco as comitivas partidárias nas clássicas voltas a Portugal?» De facto, visto da blogosfera, isto parece tudo muito bem. Mas na segunda-feira, o artigo de Jackie Ashley, no Guardian, trouxe-nos um merecido banho de realidade:

«Aren't citizens "flexing their muscles" as [Gordon] Brown says? Well, yes and no. Some are. But the first thing to remember is that a large slice of the population is completely missing from this brave new internet world. (…)The politically enfranchised, active internet community is very small indeed. If Guardian sites are any guide, bloggers tend to be disproportionately young, male, angry and rightwing [já devíamos ter reparado]. Busy parents, people working long hours and pensioners are rather less likely to be flexing their muscles by blogging or searching political sites [daí o Canhoto não ter mais posts].
Again, you could protest: isn't that just like pre-internet politics? Labour party meetings were always dominated by people who happened to have the time to get to them and - because they had to be motivated too - by people who were more committed and angrier than the average voter. This is exactly the point. In the old days, nobody really thought Labour party meetings, or Tory constituency associations, were representative of the country at large. A party which wanted to win power had to search out and try to convert the others. The danger is that we forget that old lesson, and naively think of the internet and the bloggers as the only voice of the people. In practical terms, this could privilege the better-off and younger against the interests of working-class and older Britain. (…) There are other dangers too. We should be nervous when politicians start boasting, as they are, that the net allows them to bypass irritatingly persistent, difficult interviewers such as John Humphrys and Jeremy Paxman. Obviously, they need to be scrutinised and cross-questioned by well-briefed interrogators, secure enough in their jobs to push the point. Democracy demands it. Putting up your own website, conducting online question-and-answer sessions, is a doddle by comparison. They allow the politician to control the terms of the exchange and never face a public challenge on questions they don't want to answer.
This is not a call to ignore the net or stop using the excellent research tools online. But we need to avoid easy hype. Most people are not cyber-citizens, they are living real, complicated lives in the real world. And that's where politicians should be too, rather than trying to surf off down the superhighway.»

Outros votos pelo Sim

Do Zé Carneiro, um contributo que, nas suas próprias palavras, constitui um apoio ao “voto pelo Sim fundamentado de forma heterodoxa”.

O voto Não conciliável

1. Sinto a felicidade de ter nascido no seio de uma família católica, e de ter vivido a infância e os primeiros anos da adolescência em comunhão com a igreja paroquial a que pertencíamos (Santo Adrião, em Moçâmedes).

2. Se a Fé confrontada pela Razão entretanto esmoreceu, já os valores morais inculcados pela educação católica persistiram e, creio, hão-de guiar-me até ao fim da vida.

3. Este background determina, radicalmente, a minha posição sobre o aborto: sou contra, em todas e quaisquer circunstâncias. Inexoravelmente.

4. Mas é igualmente decisivo para o sentido do meu voto no próximo referendo: votarei Sim, ou seja, pela despenalização do abordo. E explico.

5. O princípio da inviolabilidade da vida humana é sagrado para os católicos. Mas a doutrina cristã não se esgota nos dez mandamentos. E mais, os valores que a integram não são codificáveis: procederam da palavra de Jesus Cristo e da sua existência profética (carismática, diria Weber).

6. De entre esses valores, salientam-se o da compaixão e o da humildade. Nasce do primeiro a solidariedade para com o sofrimento da mulher, ou adolescente, que tendo incorrido numa gravidez não desejada, se não sente capaz, ou capacitada, para a levar até ao fim, e aborta. Decorre do segundo o dever de aceitar pontos de vista diferentes sobre o significado do feto e do momento a partir do qual representa um ser humano.

7. Concluindo: não vejo, perante os elementos contraditórios do sistema de valores, ou da sua aplicação concreta, da nossa matriz civilizacional, como seja possível deduzir uma solução objectiva – isto é, independente das convicções puramente pessoais de cada um – para a questão do aborto. E sendo assim, quem poderá arrogar-se no direito de qualificar como criminosa a mulher que o cometa?

8. Há, no entanto, uma posição no debate deste problema que julgo susceptível de ser analisada, e refutada, em termos objectivos. Refiro-me à compaginação de algo que é irreconciliável: defender o Não e simultaneamente aceitar como boa a lei actual, que pune o aborto, mas excepciona três casos. E explico-me, novamente.

9. Defendendo-se o princípio da inviolabilidade da vida humana desde a sua formação inicial, não se alcança por que deverá merecer menor protecção o feto que nasceu de uma violação relativamente àquele que foi gerado numa relação ocasional, ou no seio da família tradicional. E, identicamente, como aceitar que o feto portador de deficiência não tenha igual direito à vida? Para viabilizar este último argumento teríamos de admitir o que o amor dos pais pelo filho deficiente, e o dever de cuidarem dele, não é igual ao que os move na relação com os filhos saudáveis.

10. Esta incoerência – votar Não e defender a Lei actual com as suas três excepções – explica a fragilidade os defensores do Não em todos os debates públicos a que temos assistido. Por vezes, confrangedora.

Zé Carneiro

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Conveniências

Segundo a página do Expresso na net, «Manuel Antunes, director do serviço de cirurgia cardiotorácica dos Hospitais da Universidade de Coimbra, questionou hoje a participação de José Sócrates na campanha para o referendo sobre o aborto, considerando “despropositado” que este “utilize o poder que obviamente tem” como primeiro-ministro para favorecer o “não”».
Estando em causa no referendo uma questão de política (e não de consciência), todos os cidadãos têm o direito de se pronunciar sobre a escolha em causa. E os cidadãos que ocupam lugares políticos têm não só o direito como o dever de o fazerem. Não percebo por isso a crítica de Manuel Antunes. Será que o que ele quer dizer é que quem tem capacidade para influenciar a decisão de outros (isto é, quem tem poder) não deve usar essa capacidade? A ser assim (o que seria estúpido), o próprio deveria ser mais discreto, pois é óbvio que o facto de se apresentar como médico com funções de direcção visa obter autoridade extra para intervir no debate sobre o referendo. A autoridade de quem ocupa um lugar de poder pericial.
Por que razão o uso da influência do estatuto de médico é legítimo e o uso da influência do estatuto de primeiro-ministro não o é?
Porque convém…

E o rigor? Prejudicaria o sindicalismo do ensino superior?

Que os professores do ensino superior deveriam ter protecção social no desemprego, acesso a mais e melhor formação profissional, não me oferece qualquer dúvida. Que seria inaceitável tornar possível despedir professores no ensino superior público sem que seja garantida uma protecção social decente no desemprego também me parece óbvio.
Que o mundo de diferenças que separa o ensino superior público do ensino superior privado mostra, há muitos anos, que, em média, é no segundo e não no primeiro que se encontram as piores condições de trabalho e a maior desprotecção social, é outro facto que julgo dificilmente questionável.
E se há mais exemplos da segmentação dos mercados de trabalho, tal não significa que o ensino superior não seja um deles nem torna aceitável a falta de rigor e a ligeireza com que um dirigente sindical do ensino superior trata da questão – séria –num artigo de opinião publicado pelo Público de hoje.
Por todas estas razões, é profundamente lamentável que um dirigente sindical com formação superior em sociologia use uma pergunta, que ele próprio classifica de retórica, feita por um ministro num discurso público para afirmar que nada distingue as estratégias de flexigurança e de desregulamentação dos mercados de trabalho. Basta ler o discurso do Ministro para se perceber até que ponto pode descer o nível da argumentação de quem o citou abusivamente. Mas também também existe literatura científica sobre a matéria, alguma dela acessível na net. E há sempre a possibilidade de ler as publicações da OCDE e da UE que tratam da questão e que, mesmo que delas se discorde, tratam a questão com outro rigor.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

A despenalização e o volume de abortos

O "não" entrou no período oficial de campanha do referendo tentando convencer os portugueses que a despenalização aumenta a probabilidade de ocorrência de abortos. Mas não tem um único dado no qual basear essa afirmação.
O truque de invocar a subida do número de abortos legais em Espanha (quantos de espanholas do lado de cá da fronteira?) não passa de uma manipulação grosseira, pois as estatísticas usadas não comparam o aborto antes e depois da despenalização. Se tiver havido um aumento do número de abortos legais em Espanha nos últimos anos, que diz que não haveria, nas mesmas condiçõe sociais, o mesmo ou maior aumento se fossem clandestinos?
De facto, se o efeito da despenalização no volume total de abortos é positivo, neutro ou negativo é uma questão de fé, ninguém pode provar que será este ou aquele, de um lado nem do outro.
Mas há uma coisa de que podemos ter a certeza. Os que houver serão feitos por mulheres muito mais libertas das malhas da indústria mafiosa do aborto clandestino, tenderão a ocorrer mais cedo na gravidez e serão mais seguros, diminuindo a intensidade e a extensão das sequelas físicas e psicológicas das mulheres. De um ponto de vista humanista são mudanças que alimentam boas razões para votar sim.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Não se fala mais nisto

Sei que é arriscado, mas não me parece que esteja errado se – parafraseando o Prof. Marcelo – tentar interpretar o “estado de alma” dos portugueses quanto ao aborto. O mais provável é que não queiram mais ouvir falar do assunto e, essencialmente, não queiram que continue a ser um tema de discussão política. Eu, pelo menos, uma das razões porque voto sim é precisamente essa: a vitória do sim significa que o aborto passará a ser uma questão da esfera privada e da responsabilidade individual de cada um de nós. Entre outras garantias que oferece, a vitória do sim encerra o assunto. Restam, portanto, cerca de dez dias para assegurar que não precisamos de voltar a discutir o aborto.
(publicado também no sim no referendo)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

o humor com humor se paga

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Crueldade e critérios

1. Foi notícia recente a inclusão de questões sobre violência doméstica num questionário do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) aplicado a estudantes do 7.º ao 12.º anos, em escolas públicas de todo o país. Como se sabe, eram colocadas aos jovens perguntas como “O teu pai, ou substituto, bate (dá pontapés, murros, puxa cabelos, etc.) à tua mãe?” As hipóteses de resposta eram: “sempre, quase sempre, muitas vezes, às vezes, poucas vezes, nunca”. Perante a polémica, o presidente do IDT declarou que “embora os temas que suscitaram a polémica em torno deste estudo sejam relevantes para a análise do fenómeno, o IDT reconhece que a sua formulação não foi a adequada, tendo em conta o leque de idades dos destinatários e o valor da intimidade da família. O IDT lamenta a perturbação causada e assume o compromisso de não tratar a informação relacionada com este grupo de questões. O IDT assegurou-se também do integral cumprimento das regras de segredo estatístico, dado que o questionário era anónimo e impossível de personalizar.”

2. O problema, porém, tem pouco a ver com a relevância dos temas ou com o tratamento dos dados. O que está em causa é a brutalidade das perguntas, que não deviam, em caso algum, ter sido colocadas. O que está em causa é a total insensibilidade de quem acha que se pode perguntar tudo a toda a gente, não percebendo que, num trabalho de inquérito, há limites deontológicos que são muito claros, um dos quais é a interdição de causar mal a quem se interroga. Ora, a pergunta acima citada, bem como outras do mesmo inquérito, são de uma crueldade imperdoável. Lembrei-me, quando as li, de reportagem antiga da RTP1 em que se perguntava a uma criança timorense, com uns seis anos de idade, se tinha notícias do pai, ausente na guerrilha, e, em particular: “sabes se ele está vivo?”! No trabalho técnico-científico, como nos média, nem todas as perguntas são legítimas, só surpreendendo que isso não seja óbvio.

3. Lendo a notícia no Expresso, lembrei-me também de uma sessão de cinema a que tinha ido com o meu filho mais novo há já muitos anos. O filme (não recordo o título) era “tipo indiana jones”, com algumas cenas de violência que me pareceram excessivas dada a classificação “para todos”. Na fila da frente, um casal mais idoso assistia a tudo calmamente, até que, no final, quando herói e heroína, apaixonados claro, se beijam, vestidos, caindo para a cama abraçados (mudando aqui a cena), o velhote resmunga, indignado: “não há direito, num filme para crianças”. Critérios, pensei, critérios que me vieram à memória quando, depois de ler a notícia do Expresso, regressei ao título: “Alunos de 12 anos inquiridos sobre a vida sexual dos pais”. É verdade que o malfadado inquérito incluía, ainda, a inaceitável pergunta “o teu pai, ou substituto, obriga a fazer vida sexual com ele contra a vontade dela?” Só me custa perceber, uma vez mais, a lógica da hierarquização do disparate na reacção ao mesmo.