sexta-feira, 27 de abril de 2007

Assuntos do Marr


Os Modest Mouse, a maior parte das vezes, são prejudicados pela voz meio desagradável. Mas, agora, com Johnny Marr no line-up, estão desculpados. Eu sei que é preciso demonstrar uma grande condescendência para Marr. Depois de com Morrissey ter feito a melhor música dos anos oitenta e de ter mostrado que não vinha mal ao mundo por se saber tocar guitarra em termos, desde aí, para além de fugazes colaborações com os Talking Heads e os The The, tem sido o descalabro. Até agora. Aqui, em Dashboard, primeiro single do novo dos Modest Mouse, deparamo-nos com o melhor riff de guitarra que Marr produziu desde a abertura de (Nothing) but flowers. Tentem abstrair-se dos arranjos e foquem-se na guitarra. Vale a pena. Marr é um tipo muito bom, que tem feito muita merda, é verdade. Mas um tipo muito bom. No teledisco, podemos ver Ishmael, Starbuck, Stubb e o Capitão Ahab, com uma guitarra no lugar da perna. Como sempre, a discussão sobre a pescaria é só um pretexto, no caso para avaliar do efeito dos Smiths no mundo em geral e nos Modest Mouse em particular.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

O dia perfeito


Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara

Zeca Afonso, Canto Moço

terça-feira, 24 de abril de 2007

Haja decência!

  1. Pode pensar-se – e eu sou dos que, para além de o pensarem, o disse quando foi da sua nomeação para a Iberdrola – que há aspectos da transição de Joaquim Pina Moura do mundo da política para o mundo empresarial de que se pode e deve discordar, em nome, principalmente de duas ordens de razões: primeiro, para reduzir as proximidades espúrias entre os decisores políticos e o mundo dos negócios; segundo, porque “o pudor é o tributo que o vício paga à virtude” (Wilde).
  2. Mas daí aos coros de protestos que por andam vai um mundo de distância - onde o cinismo se cruza com um tão despudorada defesa de interesses políticos e mediáticos que só enganam quem se quiser deixar enganar ou preferir esperar que os tomemos por ingénuos angelicais – em que não alinho.
  3. Num país em que o “Compromisso Portugal” e similares se dedicam à política pura e dura, com agendas e calendários moldados à medida dos ciclos eleitorais; num país em que a circulação entre os mundos da política e da representação de interesses organizados e empresariais conhece múltiplos e relevantes exemplos; num país em que o PSD escolheu J.M. Aznar como único convidado internacional de relevo a um seu congresso em vésperas eleições, os argumentos chauvinistas e anti-espanhóis não podem ser lidos senão como convite ao sorriso.
  4. A menos que … o problema esteja em “El Pais” ser um grande jornal de referência internacional ou que seja uma maçada que possa vir a abrir-se uma brecha – e, pior ainda, se for de qualidade e de esquerda – num sector tão concentrado e politicamente tão orientado como é o da comunicação social portuguesa.

domingo, 22 de abril de 2007

Um país melhor que outros

Participação histórica pode superar os 85%.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Bloco de ¿ Esquerda ?

O Programa Novas Oportunidades tem por objectivo formar e credenciar adultos que, em jovens, não puderam prosseguir estudos. Criticar a aplicação do programa ou o modo como, pontualmente, foi promovido, é legítimo e pode ser útil. Desvalorizar os seus objectivos continua a ser legítimo, mas é elitista. Fazê-lo com um cartaz em que se insinua a inutilidade dos estudos, quando todos os dados mostram exactamente o contrário, só pode ter origem em ignorância irresponsável ou em manipulação sectária.
Irresponsabilidade ou sectarismo, o certo é que o resultado foi um cartaz reaça.

Se o Brian Wilson tivesse tomado as drogas certas


A combinação de bad trips com o Sargent Pepper’s não deixou que Brian Wilson chegasse a fazer o que prometeu e que, verdade seja dita, nunca concretizou para além de momentos esporádicos e fragmentos. Quer Pet Sounds, quer Smile são excelentes discos, mas sobrevalorizados e cujo reconhecimento tem mais a ver com um potencial do qual se desconfia do que com o que de facto se ouve. Os Animal Collective nesta versão de Purple Bottle do álbum Feels, com citações stevie wonderianas pelo meio, mostram onde poderia estar hoje Brian Wilson. Entre outras singularidades, Panda Bear (“o homem do Bairro Alto” de que se fala) mostra ao mundo qual é o uso adequado a dar à bateria (com Moe Tucker na mente). Saliente-se ainda o entusiasmo com que o público os recebe, com a notável excepção de uma rapariga loura.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Compensações da formação escolar (credenciada)

Mais oportunidades de emprego


Taxas médias de actividade na OCDE por nível de escolaridade, 2004 (população 25-64 anos)
(média = 72%)
Fonte:
OCDE


Menos risco de desemprego


Taxas médias de desemprego na OCDE por nível de escolaridade, 2004 (população activa 25-64 anos)
(média = 6,2%)
Fonte:
OCDE


Rendimento médio mais elevado


Rendimentos médios relativos por nível de escolaridade, em Portugal, 1999 (população empregada 25-64 anos)
(secundário = 100)
Fonte:
OCDE

De fora vê-se melhor?

O artigo que Joseph Stiglitz publicou no DE merece leitura.
Cito:
[…] Compreende-se que haja um certo desconforto face ao futuro da União dadas as incertezas que pairam sobre as tentativas de reavivar o Tratado Constitucional, porém, é bom lembrar que o projecto europeu se tem revelado um êxito, não só para a Europa como para todo o mundo. Os europeus que não desesperem quando se compara o crescimento do PIB da Europa com o de países como os EUA nem perante os desafios que a esperam durante o aperfeiçoamento da sua união económica, que passa por reduzir o desemprego e por impulsionar o dinamismo económico. E porquê? Porque embora o PIB per capita nos EUA tenha vindo a aumentar, a maioria dos americanos vive hoje pior do que vivia há apenas cinco anos. Uma economia que ano após ano depaupera os seus cidadãos não é, de todo, uma economia de sucesso.
[…] O êxito da Europa deve-se, em parte, ao facto de encarar os direitos individuais como universais e inalienáveis, e de ter criado instituições específicas para a sua protecção. Razão porque a Europa se pode pronunciar com credibilidade sobre a questão dos Direitos do Homem.
O mote subjacente ao projecto europeu – “viver em harmonia” – deve igualmente aplicar-se ao ambiente, o nosso mais escasso recurso. E também aqui a Europa assumiu a liderança, em particular no que concerne ao aquecimento global, mostrando que é possível ambicionar ao bem comum. […]


Que responderiam os atlantistas euro-cépticos?

Invenções mais que perfeitas

Conta-se que, nos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, Maria Lenk estava a nadar os 200 metros bruços e ali "inventou" o estilo de mariposa. Uma pequena alteração no ângulo, uma pequena correcção do gesto, o mais perfeito movimento dos corpos sobre a água. Maria Lenk morreu segunda-feira, aos 92 anos, e morreu a nadar.
Deixou-(me)nos isto:

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Quanto pior melhor?

Não consigo entender as razões do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, o bispo Jorge Ortiga, quando contesta a “colaboração activa do Estado” com o aborto. Que conteste a chamada lei do aborto é compreensível (e totalmente legítimo), cabendo a cada um avaliar essa contestação. Agora, que entenda a “colaboração activa do Estado”, leia-se, a gratuitidade do aborto em clínica pública, como agravante dos malefícios da lei é que deve obedecer a razões que me escapam: por que razão seria melhor uma lei que protegesse dos problemas associados à prática do aborto apenas quem tivesse dinheiro para pagar uma clínica?
A não ser que se entenda ser preferível a desigualdade em relação ao risco do aborto do que a legitimação estatal da prática regulada do mesmo. Esta eventual preferência por uma política de “quanto pior melhor” não parece, porém, muito humanista…

Mais formação, melhor emprego

Segundo José Vítor Malheiros (JVM) (Público de 17/04/07), “a formação escolar pouco ou nada garante em termos de emprego”. Feita a pretexto do mau gosto de quatro cartazes desta fase da campanha promocional do programa Novas Oportunidades, a afirmação é factualmente errada (e, por isso, irresponsável, o que surpreende no caso de JVM).
Como já referi noutros textos no Canhoto (aqui e aqui), a propósito dos trabalhos de Natália Alves, estudar compensa, e muito, sobretudo quando se consegue concluir um curso superior. Convém pois contrariar algumas ideias feitas e reafirmar o que a boa investigação demonstra:

  1. resiste-se melhor ao desemprego com uma licenciatura do que sem ela;
  2. na maioria dos casos há adequação entre o que se estuda e o que se faz;
  3. estatisticamente, quanto mais elevada for a classificação escolar do aluno maior será a qualidade da sua inserção inicial no mercado de trabalho.

Porque mais estudos significam mais oportunidades de mobilidade social, um governo de esquerda deve garantir, a todos, mais oportunidades de estudo e de credenciação desses estudos. O discurso que agora desvaloriza o valor da credenciação em nome do valor do conhecimento desinteressado é um discurso elitista.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Trocar de povo

José Manuel Fernandes (JMF) descobriu que a política é impotente: “mesmo se todas as políticas fossem as correctas, nenhum iluminado, nenhum ‘novo Marquês’, mudaria o país por decreto. O problema reside, como sempre, nos portugueses e na sua cultura de dependência e mão estendida, de fé no desenrasca e de preguiça face ao trabalho árduo e rigoroso”.

1. Claro que esta afirmação retórica impossível de provar (ou de contraditar), que nada explica, tem um problema: atinge JMF. Pois se este é português e “os portugueses”, sem mais, são o que deles JMF diz, por que seria JMF diferente? Resposta possível: porque não são bem todos os portugueses, mas a maioria (medida como?). Aceitemos a resposta e façamos nova pergunta: o quer explica a existência de “portugueses” problema e “portugueses” não problema (tipo JMF). Nova resposta possível: porque há portugueses que foram educados de um modo e portugueses que foram educados de outro modo (à JMF). E nova pergunta: o que explica a existência de diferentes modos de educação com diferentes resultados? … E por aí adiante, acabando qualquer um por concluir que há muitas variáveis em jogo que permitem explicar por que razão há tantas culturas diferentes em Portugal como noutros países (facto aliás só invisível aos olhos de quem tem da sociedade uma visão totalmente holista)… e acabando também por concluir que a explicação inicial não era explicação de todo.

2. Não propondo JMF uma explicação mas uma culpabilização retórica (tudo funciona mal porque os portugueses são do piorio), apetece responder também no plano retórico e lembrar Brecht quando este dizia que se não é possível trocar o governo, que ao menos se troque de povo. Deve ser este o sonho de JMF: encontrar um povo que o mereça, que este é demasiado pedinte e preguiçoso! (“Povo de pedintes e preguiçosos”. Olha, olha, onde já li eu este tipo de afirmações?)

3. Claro que JMF poderá acusar-me de alguma batota, pois não cito a parte final do seu texto. Dado o povo que temos, argumenta JMF, “o Governo só pode actuar pelo exemplo. Ora no que a tal toca…”. Ou seja, JMF propõe-nos que ressuscitemos o pior do eanismo e voltemos a definir a liderança política como liderança moral e a acção política como acção moral exemplar. Confesso que depois do holismo dos “portugueses”, de circunstância, e do elitismo do “povo de pedintes e preguiçosos”, de convicção, só faltava mesmo o populismo moral para encher o caldeirão da demagogia.

Um governo de doutorados

Se por acaso um politólogo marciano aterrasse em Portugal nas últimas semanas, ficaria surpreendido com a polémica em torno do percurso académico do primeiro-ministro. Habituado a comparar sistemas de Governo, olharia com espanto para o interesse dos ‘media’ no tema. Em bom rigor, se dedicasse três minutos de atenção ao assunto, não deixaria de ficar atónito com o paradoxo de um país que combina níveis de qualificação muito baixos com a monomania do tratamento deferencial assente em títulos académicos. Já se resolvesse analisar as qualificações dos membros do Governo, poderia pensar que tinha encontrado em terras lusas a concretização da República dos Reis-Filósofos, com que Platão havia “sonhado”.
continue a ler aqui.

Tell me lies, tell me sweet little lies

Paul Krugman, muito a propósito:

Four years into a war fought to eliminate a nonexistent threat, we all have renewed appreciation for the power of the Big Lie: people tend to believe false official claims about big issues, because they can’t picture their leaders being dishonest about such things.But there’s another political lesson I don’t think has sunk in: the power of the Little Lie — the small accusation invented out of thin air, followed by another, and another, and another. Little Lies aren’t meant to have staying power. Instead, they create a sort of background hum, a sense that the person facing all these accusations must have done something wrong. Before 9/11, the right-wing noise machine mainly relied on little lies. And now it has returned to its roots.The Clinton years were a parade of fake scandals: Whitewater, Troopergate, Travelgate, Filegate, Christmas-card-gate. At the end, there were false claims that Clinton staff members trashed the White House on their way out.Each pseudoscandal got headlines, air time and finger-wagging from the talking heads. The eventual discovery in each case that there was no there there, if reported at all, received far less attention. The effect was to make an administration that was, in fact, pretty honest and well run — especially compared with its successor — seem mired in scandal.
(…)
This is the context in which you need to see the wild swings Republicans have been taking at Nancy Pelosi.First, there were claims that the speaker of the House had demanded a lavish plane for her trips back to California. One Republican leader denounced her “arrogance of extravagance” — then, when it became clear that the whole story was bogus, admitted that he had never had any evidence. Now there’s Ms. Pelosi’s fact-finding trip to Syria, which Dick Cheney denounced as “bad behavior” — unlike the visit to Syria by three Republican congressmen a few days earlier, or Newt Gingrich’s trip to China when he was speaker.Ms. Pelosi has responded coolly, dismissing the administration’s reaction as a “tantrum.” But it’s more than that: the hysterical reaction to her trip is part of a political strategy, aided and abetted by news organizations that give little lies their time in the sun.
(…)
The Republican's reversion to the Little Lie technique is a symptom of political weakness, of a party reduced to trivial smears because it has nothing else to offer. But the technique will remain effective — and the U.S. political scene will remain ugly — as long as many people in the news media keep playing along.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Salazar votava em Salazar

Numa das últimas crónicas do Expresso, António Pinto Leite, com aquela candura habitual, escrevia o seguinte a propósito do concurso Grandes Portugueses: «A educação recebida no tempo de Salazar exaltava os feitos das nossas grandes figuras. Salazar não teria votado em Salazar. Pela educação que nos transmitiu, a História de Portugal tinha uma hierarquia e no topo, inacessível, estavam os únicos portugueses que, verdadeiramente, influenciaram a História Universal: a geração das descobertas». Esta conversa lembrou-me um livro que tive de ler para a cadeira de Introdução à História, no já longínquo ano de 1993. Este fim-de-semana encontrei, finalmente, o livro: História, Mitologia, Imaginário Nacional: A História no Curso dos Liceus (1885-1939), de Sérgio Campos Matos – um dos muitos exemplos de reflexão académica sobre o salazarismo que, por estes dias, muita gente disse não existir, provavelmente pela simples razão das conclusões produzidas nessas reflexões não irem ao encontro dos seus preconceitos. E o que nos diz Sérgio Campos Matos em relação ao periodo de 1933-1939? Que, de facto, como escreve Pinto Leite, «a educação recebida no tempo de Salazar exaltava os feitos das nossas grandes figuras». Que a educação salazarista tinha uma hierarquia, no topo da qual estava, para além do monástico Nuno Álvares e do nacionalista Afonso Henriques, o Infante D. Henrique das descobertas. E quem era o Infante da «educação recebida no tempo de Salazar»? O «representante da missão apostólica de Portugal», figura de referência na Mocidade Portuguesa e na Exposição do Mundo Português. Como é evidente, «a exaltação dos feitos das nossas grandes figuras» (Pinto Leite), pensada por algumas figuras do integralismo lusitano, tinha como único propósito «fazer reviver na veneração a Salazar os atributos dos antepassados míticos» (Sérgio Campos Matos).

Eles pensam o que dizem para não dizerem o que pensam

Conto-me entre os que acham que a extrema-direita portuguesa deve ser deixada a falar sózinha. Não se pense que o digo por ingenuidade quanto a quem são e ao que vêm. Eles são mesmo perigosos e acreditam mesmo que podem transformar o país nas coisas horrendas que os animam.
Os cartazes do Marquês tornaram as coisas mais claras. A voz pública do PNR lá veio dizer ao Sol que "A ideia da mensagem foi muito discutida na direcção. Quisemos ter um cartaz intocável, completamente dentro da lei."
Eles sabem o que fazem e pensam o que dizem para não dizerem o que pensam. A nossa batalha é a de conseguir que aquilo que pensam não ganhe adeptos, tarefa para a qual não avançamos nada a esgrimir com o seu discurso público. É necessário deixá-los a falar sózinhos e falarmos nós com sucesso para aqueles a quem eles se querem dirigir. Este adversário é muito perigoso mesmo quando é ultraminoritário. É uma lição da história da Europa no século XX que não pode ser esquecida e fazer com que não apaguem a memória, para citar o feliz nome de um movimento cívico, terá sempre que ser prioritário.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Dreams Burn Down


Do mesmo modo que há bandas que são levadas ao colo pela coligação youtube/myspace, outras há que são remetidas a um estranho e injusto esquecimento. Até há pouco, por exemplo, era impossível encontrar o que quer que seja dos Ride. A banda, que dá-se o caso de ter tido algum sucesso nos inícios dos anos noventa, quase que desapareceu. Um pouco à imagem de todas as bandas do shoegazing. Os Ride fizeram dois álbuns muito bons de shoegazing puro – going blank again e nowhere – e um terceiro, menos engajado, que foi “mal amado” mas que tem grandes temas – carnival of light. Mas, como muitas das bandas bicéfalas, tiveram um fim precoce. Andy Bell, que, como se pode ver, é um excelente guitarrista, é hoje um apagado baixista dos Oasis e Mark Gardener envolveu-se numa obscura carreira a solo. Aqui fica Dreams Burn Down de Nowhere e, acima de tudo, a sugestão, dirigida aos três leitores que acham que a sobreposição de guitarras em distorção foi das melhores coisas (re)inventadas na passagem dos oitenta para os noventa, para seguirem o link “more from this user”. Houve um senhor que uploadou a semana passada dezenas de vídeos de concertos dos Ride e também dos Slowdive. O que serve para ter esperança: chegará o dia em que poderemos ver também vídeos dos My Bloody Valentine e, quem sabe, chegará um dia em que Kevin Shields voltará a dar sinais de vida.

Serviço Público

Enquanto por cá os jornais de referência escolhem os caminhos que se sabe, vale a pena visitar, no site do Le Monde, o dossier especial sobre as eleições francesas. Destaco em particular o item que permite a comparação entre os programas dos vários candidatos presidenciais num conjunto de tópicos: cultura e comunicação, economia e emprego, educação, ambiente, Europa, etc.. Conhecer os programas, comparar as principais medidas e votar mais informado: eis o contributo do Le Monde. Para navegar pelo menos até dia 22...

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Discordâncias, repulsas e alergias

1. Miguel Vale de Almeida critica a posição que aqui tomei em “Questões políticas passageiras e questões de Estado” (10/04/2007): “Rui Pena Pires até pode ter alguma razão na questão do ónus. Mas esquece duas ou três coisas bem mais importantes: 1) um papel fulcral da comunicação social em democracia é vigiar o poder; 2) não estamos a falar de um cidadão comum, mas do primeiro-ministro.
Por uma vez, discordo bastante do Miguel. E discordo porque entendo que do reconhecimento do papel da imprensa na vigilância do poder (com o qual concordo) não resulta a legitimidade para desrespeitar as normas de protecção dos direitos dos cidadãos titulares de cargos políticos. Em consequência, não concordo, também, com a segunda ressalva do Miguel: “não estamos a falar de um cidadão comum, mas do primeiro-ministro”. Um primeiro-ministro, como um ministro ou um deputado, mas também um jornalista, mantém intactos todos os seus direitos como cidadão livre. Terá deveres acrescidos, mas não à custa da redução dos seus direitos, em particular o direito à presunção de inocência e o direito ao bom-nome.
Discordo do Miguel, em segundo lugar, porque “vigilância do poder” não é o mesmo que “julgamento de carácter”. Vigilância do poder é vigilância dos actos POLÍTICOS hoje praticados por agentes do poder, não a devassa da sua vida passada para nela encontrar qualquer pecadilho mais ou menos remoto. Para ser franco, interessa-me muito pouco o que fez há 15, 20 ou 30 anos um qualquer agente político de hoje, como me interessa ainda menos valorizar a pureza angelical do trajecto como critério para a escolha e avaliação dos titulares de cargos políticos de hoje (e a continuar por este caminho, pouca gente com percursos de vida interessante haverá amanhã com disponibilidade para ocupar esses mesmos cargos). Além do que, confundir “vigilância do poder” com “julgamentos de carácter” tem a desvantagem de deixar sem vigilância a actuação política efectiva dos agentes políticos.

2. Discordando do Miguel, compreendo o bom fundamento das suas objecções. Já em relação às declarações, hoje, ao Público, de António Barreto e de Vasco Pulido Valente, a minha posição não é só de discórdia, é também de repulsa. É espantoso, e inaceitável, que António Barreto entenda ser ilegítima a carreira académica de titulares de cargos políticos ou que desqualifique um percurso académico por este ser feito por etapas e em diferentes instituições. Como é lamentável o estilo cínico “não vou por aí, mas…” concretizado nas frases “era tão melhor julgar os políticos por razões políticas e não por motivos pessoais ou de carácter! … [Mas] gostemos ou não, faz parte das regras do jogo”. Como é espantoso, e inaceitável, que Vasco Pulido Valente ignore que a admissão à universidade de alunos de outras instituições e graus de ensino passe pela definição de planos de estudos específicos e transforme essa ignorância em insinuação ao falar de “fabricação” de um plano de estudos. Noutro contexto, em A Quadratura do Círculo, na SIC-Notícias, é lamentável que o jurista Lobo Xavier tenha torcido como o fez a questão da inversão do ónus da prova, afirmando que exigir que quem reclama ter uma credencial escolar demonstre ter de facto essa credencial é inversão legítima do ónus da prova. Pois, como todos estão fartos de o perceber, o que está a ser abusivamente insinuado não é a inexistência da certificação mas a licitude dos métodos dessa certificação — caso em que é totalmente ilegítima a inversão do ónus da prova.

3. E também lá estava o André Freire. Começa a ser alergia (e eu sei que a afirmação é preconceituosa), mas foi irritante ouvi-lo estranhar, com o ar mais sério deste mundo, a possibilidade de se realizar um processo de equivalências sem a entrega prévia de um certificado com as disciplinas feitas noutra instituição. É legal e é possível, faz-se todos os dias e é aconselhável que se faça, instruir um processo com base em declarações sob compromisso de honra, condicionando a efectividade das conclusões do processo à futura comprovação dessas declarações. Faz-se em processos de transferências, entre instituições como entre planos de estudos, nas equivalências Erasmus, em candidaturas a ciclos de estudos subsequentes à licenciatura ou, como previsto nos respectivos regulamentos, nos concursos de bolsas FCT. Entre outras situações. Estar calado quando não se sabe de que se fala não é defeito…

terça-feira, 10 de abril de 2007

Questões políticas passageiras e questões de Estado

José Manuel Fernandes (JMF), director do Independente, perdão, do Público, escreve hoje, a propósito da intervenção ontem do ministro Mariano Gago, que “foi um erro misturar uma questão de Estado — o encerramento de uma universidade — com uma questão política por definição passageira — a licenciatura de José Sócrates”.
Deixemos de lado a curiosa afirmação sobre a ilegitimidade do pronunciamento de um ministro sobre os “episódios” da política — embora gostasse de saber o que diria JMF se um qualquer ministro, interrogado por jornalistas sobre um “episódio político”, respondesse qualquer coisa do género “este assunto não é uma questão de Estado mas uma questão política passageira, pelo que não respondo a perguntas sobre ele”.
Mas passemos ao essencial. A questão política passageira em causa tem uma particularidade: repete-se com demasiada frequência nos tempos que correm. Se cada episódio é passageiro, a sua sistematicidade não o é. Ou seja, não é episódica a sucessiva construção de episódios, aqui como noutros países, de destruição de lideranças políticas através da construção de “casos” mediáticos em que a produção da prova pertence a quem é acusado, não a quem acusa — sendo os estragos “colaterais” independentes da conclusão da referida produção da prova. Veja-se, aliás, o modo espantoso como Ricardo Dias Felner inicia, no mesmo número do Independente, perdão, do Público, o seu artigo sobre o caso em causa: “Quando José Sócrates se dirigir aos portugueses para lhes demonstrar que tem uma licenciatura regular…”. Se isto não é inversão do ónus da prova, não sei o que é tal coisa.
Ora o problema que se coloca com a inversão do ónus da prova nos “casos mediáticos” é que fere de morte o Estado de direito, sacrificando a liberdade ao despotismo. É pois uma questão de Estado, e das mais graves, que está em causa na sucessiva construção de episódios políticos como o que JMF refere no seu editorial de hoje no Independente, perdão, no Público.

Má fé

Quando o Público faz, HOJE, uma caixa, na página 5, em texto assinado por Ricardo Dias Felner, com o texto “José Sócrates não terá entregue a sua tese de mestrado em Gestão de Empresas no ISCTE”, faz também algo que, objectivamente, só pode ser suspeito de ser acto de má fé. Um MBA, no ISCTE como na Universidade Nova de Lisboa ou no ISEG, não tem tese, ao contrário de um mestrado em Gestão. No ISCTE, a obtenção do MBA depende da conclusão, com êxito, da parte escolar (1.º ano) do Mestrado em Gestão de Empresas. Logo, NENHUM graduado com um MBA pelo ISCTE, que não seja também mestre em Gestão, entregou qualquer tese de mestrado.
E o Público está farto de o saber.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Dados são dados!

1. Há muitos, muitos anos, jovem recém-licenciado, assisti a uma situação que me marcaria para o resto da vida profissional. Dois outros recém licenciados propunha-se realizar um projecto para explicar uma variação anómala na sazonalidade dos dados sobre a natalidade de um concelho do interior do país: o pico da natalidade situar-se-ia, nesse concelho, em Janeiro, descoincidindo do observado para todos os outros concelhos do Continente. Ouvindo as propostas entusiastas dos dois jovens investigadores, um dos veteranos da demografia portuguesa afirmou cortante: “o vosso projecto não existe; os dados estão errados, verifiquem-nos”. Admirados, os jovens, a quem nunca tinha ocorrido semelhante possibilidade (erro dos dados) resistiram, mas acabaram por seguir o conselho e investigar não o comportamento demográfico no concelho em causa, mas o registo dos dados demográficos nesse concelho. Resultado: os dados estavam mesmo errados pois, por “questões administrativas” (isto é, por férias irregulares a cavalo do ano novo), os nascimentos da segunda quinzena de Dezembro eram adicionados aos nascimentos ocorridos em Janeiro. O pico de nascimentos observado era pois um efeito de registo, não de especificidade demográfica local.

2. Qualquer aprendiz de investigador acaba assim por aprender que a fiabilidade dos dados tem que ser verificada antes que deles se possa retirar qualquer conclusão. Por uma razão simples: os dados são produzidos, não emergem por geração espontânea; são produzidos com técnicas de observação e registo que podem ser mal usadas ou inadequadas para observar o fenómeno em causa. No que se refere aos dados sobre questões sociais, muitos são o resultado agregado de registos administrativos, sujeitos a todo o tipo de erros sistemáticos ou ocasionais; outros, ainda, resultam da resposta a inquéritos, pontuais ou periódicos, que, sobretudo quando são autopreenchidos (isto é, preenchidos pelos inquiridos na ausência do inquiridor), estão sujeitos a erros e distorções por ignorância de quem responde ou por não resposta do inquirido.

3. Neste domínio da acção profissional, de utilização dos “dados”, jornalista e investigador têm, ou é suposto que tenham, preocupações e competências semelhantes. Por isso, qualquer aprendiz de jornalismo, e não apenas de investigação, sabe que não só as fontes devem ser verificadas como a fiabilidade dos dados deve ser testada. Porém, Ricardo Dias Felner (RDF) deve partir do princípio de que “dados são dados”, não se discutem. Só assim, isto é, só por falta de competência profissional, é possível explicar as suspeições que lançou em artigo publicado no Público de 4 de Abril passado, com base na leitura de um “estudo do Ministério do Ensino Superior [que] revela que em 1996 não houve nenhum aluno diplomado em Engenharia Civil, pela Universidade Independente (UnI)”. Isto apesar de saber, porque o cita, que os dados usados naquele estudo têm por base “a resposta dos estabelecimentos de ensino superior ao inquérito estatístico anual realizado pelo OCES”. A qualidade da resposta da UnI ao questionário do OCES é considerada irrelevante e a ausência de dados sobre diplomados em Engenharia Civil é definida, sem mais, como facto irrefutável, tão irrefutável que pode ser usado para marcar posição numa controvérsia pública. E descoberto o “facto” através do “dado”, quem se quiser defender que faça o trabalho que competia inicialmente ao jornalista (e, em geral, a quem acusa): verificar e, eventualmente contestar, a fiabilidade dos dados.
Ou é muita incompetência ou muita irresponsabilidade!!
(Isto porque não acredito que se trate de conspiração de RDF.)

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Páscoa

Nestas paragens #4


quinta-feira, 5 de abril de 2007

JMF (corrigido)

José Manuel Fernandes (JMF), director do Público, admitiu que fez confusão:
Fiquei entretanto a saber que, no ISCTE, quando um aluno conclui com êxito o primeiro ano de um mestrado -- mesmo que não faça o segundo ano nem entregue a tese -- passa a ter equivalência a uma pós-graduação, o que, em Gestão, pode ser designado por MBA.

1. Claro que uma mente retorcida poderia ler, nas palavras de JMF, uma insinuação sobre as particularidades do ensino no ISCTE: “...fiquei... a saber que, no ISCTE...”. Sinceramente, não acredito. Não acredito que se trate de conspiração de JMF.
Acho que se trata de pura ignorância.
Ignorância de que em praticamente TODAS as universidades, e de há muito, a conclusão com êxito da componente escolar dos mestrados dá habitualmente direito a um diploma de pós-graduação.
Ignorância de que este procedimento é corrente nos países europeus.
Ignorância de que a certificação de toda a etapa de formação é uma recomendação que tende a ser adoptada no espaço da UE.
Ignorância de que a recente legislação sobre Bolonha alarga a possibilidade dessa certificação, no ensino superior, à conclusão com êxito dos dois primeiros anos de uma licenciatura ou do primeiro ano de um programa doutoral (embora, claro, com designações diferentes da de “pós-graduação”).

2. A ignorância é chata, sobretudo quando atrevida. No caso do jornalismo, porém, não é só chata, pois tem consequências perversas. Ou seja, a ignorância permite afirmações que atingem terceiros, prejudicando a sua imagem.
Não seria muito grave se, havendo mecanismos de penalização dos efeitos irresponsáveis da ignorância, esta não se manifestasse exuberante e frequentemente. Porém, nas intervenções recentes de JMF, a ignorância tem-se manifestado a par com a recusa de criação de mecanismos efectivos de responsabilização do trabalho jornalístico. Ou seja, JMF quer, para si e para os seus, um estatuto de irresponsabilidade que não evitará o florescimento da ignorância e dos seus efeitos perversos (isto porque não acredito que se trate de conspiração de JMF).

3. A reivindicação do estatuto de irresponsável em regime de total auto-regulação é um tique corporativo. Neste caso, o corporativismo em acção manifesta-se de modo muito curioso: a crítica dos efeitos perversos da ignorância é tratada como ataque à liberdade de informação, tornando na prática impotente quem se vê sob ataque de um qualquer JMF. Até porque, nessa reacção corporativa, é dada uma machadada radical em princípios fundamentais do estado de direito (isto porque não acredito que se trate de conspiração de JMF).

4. Exemplifiquemos mais este efeito perverso da ignorância atrevida de quem tem funções na comunicação social. Imaginemos que, por ignorância, JMF faz afirmações que mancham a honorabilidade de terceiros; este reaje; JMF contra-ataca exigindo que quem se sentiu prejudicado prove que não fez aquilo de que é acusado com base na sua interpretação ignorante da situação. Assim se inverte o ónus da prova e se aprofunda o regime corporativo de irresponsabilidade (isto porque não acredito que se trate de conspiração de JMF).

5. Quando titulei este texto, lembrei-me de outras iniciais: JFK.
Claro que JMF nada tem a ver com JFK. Está mesmo nas antípodas das conotações destas iniciais. Que lembram sempre a conspiração que levou à eliminação do presidente dos EUA.
Ora, como já repeti por várias vezes, não acredito que se trate de conspiração de JMF.
De certeza que se trata apenas dos efeitos acumulados da acção ignorante atrevida e irresponsável.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Um texto que eu gostava de ter escrito

"[...] Quando se encara a diversidade das legislações europeias, é difícil entender a exclusão do trabalho na regulação social comunitária. Ninguém, decerto, suporá que o tema seja menor, na perspectiva da “construção do mercado interno”. Parece pouco saudável a concorrência entre leis nacionais dentro desse mercado. [...]. As razões do bloqueio dos temas laborais não são evidentes. Estará em causa, sobretudo, o reflexo de “auto-preservação” dos sistemas legais nacionais. Os complexos de regras laborais são encarados como elementos identitários nacionais, resultantes – como são – de processos históricos diversos e complexos. A necessidade de alterar esses modelos para os ajustar a moldes europeus obrigatórios está além do politicamente tolerável. Mas a explicação “identitária” não justifica a abstenção do legislador comunitário. Justifica, decerto, o reconhecimento de que a uniformidade não é possível, mas deixa espaço para que, face à pluralidade dos modelos, sejam fixados parâmetros comuns ou condições mínimas que todos devem respeitar. Ora nem isso parece possível – e o “Livro” mostra-o bem. É, em certo sentido, um “livro aberto”. Os cuidados e reticências do texto, o carácter abstracto e amplíssimo das questões, o uso de um “europês” particularmente enrolado e a largada frequente de afirmações intransitivas mostram que nem mesmo os autores acreditavam no que estavam a fazer."
De um artigo de António Monteiro Fernandes, publicado aqui

terça-feira, 3 de abril de 2007

Uma questão de carácter

Não conheço nenhuma sondagem que, nos últimos tempos, tenha avaliado a popularidade de Maria José Nogueira Pinto. Mas a existir, arrisco apostar que estaria em alta. Não surpreende: como tem sido assinalado, a ex-dirigente de CDS tem um passado de autonomia, de defesa de convicções e por onde passou deixou a sua marca. Para ajudar, nas últimas semanas, foi vista como tendo sido vítima do lado mais negro da vida partidária – as disputas internas e processuais – e, depois, revelou um desapego ao poder incomum, ao abandonar o lugar de vereadora da Câmara de Lisboa (que tendo em conta a campanha personalizada que desenvolveu, era, de facto, seu). Tudo somado, é provável que, por agora, os níveis de aprovação de Maria José Nogueira Pinto sejam elevados.
Contudo, o exemplo de Maria José Nogueira Pinto não tem nada de exemplar. É antes revelador da degradação da vida pública e política aos olhos dos portugueses. Poucos casos condensam de modo tão preciso a debilidade do nosso sistema político e mostram o caminho de desafectação crescente entre partidos e sociedade.
continue a ler aqui.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

My chat with the colonel

As incursões do sociólogo Anthony Giddens no mundo da política não param de me surpreender. Primeiro, foi a colaboração com Blair, que o levou a complicados exercícios de ginástica intelectual (sobre o Iraque: «What went wrong was not the war, but the peace»). Agora que Blair está de saída, a «terceira via» parece querer regressar ao seu local de baptismo: «If Gadafy is sincere about reform, as I think he is, Libya could end up as the Norway of North Africa».

domingo, 1 de abril de 2007

Os disparates da D.Isilda

O DN de hoje diz que Isilda Pegado, uma ex-Deputada do PSD à Assembleia da República, terá dito que:

1. A lei sobre a despenalização da IVG seria nula porque, dada a taxa de abstenção verificada, o "SIM" resultante do referendo que a precedeu não obrigava a AR a legislar no sentido da despenalização;

2. A legitimidade da decisão da AR seria comparável à de Salazar, que contou as abstenções como favoráveis à Constituição de 1993;

3. A decisão da AR seria um ataque ao Estado de Direito e à Constuição visto que aos votos do "NÃO" deveriam ter-se somado os três milhões de votos dos que, segundo o DN diz que Isilda Pegado disse, estão por nascer e rejeitariam o aborto ou a possibilidade de serem abortados.

Tomando como boa a descrição das declarações atribuídas a Isilda Pegado e aceitando a pureza lógica do raciocínio nelas implícito, concluir-se-ia que, afinal, Salazar não se limitou a espezinhar os critérios democráticos no referendo à Constituição de 1933.
O ditador terá feito pior: esqueceu-se dos que estavam por nascer. Se tivesse raciocinado como Isilda Pegado, escusava de contar com as abstenções: bastava-lhe contar com as Isildas Pegado, nascidas e por nascer, e assumir a certeza de conhecer o sentido do seus votos.

Brilhante, não é?

sexta-feira, 30 de março de 2007

Back to Basics



"Dans le port d`Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d`Amsterdam
De Hambourg ou d`ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d`Amsterdam
Dans le port d`Amsterdam"

(na expectativa que, desta feita, agrade ao maradona)

Os custos humanos do "milagre chinês"

Um relatório recente da Amnistia Internacional permite começar a perceber parte da dimensão dos custos humanos associados ao “milagre económico chinês”.
Neste caso, trata-se dos migrantes internos: 2 milhões em 1980, serão actualmente 150 a 200 milhões e estima-se que cheguem aos 300 milhões em 2015.
Frequentemente indocumentados e incapazes de obter toda a documentação necessária, vivendo e trabalhando em condições ultra-degradadas, sem alimentação adequada, frequentemente forçados ao trabalho suplementar e a abdicar das férias, estes migrantes internos podem ver-se confrontados com pedidos de pagamento de um custo diário de tratamento hospitalar equivalente a um mês do seu salário.
É de casos destes que não deveriam esquecer-se alguns dos que orientam o combate à globalização como se os Estados-Nação já não contassem na regulação social das sociedades contemporâneas.

quinta-feira, 29 de março de 2007

"Não vou por aí"

Há um hábito muito enraizado entre nós no debate público: fazer-se uma afirmação – que normalmente desperta uma ideia latente, mas que ninguém por pudor, bom senso, princípios ou civilidade quer trazer para o debate – para logo a seguir dizer-se, “bem, mas eu acho que não se deve ir por aí”. No entretanto, já se fez o servicinho de trazer o tema à liça. Hoje no Público, José Manuel Fernandes não resiste: “a ex-militante do CDS nunca deixou de dizer o que pensava em momentos cruciais, mas a verdade é que também nunca disse tudo. Por exemplo: reconhece-se na defesa, protagonizada pelo seu marido, de que Salazar ficava bem no lugar de melhor português de sempre? Não sabemos. Nem perguntamos.”
Eu, por acaso, gostava mesmo de saber porque razão alguém tem de responder ou pronunciar-se sobre as ideias de outro apenas por ser seu familiar, próximo ou afastado, e, também, porque razão a um director de um jornal ocorre escrever tal coisa. Como sempre em Portugal, o espírito liberal, tantas vezes proclamado, não resiste ao mais elementar teste. Na verdade, não é só o que aconteceu no CDS que é muito triste.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Corporativismos

Fala-se hoje muito de corporações e de práticas corporativistas. Nem sempre, no entanto, usando os nomes para designar a coisa certa.

1. Infelizmente, não é fácil definir de modo simultaneamente claro, simples e acessível o que é “corporativismo”. É mais fácil exemplificar. Por exemplo, se alguém se queixa da actuação concreta de um médico concreto e tem como resposta “os médicos são profissionais de elevada qualificação, competentes e sérios”, encontrou o corporativismo. Neste caso, manifestando-se na defesa do colectivo não mencionado na queixa (os médicos) através da recusa da responsabilização de um membro específico desse colectivo. O cerrar de fileiras do colectivo quando um dos seus membros é posto em causa constitui sintoma típico do agir corporativo.

2. Mais fácil ainda é reconhecer o corporativismo em acção. Como quando Helena Matos, no Público de 27 de Março (de 2007), responde a mudanças no Estatuto dos Jornalistas, justificadas pela necessidade de limitar a confusão entre jornalismo e “jornalismo de sarjeta”, afirmando, em contraponto à justificação, “eu prefiro mil vezes os jornalistas de sarjeta aos qualificados queixinhas” (isto é, aos jornalistas que se queixam do tal “jornalismo de sarjeta”). Prefere, portanto, um estatuto que não distinga e auto-regule, pois fundamental é cerrar fileiras em defesa da profissão. Assim transformada em corporação.

terça-feira, 27 de março de 2007

A RTP e Salazar

Salazar nunca ganhou na vida uma eleição livre e justa.
E não é por a RTP ter dado aos saudosistas da ditadura e da guerra colonial a oportunidade de criar uma mistificação mediática - com votos que se compravam com a moeda das democracias europeias - que se alteram os factos históricos, políticos, culturais, sociais e económicos que marcaram a ditadura e contra cujas consequências ainda hoje alguns de nós se batem.
Mas lá que é um péssimo serviço à democracia e uma indignidade que mancha a decência dos que a promoveram, lá isso é.

Pedro e o lobo, versão 2007

Era uma vez um menino chamado André.
O menino André queria muito ser pastor. Decidiu, por isso, um belo dia, atribuir-se a tarefa de guardião da causa da esquerda. Missão: protegê-la dos ataques do lobo neoliberal. Para levar a cabo tão espinhosa missão beneficiou da ajuda de mão amiga da direita, que lhe emprestou um megafone. Assim podia o André ser ouvido sempre que quisesse alertar para as investidas do lobo.
Querendo experimentar a eficácia do seu novo megafone, gritou o André quando os ventos lhe cheiraram a lobo neoliberal, sem cuidar de verificar da realidade do ataque. E quando os amigos se precipitaram para juntar forças contra o lobo e nada viram, o André justificou-se: “podia não ser o lobo, mas se continuam os ataques aos professores universitários, com essa estranha mania de que o ensino superior é para massificar e não para seleccionar, ainda vou ser obrigado a dar aulas a dezenas de alunos por semestre”. Os que tinham vindo auxiliar na luta contra o lobo neoliberal suspiraram e voltaram para casa.
Pouco tempo depois, ouviu-se de novo o alerta do André. E, de novo também, quando os que responderam ao alerta chegaram junto dele, do lobo nem rastro. Desculpou-se o pastor, alegando que tinha estado a demonstrar o funcionamento do megafone ao seu amigo Santana. Irritados, os amigos regressaram a casa, não sem antes o avisarem dos perigos das más companhias.
Os tempos passaram, os governos mudaram.
E, um dia, o lobo neoliberal atacou.
Porém, quando o André gritou o alerta, os amigos, pensando estar perante repetição dos alarmes do passado, nada fizeram. A mão amiga da direita aproveitou a ocasião para lhe retirar o megafone. Silenciado, o André Freire foi atacado quando menos esperava, sem tempo para reagir. Pois de tanto lobo neoliberal imaginado no passado, ficou sem critério para reconhecer um real quando este lhe apareceu pela frente.

sexta-feira, 23 de março de 2007

O milagre canadiano


Devia ser estudada a capacidade do Canadá produzir boa música. Há um importante legado institucional, é verdade, mas, também uma improvável capacidade de inovação. Entre as singularidades actuais, encontra-se o espírito comunitário que faz com que toda a gente pertença a todas as bandas. Aqui os Broken Social Scene têm a ajuda da Feist (e que ajuda) e de mais uma catrefada de malta. Não há dúvida que, tal como os Arcade Fire, se nada mais, divertem-se em palco. O tema é o 7/4 shoreline, do seu excelente, fantástico – e o que mais se desejar – álbum homónimo de há um ano e qualquer coisa. “I need more guitars” diz o Conan com razão no fim.

Silvio, o louco



Il Caimano, o novo filme de Nanni Moretti, estreou anteontem, em plena campanha eleitoral e rapidamente se tornou o acontecimento político dos últimos dias em Itália. Não é um filme manifesto, à imagem dos de Michael Moore. Longe disso. Mas é um filme sobre Berlusconi, Il Caimano (o crocodilo). No entanto, mais do que um ataque político, mais do que a demonização (muitas das vezes contraproducente) do inenarrável Berlusconi, trata-se de uma tentativa de lançar um olhar sobre o personagem. Não é fácil. Afinal, a grande diferença entre Berlusconi e outros tiranetes é a irracionalidade, a imprevisibilidade e a inconstância. Berlusconi não é o fascista (como com facilidade vem muitas das vezes apelidado), nem é apenas o omnipresente magnata da televisão, nem sequer o multimilionário que construiu um império com métodos no mínimo suspeitos (dove vengano tutti questi soldi? pergunta-se no filme, logo depois de, numa cena bem morettiana, Il Caimano ver desabar-lhe o tecto em cima, com o peso de uma mala cheia de liras).
Berlusconi criou um personagem, vestiu-lhe a pele e é esse personagem o aspecto mais nefasto da política italiana. É o homem (e o político) das piadolas, dos dislates, que combate sozinho um mundo que, por boas razões, o persegue. E é na tentativa de descrever Berlusconi, nos seus tiques, nas suas idiossincrasias que o filme é mais conseguido.
O filme que são três: o do produtor (um fantástico Silvio Orlando, que faz de Moretti todo o tempo) que tenta com pouco sucesso fazer um filme sobre o Caimano; o do produtor que sem razão aparente vê a sua vida desmoronar-se e o filme propriamente dito sobre o Caimano.
O que fica é a incapacidade assumida de compreender totalmente Berlusca, de o reproduzir. Há três actores que fazem de Berlusconi (o último deles o próprio Moretti), mas é um quarto que se revela o mais fantástico, o mais teatral e mais histriónico (e mais histriónico do que Moretti não é fácil): o próprio Berlusconi, quando em pleno parlamento europeu, num momento conhecido, perante um olhar manifestamente desconfortável do pós-fascista Fini (que diz muito sobre o que se passará daqui a 15 dias, no pós-derrota), insulta Martin Schultz.
No fim do filme, Berlusconi é finalmente condenado – pelos "juízes vermelhos", claro -, mas a população revolta-se e sai em sua defesa. Um olhar pessimista e trágico sobre Itália. Um olhar que tenta perceber como é que foi possível que tudo isto tenha acontecido e que não poupa ninguém. Não poupa Berlusconi, mas, também, ironiza sempre sobre esta esquerda que cometeu quase todos os erros que podia ter cometido.
Como é que é possível que este país tenha tido um louco – ou, no que para o caso é o mesmo, alguém que se faz de louco – como primeiro-ministro? Essa é a pergunta fundamental. Uma pergunta cuja resposta está para além da clivagem esquerda/direita, para além do controlo da comunicação social, da corrupção ou do populismo.

(agora que vejo que il caimano estreia em Portugal, recupero um post aqui escrito há precisamente um ano, quando o filme estreou em plena campanha eleitoral italiana. tenho, aliás, sérias dúvidas que o filme funcione fora do tempo e do contexto.)

quinta-feira, 22 de março de 2007

As décimas não são todas iguais

1.
Não é possível deixar de ficar surpreendido - perplexo, mesmo - com a quase clandestinidade a que na imprensa escrita foi votada a divulgação do défice público de 3,9% em 2006. Afinal, o resultado apurado não ficou uma décima, nem duas, nem três abaixo da previsão de 4,6% - o que já seria uma boa notícia. Foram sete. E não adianta lembrar, porque é óbvio, que mesmo a previsão inicial já representava uma descida importante face aos valores de herdados de 2005; ou que o valor final atingido foi-o num contexto em que a recuperação e o crescimento económico são ainda moderados. Mesmo que assim não fosse, seria um resultado assinalável.
Não sei exactamente que critério jornalístico está na base da opção pela clandestinidade da notícia, mas há coisas demasiado sérias para aceitar coincidências ou distracções. No DN, em processo de transformação acelerada, o máximo que o assunto mereceu foi uma referência secundária na capa do suplemento de economia (!) - sem chamada, sequer, à capa principal. Sobre o Público, o João Pinto e Castro escreveu, e bem, o que havia a escrever.

2.
Mas há outro lado da questão: e se os números em causa fossem não 4,6% (previsão) e 3,9% (resultado), mas sim 4,6 (previsão) e 4,8 ou mesmo 4,7 de resultado? Isto é, se o desvio fosse para pior em vez de para melhor, mesmo que marginalmente.
Será que uma ou duas décimas de incumprimento seriam votadas a uma clandestinidade sequer comparável à das SETE décimas de superação da meta orçamental agora conseguidas?

quarta-feira, 21 de março de 2007

Brincar com coisas sérias

Ontem uns deputados do PCP fizeram umas declarações insurgindo-se contra o facto de, apesar de ser expectável há muito tempo (anos) que viesse a acontecer o que aconteceu na Costa, ninguém ter feito nada. PCP que, por mera coincidência, há muitos anos preside à Câmara de Almada. Na altura, falaram das “marés vivas” que ocorreriam por estes dias. Hoje, do Ministro da tutela, finalmente despertado da sua longa letargia, chega-nos esta pérola: “As obras estruturais de fundo não se fazem em período de tempestade", sublinhou Nunes Correia em conferência de imprensa, explicando que foi necessário esperar por "condições do mar mais propícias" para iniciar estas duas intervenções. Segundo o ministro, só agora, depois daquelas que "terão sido as últimas marés vivas de grande dimensão", será possível avançar com as obras que, garante, "resolvem o problema" do avanço do mar na Costa da Caparica "de forma bastante duradoura” (via público).
Eu gostava de saber exactamente o que é uma maré viva, conceito que desconheço em absoluto. Mas, assumindo tratar-se de uma amplitude de maré muito significativa (baixa-mar com pouca altura e preia-mar com altura significativa – próprio da lua cheia e da lua nova), combinado com ondulação forte, gostava de saber o que é que impede que daqui a um par de semanas tenhamos novamente uma ondulação forte, com o pico na preia-mar. Aliás, a próxima preia-mar de lua nova, que ocorre no dia 17 de Abril, terá uma altura de 3.8, o que não representa uma grande diferença face aos 4.0 do da passada terça-feira. O senhor ministro, portanto, está a garantir que não vai haver uma ondulação com dimensões significativas na Costa portuguesa nessa altura. Acontece que há coisas com que não se brinca e a natureza é uma delas.

terça-feira, 20 de março de 2007

Onde pára o reformismo?

Dois anos depois, a capacidade reformista é a medida de todas as avaliações do governo. Os críticos à esquerda julgam o executivo pelas reformas que diminuem direitos e colocam em causa o Estado social; à direita vivem divididos entre o reconhecimento de que o executivo governa como o PSD/CDS não conseguiu e a afirmação de que as reformas não passam de medidas propagandísticas. Entretanto, a crer numa ideia que ganhou corpo nas últimas semanas, o governo terá começado a mudar a sua estratégia. Primeiro, com a reforma das urgências e depois com as mudanças na Administração Pública, terá desacelerado o ímpeto reformista e cedido ao realismo (i.e. aos interesses locais e à sua base eleitoral tradicional).

Para além do conjuntural, estas leituras servem, no essencial, para lançar questões sobre o real poder dos executivos hoje em dia e sobre a extensão e a avaliação das reformas que procuram levar a cabo

continue a ler aqui.

Prodígios e vertigens da indeterminação conceptual - e da manipulação pura

Para registo: eis algumas frases da entrevista ao Expresso de Boyden Gray, embaixador dos EUA na União Europeia.

"Há esterótipos a corrigir, Guantánamo é um sítio civilizado".

"Em relação a Guantánamo, não trabalhámos tão bem como devíamos para explicar (aos europeus) o que estávamos a fazer, nem mencionámos que as condições ali são bastante boas".

"Não estamos a torturar pessoas, ao contrário da impressão que foi dada, nem mantemos aquelas pessoas ali inutilmente".

"Não podemos enviar muitos dos detidos para os países de origem porque as ONG denunciam riscos de tortura - e os (países) europeus também não os aceitam".

"O que está em causa é, principalmente, explicar as coisas melhor. Temos de ser mais abertos em relação ao que estamos a fazer".

"A presidente do Senado belga visitou Guantánamo e disse que as condições eram melhores do que em muitas prisões do seu país. Temos de fazer passar melhor esta mensagem".

As frases quase falam por si. Mas o mínimo que se pode dizer é que é assustadora esta linha discursiva acerca de Guantánamo. Indeterminação conceptual, certamente. Mas "wording" é pouco para descrever com exactidão o que está em causa: negacionismo radical e manipulação pura está mais de acordo com a realidade, não de um indivíduo em nome próprio mas do embaixador dos Estados Unidos na Europa.

A política de trincheira


Há umas semanas defendia-se uns quantos apoios de praia (um eufemismo para descrever umas construções abarracadas onde se serve café e sumos a preços insultuosos); depois, o mar levou os ditos apoios e passou a defender-se o parque de campismo (um abarracamento permanente em plena faixa costeira que nunca deveria ter existido ali). Agora, que o mar cumpre o seu papel e ameaça o parque de campismo, o que é que se vai defender? A própria vila da Costa?
Entretanto, as várias autoridades continuam a reagir como se tudo isto não estivesse programado para acontecer. Estava e só não via quem não queria.
Ou muito me engano ou andaremos de trincheira em trincheira até à derrota final. Espero ao menos que a derrota final possa ser uma vitória: começar de novo.
(há uns tempos que não ia à Costa propriamente dita. Há um par de semanas, contudo, arrisquei uma ida às praias da vila na meia maré. Escuso-me a descrever a saída do mar, agora que não há nem praia, nem escadas, feita atirando-me literalmente para as pedras dos pontões, mas não deixei de ficar estupefacto com um novo prédio de vários andares que está a ser construído, em frente à praia do Barbas, ao pé da Carolina do Aires. Por este andar, daqui a quanto tempo é que estarão a criar valas para defendê-lo?)

A crença nos almoços grátis?



É claro que há um debate, clássico, entre os que entendem que é preciso melhorar a cobertura dos sistemas de protecção social, mesmo que com o inerente aumento dos custos, e os que, pelo contrário, preferem reduzir os encargos, mesmo que, para isso, seja necessário reduzir a cobertura dos riscos garantida pelo sistema de protecção social . Em abstracto, quer uns, quer outros, poderiam, em consequência de escolhas políticas opostas, achar que um dado modelo poderia servir de exemplo para outro países: nuns casos por assegurar boa cobertura dos riscos sociais, noutros por não ser caro.

Mas, numa sondagem recentemente publicada pelo Eurobarómetro, há três questões que obtiveram dos portugueses e dos cidadãos dos "países do alargamento" respostas que, em conjunto, são perturbantes.

As três questões aqui retidas são:
1. Acha que o Estado-Providência fornece cobertura suficiente?
2. Acha que é demasiado caro?
3. Acha que poderia servir de modelo para outros países?


O primeiro gráfico é inteiramente previsível: aí aparece uma relação positiva entre os que reconhecem que, devido à alta cobertura que que oferecem, os sistemas dos seus países poderiam servir de modelo para outros países, e vice-versa. Dir-se-ia, pois, que os inquiridos preferem pagar o custos de sistemas de protecção social caros mas com graus elevados de protecção social.

No segundo gráfico, a relação entre as variáveis é menos clara. Ainda assim, os países cujos cidadãos acham que beneficiam duma elevada cobertura social não são os países mais críticos quanto aos custos do sistema. Pelo contrário, são os países, como Portugal, que acham - primeiro gráfico - que o Estado-Providência do seu país não garante uma cobertura suficiente e que não pode servir de modelo para outros que - segundo gráfico - entendem que o sistema é demasiado caro.

Como explicar este padrão de resposta? Estamos perante uma amostra que representa mal a opinião dos países? É o sistema desses países que cobra demais para o que fornece, isto é, é ineficiente? É porque a incipiência ou a "juventude" do sistema de protecção social ainda não permitiu a aprendizagem social suficiente para que, nesses países, seja mais baixa a proporção dos que crêem que podem ter um sistema de elevada protecção social sem os custos inerentes?

segunda-feira, 19 de março de 2007

Do inferno cheio de boas intenções

1. Como prometido, de volta ao Terceiro Relatório sobre Portugal da ECRI, Comissão contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa (e não pela última vez). Hoje, para comentar a insistência na necessidade de recolha de dados sobre a “origem racial ou étnica”, considerada indispensável para “medir a extensão das manifestações de racismo e de discriminação racial” (parágrafos 99, 100 e 101). Neste domínio, a ECRI não está só: a Comissão Europeia, no seu comunicado 643 de 2006, e no seguimento das recomendações do European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia (EUMC), tinha já dado guarida à tese segundo a qual “a falta de dados étnicos dificulta uma monitorização adequada da efectividade da legislação anti-discriminação”. E está certa, esta afirmação. Como está, também, a seguinte afirmação: “a falta de câmaras de videovigilância nas casas dos cidadãos europeus dificulta uma monitorização adequada da efectividade da legislação anti-violência doméstica”.

2. Ou seja, afirmar que com informação de um certo tipo se combatem com mais eficácia comportamentos indesejados não significa, por si só, que essa informação deva ser recolhida. Tal é óbvio no que se refere à instalação de sistemas de videovigiância em casas privadas. É verdade que na sua ausência a violência doméstica poderá continuar, em muitos casos, a gozar de impunidade, mas também é verdade que os custos da medida são inaceitáveis, ao colocarem em causa, radicalmente, o direito à intimidade. No caso dos dados sobre a “origem racial ou étnica”, temos que fazer o mesmo balanço.

3. Como já o disse e repeti aqui no Canhoto, o racismo e a xenofobia não começam no tratamento discriminatório dos “outros” mas na definição de alguém como “outro”. Recolher dados sobre a origem racial de alguém supõe a existência de raças (de onde se é originário). Ora, no dia em que aceitarmos este pressuposto daremos um enorme passo atrás no combate ao racismo, o qual só pode ter sucesso se recusarmos a pertinência social das classificações culturais em função das características físicas das pessoas. Neste domínio, o caminho da ECRI, como no passado o do EUMC, é o da institucionalização da racialização, comprometendo totalmente os princípios do universalismo que permitiram inventar o anti-racismo. É caminho condenado a prazo, pois reforça a percepção de alguém como outro, pertencente a um grupo específico, com base na cor da pele ou outro traço físico. Ou seja, reforça os fundamentos cognitivos do racismo.

4. Como assinalou um dos maiores sociólogos de sempre, “é comum argumentar-se, em regra, que percepcionamos os outros como pertencendo a outros grupos porque a cor da sua pele é diferente. Seria mais rigoroso perguntarmo-nos como foi possível que, neste mundo, se criasse o hábito de percepcionar pessoas com outra cor da pele como pertencendo a outro grupo[Norbert Elias (1977, 1994), “Introduction: a theoretical essay on established and outsider relations”, em Norbert Elias e John L. Scotson, The Established and the Outsiders. A Sociological Enquiry into Community Problems, Londres, Sage, pp. xv-lii].

O mapa que é preciso mudar

As estimativas da participação dos portugueses em educação e em formação, que variam segundo as fontes consultadas, mostram que tem havido algum progresso.
Mas isso não faz com que o mapa ao lado, retirado dum dos últimos exemplares do Eurobarómetro, possa ser ignorado.
Num dos países com pior estrutura de qualificações do emprego e com pior nível de escolarização dos activos, o mapa que se reproduz mostra que, partindo duma herança terrível, não estamos a fazer o suficiente para nos aproximarmos dos países com quem gostamos - e bem! - de nos comparar.

domingo, 18 de março de 2007

My lord

Segundo João Carlos Espada, a transformação da Câmara dos Lordes num senado eleito “é muito decepcionante para os admiradores da tradição inglesa da liberdade”. Que a tradição fica ferida, de acordo, mas a liberdade?!
Para além de não ser eleita, a Câmara dos Lordes tem, para Espada, mais uma vantagem: “é incrivelmente barata. Os lordes não recebem salário”. Vantagem que se perderá com a selecção eleitoral dos membros do senado que substituirá a actual Câmara: “...será caríssima, pois vão ter de pagar salários aos novos lordes”.
Mais uma preciosa contribuição de Espada para a melhoria do sistema político e, simultaneamente, o saneamento das finanças públicas: acabar com o financiamento da actividade parlamentar impondo que os candidatos a deputados tenham meios para se manterem a si próprios. Noutras palavras, que sejam ricos.
Nada que não tivéssemos conhecido no passado. Quem nos mandou pois desprezar a tradição em nome da liberdade não tradicional?
O desaparecimento da Câmara dos Lordes é ainda lamentado por Espada como uma perca, pois a sua existência “constituía motivo de conversas divertidas e perplexidades inspiradoras”. Não diria melhor sobre um eventual desaparecimento das crónicas de João Carlos Espada.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Il attimo durante il quale


Não há muito a dizer sobre isto: a música é uma boa introdução a Paolo Conte e também o seu tema mais conhecido. A versão não é das melhores. Mas o intróito vale a pena: da vecchio non cerco il rifugio. Depois é continuarem por aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2007

CDS, partido unipessoal?

«Ele nunca é tão bom como quando está em campanha. Com um toque de maldade, dir-se-á que nunca é tão mau como quando é eleito. Por duas vezes, quando todos o davam como derrotado, triunfou magistralmente. Mas por duas vezes, como Presidente, falhou. O balanço dos dois mandatos é tão frouxo quanto foram brilhantes as suas vitórias». Esta frase, publicada no P2 de terça-feira, consta de um retrato do Presidente francês, Jacques Chirac, mas podia perfeitamente aplicar-se ao Presidente do CDS, Ribeiro e Castro. Dois anos e dois congressos depois, pouco ficou da sua acção à frente do CDS. Lembro-me de o ouvir dizer que tinha como prioridade de agenda «a defesa dos direitos humanos», recordo-me de uns tantos «almoços do caldas», organizados à pressa antes de apanhar o avião para Bruxelas. E pouco mais. Mas agora, acossado pela candidatura de Portas, e movido por uma espécie de vertigem erótico-eleitoral, aí está de novo o Ribeiro e Castro «animal feroz». Em duas semanas, já conseguiu colocar a questão política da liderança como uma questão de carácter; já lançou uma petição a favor da convocação do congresso; e ainda arranjou tempo para colocar numa das paredes do Largo do Caldas não apenas o retrato de Freitas do Amaral, mas igualmente o de Paulo Portas, também ele, afinal, um tesourinho deprimente da história do CDS. Ribeiro e Castro sabe que provavelmente vai perder, mas, ao contrário de Manuel Monteiro, não quer perder sozinho. A estratégia kamikaze é para continuar depois do congresso ou das directas. O tempo do «CDS, partido unipessoal de Paulo Portas» – característica que acabava por funcionar como vantagem eleitoral face à turbulência crónica do PSD – parece irremediavelmente encerrado.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Beleza tranquila

Não terá a força irrequieta de interpretações mais “de época” (como a de Christophe Rousset recentemente reeditada pela Universal na colecção dos prémios Gramophone). Mas as suites de Rameau tocadas por Angela Hewitt têm uma beleza tranquila difícil de igualar.

Jean-Philippe Rameau (1683-1764)
Keyboard Suites
Angela Hewitt, Hyperion, 2006

CDA67597; SACDA67597
Suite in E minor [21'35]: Pièces de clavecin (1724, rev. 1731)
Suite in G minor [28'26]: Nouvelles suites de pièces de clavecin (c. 1729–30)
Suite in A minor [28'17]: Nouvelles suites de pièces de clavecin (c. 1729–30)

terça-feira, 13 de março de 2007

Sombras sobre o futuro

Confesso que não tinha ideia do peso do carvão no abastecimento energético actual. Foi só ao ler o último número da Science & Vie que o descobri.

1. Descobri, por exemplo, que o carvão não só é a segunda fonte de energia primária, logo após o petróleo, como, ao contrário deste, tem acompanhado a procura crescente de energia nas últimas décadas (ver figura 1). Ou que o carvão é a principal fonte de electricidade, no plano mundial, posição que, inclusive, consolidou nos últimos 30 anos, representando hoje 40% da origem de toda a electricidade (ver figura 2): percentagem que sobe para cerca de 98% na Polónia, ultrapassa os 75% na África do Sul, China e Austrália e é superior a 50% na Alemanha e nos EUA.

2. Como o consumo do carvão é ainda mais poluente que o de petróleo, 40% das emissões de CO2 devem-se hoje ao uso energético do carvão (contra 35% em 1973: ver figura 3). A ameaça do efeito de estufa é assim reforçada pelo progressivo esgotamento do petróleo e a sua paulatina substituição por um carvão mais abundante (com reservas para centenas de anos) e mais equitativamente distribuído em termos geográficos. Ou seja, o uso do carvão é, no curto prazo, uma tentação a que será difícil resistir, sobretudo nas economias emergentes em rápido desenvolvimento: na China, constrói-se quase uma central eléctrica a carvão por semana.

3. É verdade que o uso do carvão encontra hoje limites no domínio em que continua a reinar o petróleo: o dos transportes (ver gráfico 4). Pense-se, porém, o que poderia significar a generalização do automóvel movido a electricidade produzida em centrais a carvão; para já não falar nas tentativas recentes de transformação do carvão em carburante, com uma qualidade bem superior à do usado durante a II Guerra Mundial. Soluções baratas mas com custos ambientais assustadores.

4. O risco de catástrofe ambiental associado ao uso crescente do carvão abre caminho à reavaliação positiva da alternativa nuclear, limpa em CO2. O risco do aquecimento é assim substituído pelo de acidente nuclear. Raio de escolha!

5. O Público dava conta, hoje, de projectos em curso de ampliação ou construção de grandes barragens em Portugal. Venham elas, mesmo não sendo isentos de consequências negativas no plano ambiental (e quais o são?). Incluindo a do Côa...


Figura 1. Produção total de energia primária


Figura 2. Produção total de energia eléctrica


Figura 3. Emissões de CO2


Figura 4. Consumo final por sectores, 2004

Fonte das figuras: International Energy Agency (IEA), Key World Energy Statistics 2006.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Raízes...

1. A última edição do Expresso (10/03/07) incluía um interessante e divertido artigo sobre o impacto territorial das novas vias rodoviárias. Intitulado “Um país a encolher” (pp. 20-21), era ilustrado com alguns dados simples sobre a redução do tempo nas ligações entre as principais cidades do país: Lisboa-Porto fazia-se, em 1973, em 5h09, contra 2h49 em 2007 (e ainda não há TGV...).

2. Numa caixa à margem, a referência ao “lado perverso da revolução rodoviária”. Segundo o jornalista, “Fernando Nunes da Silva, docente universitário e especialista na área dos transportes, (...) alerta para os dois lados da moeda. Por um lado, maior acesso do interior a bens e serviços, nomeadamente com algum grau de sofisticação. Por outro, um efeito perverso que tem a ver com a quebra dos laços tradicionais que mantinham as pessoas presas às terras de origem, com a consequente migração para as cidades do litoral dos elementos mais jovens e dinâmicos, em busca de emprego qualificado”.

3. Naquela longa citação, a expressão-chave é “a quebra dos laços tradicionais”. Como as estradas não cortam laços sociais, convém traduzir a retórica. E esta significa, simplesmente, que as pessoas deixaram de viver na ignorância de alternativas de vida. Os laços que explicavam a permanência eram os que resultavam do desconhecimento, os que resultavam da colocação das pessoas numa situação de não escolha. Não consigo perceber por que razão é o fim dessa situação, negativamente definida, um “lado perverso” da mudança. Parece-me mais o outro lado positivo da mesma mudança.

4. Em boa verdade, o argumento soa a salazarento: se os mantivéssemos isolados e ignorantes, a tradição estaria salva e com ela o território. Ainda que à custa das pessoas...

sábado, 10 de março de 2007

E podem? E devem?

Que Portugal tem uma elevadíssima percentagem de gravidezes adolescentes, é um facto tão incontestável quanto os resultados do recente referendo nacional sobre a despenalização da IVG.Que Daniel Serrão é um professor de medicina com posições ultra-conservadoras, também.Que o Hospital da CUF pode comprar e pagar consultoria a quem bem entender, idem-idem, aspas-aspas.Mas alguém me explica onde pára o Bastonário da Ordem dos Médicos - que ainda há poucos meses arranjou tempo e vontade para cantar hossanas em louvor dos médicos que protestaram contra o controle da assiduidade num hospital público - quando se repetem notícias de que a administração de hospitais privados pretende limitar a liberdade profissional dos obstetras em práticas profissionais legais, como a prescrição da pílula do dia seguinte ou a prática da IVG nas condições legalmente previstas?E, já agora, podem as instituições públicas ter protocolos de colaboração com instituições privadas que impedem actos médicos privados legalmente legítimos?E, por último, se os juristas concluirem que as leis da República podem ser detidas à porta dos hospitais privados por decisões duma qualquer administração de empresa, sempre restará a questão política: e devem os dinheiros dos contribuintes servir para alimentar lucros privados de instituições refractárias às leis da República?

sexta-feira, 9 de março de 2007

Baralhar e voltar a dar


A música é perigosa, lembrava-me, há uns dias, um amigo recordando o que dizia o General Konrad. O Matthew Herbert, entre alguns excessos de proselitismo, tem-se encarregado de demonstrar que é assim. Depois de em dois discos (Around the House e Bodily Functions) ter inventado um par de coisas que são das poucas que vão perdurar da vaga electrónica (as micro-partículas fragmentadas que no fim ganham coerência), tem também dado alguns passos em falso. Mas pelo menos arrisca: esta apropriação jazzística pela big-band de “the audience” de Bodily Functions é disso exemplo (aqui a versão original, para os comparativistas). Não é totalmente conseguida, mas tem identidade e alguma coisa para “dizer”. Não há registos no youtube com a mesma qualidade para actuações ao vivo sem big-band, mas apanhei o teledisco do Suddenly, que ajuda a explicar o que queria dizer e mostra as portas que Bodily Functions abriu e que, verdade seja dita, acabaram por ficar por explorar devidamente.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O «terceiro homem»?

É costume dizer-se que as eleições se ganham ao centro. Mas em França, aparentemente, as eleições ganham-se à direita. Desde 1958, só houve um presidente de esquerda (Mitterrand). O centro acaba sempre por apoiar a direita (ou vice-versa). E as sondagens mais recentes indicam que 90 por cento do eleitorado tenciona votar em quatro candidatos: um de esquerda (Ségolène), um de centro-direita (Bayrou), um de direita (Sarkozy) e outro de extrema-direita (Le Pen). Se em Portugal, por exemplo, onde a maioria dos eleitores se autoposiciona à esquerda, a esquerda ganha quando se aproxima do centro, imagine-se em França, onde a correlação de forças é claramente favorável à direita.
Deste ponto de vista, Ségolène até começou bem. Nas primárias do PSF, apostou na democracia participativa e na ideia de «uma ordem justa» como forma de contrariar o fosso entre elites e eleitorado, que em França atinge especialmente os socialistas. Ganhou popularidade para além do eleitorado tradicional do partido e, como tal, ganhou a confiança dos militantes socialistas (muitos deles novos militantes). A partir daí, assistiu-se a uma sucessão de asneiras. Nas habituais viagens de legitimação internacional, Ségolène foi passeando gaffes por esse mundo fora, aliás na senda da resposta que já havia dado à questão da adesão da Turquia à EU: «a minha posição será a dos franceses consultados em referendo». Ainda assim, tudo isto podia ter sido relativizado internamente, se a candidata tivesse aproveitado o programa eleitoral para corrigir as fragilidades reveladas em matéria de política externa e de política económica (aqui os conselhos de Strauss-Kahn podiam ser úteis). Acontece que em vez de apresentar um pacto presidencial digno desse nome, Ségolène apresentou uma espécie de Plano Nacional para o Desenvolvimento Económico e Social que ficaria bem a um candidato a ministro dos Assuntos Sociais do pós-guerra. Aumentos salariais, aumentos de pensões; nenhum grupo sócio-profissional foi esquecido nas «100 propositions». Tudo o que era novo na esquerda de Ségolène caiu, tudo o que era velho ficou.
Traumatizados pelo que aconteceu nas últimas presidenciais (fragmentação da esquerda, Le Pen na segunda volta), os estrategas socialistas optaram desta vez por unir a esquerda na primeira volta para chegar ao centro na segunda. Sucede que, desta vez, a concorrência não está à esquerda (as intenções de voto aí são residuais) mas ao centro, onde já há algum tempo François Bayrou aparecia como «o terceiro homem». As consequências desta estratégia do PSF estão hoje bem à vista. Segundo a última sondagem da CSA, Bayrou sobe 7 pontos e reúne 24 por cento das intenções de voto na primeira volta, estando apenas a um ponto da candidata socialista e a dois de Sarkozy. Mais: 55 por cento dos franceses querem vê-lo na segunda volta. Por este andar, o «terceiro homem» vai passar em breve a ser o segundo ou mesmo o primeiro homem das eleições presidenciais francesas. Mesmo que Ségolène, no meio da confusão, consiga chegar à segunda volta, terá muito mais dificuldades com o centrista Bayrou do que teria com o direitista Sarkozy.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Maria Raducanu


O Institut Franco-Portugais anuncia para 23 de Março um concerto com Maria Raducanu. Admito que diga pouco ou nada à generalidade dos protugueses. Para uma primeira apresentação diga-se que é uma cantora romena e que o seu percurso, ainda curto, a levou a procurar encontros entre o jazz e a musica popular. O resultado é uma música de sabor balcânico mas grande contenção estilística (muito longe do espalhafato que estamos habituados a associar à música balcânica). Eu, quando ouvi o primeiro disco, de 2002, gostei bastante. Entretanto, outros se seguiram.
Infelizmente Maria Raducanu ainda não chegou ao you tube e a sua editora, a romena La Strada, dá-nos apenas acesso a curtíssimos extractos de dois dos seus discos, que estão longe de mostrar, na minha opinião, a diversidade do trabalho da cantora.


Contudo, é o que temos(Pe Vale e Colinde) e quem quiser ouvir mais, pode dar, se puder e quiser, um salto à Av. Luis Bívar.

terça-feira, 6 de março de 2007

O eterno mito do retorno

E ao vigésimo quarto mês, Paulo Portas regressou. Fê-lo com a capacidade de fixar a atenção dos ‘media’ que o caracteriza, mas, ultrapassado o entusiasmo momentâneo, nada de substantivo disse. Nem sobre a alteração das circunstâncias que o levaram a demitir-se, nem sobre o modo de ultrapassar a encruzilhada em que se encontra o espaço do centro-direita. Não menos grave, regressa com uma nuvem de falta de carácter a pairar sobre a sua relação com Ribeiro e Castro. Com este regresso, Portas, até ver, apenas consolidou a ideia de que é um político que se rege por um vai-e-vem ideológico: umas vezes liberal, outras populista, para logo se tornar conservador e intermitentemente um estadista contaminado pelo realismo. Ao serviço das conveniências.
continue a ler aqui.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Maravilhas de Portugal #4

1. Em termos de mobilidade, Portugal de hoje nada tem a ver com o de há 30 anos: o Marão deixou de ser obstáculo maior, Espanha e a Europa ficaram mais perto e as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto cresceram e adensaram-se. Aumentando a mobilidade espacial, aumentaram as oportunidades de vida, incrementou-se a difusão da modernidade, abriram-se as portas a um cosmopolitismo crescente.

2. Estradas e vias férreas, portos e aeroportos foram fundamentais para aquela mudança radical. Quando, no caso das vias terrestres, os obstáculos eram maiores, pontes e viadutos foram a solução, encurtando ainda mais as distâncias. E as pontes são, hoje, das maravilhas maiores de Portugal, com dimensão mundial.

3. De início, o Porto tomou a dianteira. A ponte de D. Luís, primeiro, a da Arrábida, depois, removeram o obstáculo do rio transformando-o em cenário de obras de destaque tanto no plano técnico como no estético. Lisboa veio mais tarde, pois o obstáculo era maior, tendo sido necessário esperar por 1966 para, com a inauguração da que ficaria mais tarde conhecida como Ponte 25 de Abril, o Sul ficar mais perto do resto do país.

4. A Ponte 25 de Abril teve um impacto inultrapassável na estruturação do território metropolitano e nacional, reforçado em 1999 com a abertura do tabuleiro para o tráfego ferroviário. Porém, no plano estético foi superada pela mais recente Ponte Vasco da Gama, a minha escolha neste modalidade.

domingo, 4 de março de 2007

O comentário que eu queria ter escrito

A crónica de Clara Ferreira Alves, na Única que acompanha o Expresso de ontem, é o comentário que eu gostava de ter sabido escrever a tempo e horas sobre a excelente entrevista que Ana Gomes deu e que a Única da semana passada publicou.
Idiosincrasias à parte, a entrevista de Ana Gomes ilustra uma atitude que a honra como mulher política e que confirma a determinação e a frontalidade que se lhe conheceram ao longo das décadas em que se bateu pelos direitos dos timorenses.

sábado, 3 de março de 2007

Devem as minorias ter direitos?

Resposta curta: não.

1. Resposta mais desenvolvida: as minorias não devem ter direitos porque não constituem entidade moral. Mas as pessoas que se definem (e/ou são por outros definidas) como pertencendo a uma minoria devem ter todos os seus direitos protegidos de qualquer tentativa de discriminação por pertença, escolhida ou, mais frequentemente, herdada ou imputada, a essa minoria. Por outras palavras, a igualdade de direitos deve ser independente da chamada pertença de um indivíduo a uma qualquer minoria (religiosa, étnica, ...).

2. Combater a discriminação criando direitos por “minorias” é a pior das soluções para um problema real. E é uma má solução porque essencializa atributos dos indivíduos particulares em lugar de os tornar normativamente irrelevantes, como se tem vindo a conseguir com a construção da categoria “indivíduo” em termos cada vez mais abstractos. Só essa abstractização garante plenamente o princípio da igualdade social. O contrário traduzir-se-á numa lamentável e perigosa tribalização das nossas sociedades.

3. Senti necessidade de reafirmar estes princípios básicos depois de ler, através da página do ACIME, o Terceiro Relatório sobre Portugal da ECRI (Comissão contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa). De facto, os equívocos da ECRI são tais que se começa a correr o risco de ver o que começou por ser uma iniciativa louvável a passar progressivamente mais para o lado do problema do que da sua solução. Voltarei a este relatório em próximo texto. Por agora queria só salientar uma das suas primeiras recomendações: a ratificação, por Portugal, da Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias (acessível, em português, no portal da Associação Galega da Língua).

4. Não incluindo a definição de “línguas regionais ou minoritárias” as línguas faladas pelos imigrantes, a única com aquele estatuto, em Portugal, seria o mirandês. O principal dinamizador do Sítio de I Mirandés, Amadeu Barros Ferreira, não tem dúvidas sobre tal estatuto e propõe, portanto, que essa ratificação se faça em breve e com consequências nos planos do ensino público, do pré-escolar ao universitário, no uso do mirandês nas relações com os organismos do sistema de justiça e da administração pública, na promoção pública de meios de comunicação e de programas em mirandês, na promoção do uso do mirandês nas instruções de equipamentos técnicos, ...

5. Segundo o relatório da ECRI, as autoridades portuguesas estariam a considerar a possibilidade de uma ratificação, em breve, daquela Carta. Esperemos que não — seria, no mínimo, brincar com o fogo...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Manuel Galrinho Bento (1948-2007)

Várias das primeiras memórias que tenho de gostar de futebol incluem Bento. Como o mítico benfica-sporting em que "agrediu" Manuel Fernandes, foi expulso e o resultado foi o que se sabe. Defesas de antologia, falhas raras mas não menos grandiosas. Era o tempo em que os grandes jogadores, os de topo, ficavam muitos anos no mesmo clube, não eram milionários e não tinham na lista de dez principais funções ajudar os clubes a vender camisolas. E em que era possível ter um metro e setenta e três e ser um grande guarda-redes, talvez o melhor de sempre em Portugal. Nada de errado com o futebol mais mercantilizado e "optimizado" de hoje. Mas a beleza imperfeita do jogo desses tempos merece ser recordada.

Au Revoir Simone


A Virginia Astley parece que se encontrou com os Stereolab e deu nisto: ambientes bucólicos, sonhos pueris e teclados anacrónicos. O video, para além das promessas que abre para o álbum que está para sair, revela também a superioridade evidente do segundo sexo. Há quem lhes chame as irmãs Bronte do electro-pop. É adequado.

O nosso papão está vivo

O Público de ontem ocupava dois terços da primeira página com uma fotografia sombria e um título pouco mais luminoso ("nuestros maestros"), sobre a suposta inspiração espanhola de duas soluções propostas pelo Governo - a chefia coordenada das forças de segurança e as cirurgias ambulatórias para combater listas de espera.

Curioso. Tem sido recorrente, e explícita, a utilização de exemplos de (vários) outros países para a definição de políticas e medidas em Portugal, sobretudo em tempos recentes. Coisa que, aliás, se forem asseguradas as condições de comparabilidade das situações e de transferibilidade das soluções, é bastante positiva. Só não me lembro de alguma vez isso ter tido honras de título principal de um jornal...

quinta-feira, 1 de março de 2007

Fiquei curioso

O FMI pôs à venda um livro sobre o que a China e a Índia aprenderam uma com a outra no plano económico. Fiquei com curiosidade de ver o que há de paralelo na preparação das vias asiáticas - a ditatorial e a democrática - para o capitalismo do século XXI.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

O meu programa político


Em Lisboa, no Verão.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Presidency Summary