segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

As classes médias no blogue da Casa Branca

Obama entrou na Casa Branca como esperava quem nele depositou esperança de fazer política diferente e com objectivos diferentes. Entre as suas primeiras decisões incluiu-se a criação de uma task force encarregue de melhorar o bem-estar das classes médias. No blogue da Casa Branca, Joe Biden, que a vai liderar, postou o artigo de jornal em que formula as perguntas que Bush nunca se colocaria:

What can we do to make retirement more secure? How can we make child and elder care more affordable? How do we improve workplace safety? How are we going to get the cost of college within reach? What can we do to help weary parents juggle work and family? And, above all else, what are the jobs of the future?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Políticas de imigração

«Enquanto por cá há quem se entretenha a transformar a entrada e integração de imigrantes em Portugal numa corrida de obstáculos, na Suécia era aprovada, em 15 de Dezembro de 2008, com votos favoráveis da coligação do centro-direita no poder e dos sociais-democratas (na oposição), uma nova lei da imigração que: (i) permite a imigração de trabalho sempre que o imigrante tenha um contrato de trabalho com um empregador, eliminando o papel do Estado na determinação das “necessidades de mão-de-obra estrangeira”; (ii) define como papel regulador do Estado nesta matéria assegurar que os termos e condições laborais dos migrantes de países terceiros são iguais aos dos trabalhadores suecos; (iii) encoraja os estudantes estrangeiros a permanecerem na Suécia e aí procurarem emprego uma vez terminados os seus estudos; e (iv) permite que candidatos a asilo que viram o seu pedido recusado se candidatem a um visto de trabalho.»

Para continuar a ler no Outubro.

Populismo judicialista

1. Ouvi ontem nas televisões duas afirmações notáveis. Primeiro, que a um primeiro-ministro não se aplica o princípio da presunção de inocência (Joaquim Aguiar); segundo, que o Primeiro-Ministro José Sócrates não tinha ainda conseguido demonstrar claramente a sua inocência no chamado caso Freeport (António José Teixeira). Ouvi também dizer, a propósito de eventuais possíveis diligências futuras, que o Primeiro-Ministro era um cidadão como qualquer outro. Tive alguma dificuldade em compatibilizar as duas primeiras afirmações com a terceira.

2. O populismo daquelas observações é claro. O populismo, recorde-se, tem como uma das suas características a presunção de que todos os actores políticos são corruptos potenciais, sendo particularmente mortífero quando suportado por uma aliança entre sectores da comunicação social e da justiça. Em Itália acabou com a subida ao poder de Berlusconi. Mais mortífero ainda é o progressivo encastramento do populismo num média particular, a televisão. Neste caso, desenvolve-se o que Al Gore descreveu como “o ataque à razão”, facilitado pela profunda assimetria que caracteriza o funcionamento das televisões.

3. Ontem o dia das televisões foi fértil em exemplos não só daquele populismo judicialista como de uma técnica velha de mais de 2000 anos, frequentemente usada para incrementar a eficácia das campanhas negras: a construção da verosimilhança da inverdade conseguida através da multiplicação dos pormenores de uma qualquer história que podem ter alguma semelhança com a verdade. E depois querem que não suspeitemos da existência de campanhas…

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

OIT: os cenários e as recomendações de política

Ontem e hoje a comunicação social deu grande relevo aos cenários de evolução do desemprego divulgados pela OIT, dando especial relevo ao mais pessimista deles, de acordo com o qual o desemprego poderia, no conjunto do mundo, aumentar em 51 milhões de pessoas.

Menos relevo mereceram quer os pressupostos dos cenários da evolução possível do desemprego, quer os cenários contruídos quanto à evolução da pobreza ou quanto à possível inversão da tendência para a ligeira redução do emprego vulnerável, que a OIT vinha registando nos últimos tempos.

E, no entanto, o relatório agora divulgado mantem a lógica das propostas já antes feitas por esta mesma organização internacional e que o Rui Pena Pires já referiu aqui e no Outubro: regular e estabilizar o sistema financeiro, promover o emprego e desenvolver a protecção social.
E, no entanto, é daí e apenas daí que podem vir boas notícias.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

De que tamanho é a crise internacional e europeia?

No interim forecast publicado pela Comissão Europeia lê-se que “[…]A systemic meltdown was avoided due to massive liquidity injections by several key central banks together with rescue packages put together by national authorities.”
Em português corrente, a Comissão Europeia entende que, até agora, aquilo de que se tratou foi de evitar o colapso do sistema financeiro através de injecções maciças de liquidez. [Para continuar a ler no Outubro]

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Promiscuidades tristes, mas bem reais

Marinho Pinto disse uma boa frase sobre uma péssima situação: há "promiscuidade entre os maus investigadores e o mau jornalismo em Portugal".

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Pedido às boas e às más almas (revisto)

Pode alguma alma, boa ou má, fazer o favor de convencer os que continuam a especular sobre a participação de José Socrates no "caso Freeport" que, depois do desmentido formal deste e da declaração do Sr. Smith no mesmo sentido, ou têm provas irrefutáveis de que ambos mentem ou devem desculpas públicas a um e a outro antes de encerrar o assunto, pelo menos no que respeita a Socrates e a Smith?
É claro que as boas almas não esperam recompensa dos seus bons actos e as más, exactamente porque o são, também não esperam que se lhes pague.
Portanto, a ideia concretizar-se-ia a custo zero, o que é sempre simpático.
E poderia ter êxito, pelo menos junto dos que prezam a isenção do que dizem ou escrevem.
E não faria mal nenhum à comunicação social, esteja em que situação financeira estiver e seja qual for o meio de difusão utilizado e a periodicidade da sua publicação.
Mais, o nível de decência e a governabilidade do país melhorariam.
Não lhes parece que é uma ideia com êxito garantido?

sábado, 24 de janeiro de 2009

Freeport

Subscrevo, na íntegra, o que Vital Moreira já deixou escrito quanto ao assunto, acrescentando apenas que ainda espero vir a viver num país com menos coincidências entre os calendários eleitorais e os escândalos envolvendo altos responsáveis do Estado, sobretudo quando eles se referem a factos que, se tiveram lugar, terão ocorrido há mais de seis anos.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Impasses lógicos

1. Segundo Mário Nogueira, a oposição ao modelo de avaliação dos professores não é mera revindicação corporativa mas a luta por uma melhor escola pública.

2. Segundo Mário Nogueira, os deputados do PS que são professores deviam colocar a sua identidade profissional acima da sua pertença partidária e votar contra o modelo de avaliação dos professores definido pelo Governo.

3. Segundo a Constituição, os deputados representam a Nação, não regiões ou profissões.

Alguém me explica como conciliar logicamente as três afirmações anteriores?

A resposta à crise segundo a OIT

Estabilizar o sistema financeiro, apoiar a criação de emprego e alargar a protecção social são os três pilares de resposta imediata à crise propostos pela Organização Internacional do Trabalho.


[Texto também publicado no Outubro.]

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Mais a quem mais precisa

O JN anunciou que “os desempregados que atinjam em 2009 o limite dos 12 meses do subsídio social de desemprego vão receber aquela prestação por mais seis meses” e que “deixa de ser contado o prazo de utilização daqueles subsídios [para efeitos de uma nova atribuição] nos casos em que os desempregados encontrem trabalho no decurso dos primeiros seis meses da utilização daquelas prestações”.

Isto é, a decisão hoje tomada pelo Conselho de Ministros vai duplamente na direcção certa: primeiro, prolonga os efeitos da garantia social da substituição dos rendimentos do trabalho dos desempregados; segundo, estimula o retorno tão rápido quanto possível ao emprego de quem o perdeu.

Elogio da clareza

Os jornais atribuem ao Ministro dos Assuntos Parlamentares afirmações que ligam a possibilidade de o Governo prosseguir com a avaliação dos professores do ensino obrigatório e secundário ao juízo que o próprio Governo fará sobre as possibilidades de que dispõe para prosseguir com a sua agenda reformista. A afirmação junta o mérito da clareza à vasta, diversificada e longa lista de factos que constituem outros tantos sinais consistentes da redução da governabilidade do país que o conflito laboral na educação vem revelando.

É por isso mesmo que a próxima votação de mais uma iniciativa do CDS-PP na campanha oportunista de redução da governabilidade e as reacções à manifestação anunciada para as proximidades do Palácio de Belém — há quanto tempo não havia manifestações por essas bandas? — serão grandes reveladores políticos.

Sábado ficaremos a saber de quê.

Obama e os direitos humanos: a primeira medida

Barack Obama pediu a suspensão dos processos judiciais especiais para os presos de Guantánamo, a fim de reexaminar o controverso sistema judicial especial criado para o efeito. Num caso destes, suspender é já agir e um acto pleno de significado. Veremos em seguida para que são usados os 120 dias de suspensão dos processos. É expectável que seja para corrigir os graves erros cometidos na gestão deste assunto pela administração Bush. Não podemos esquecer nunca que o modo como tratamos os nossos inimigos diz muito de que democracia somos.

Desigualdade e propriedade

«Analisando, para o mesmo ano (2003), os dados sobre as desigualdades no plano dos rendimentos, conclui-se que estas são agravadas quando se consideram não só os rendimentos da actividade mas também os do património: os 10% mais ricos apropriavam-se em França, em 2003, de quase metade dos rendimentos do património (46%)…»

Para continuar a ler no Outubro.

Da essencialização à des-racialização

Para ler, em La Vie des Idées, a entrevista a Pap Ndiaye, autor de La Condition Noire.
Considerando que a minoria negra (no caso, em França) não é um conjunto de pessoas com características distintivas mas “um grupo de pessoas que partilham a experiência social de serem considerados negras”, em termos discriminatórios, Pap Ndiaye defende como objectivo político não a institucionalização das relações raciais mas a “des-racialização da sociedade francesa”. Citando:

1. «On pourrait d’ailleurs remarquer qu’il a existé deux courants dans la nébuleuse de la négritude, qui n’a jamais été un mouvement organisé associativement ou même institutionnellement. Le premier courant est celui de Senghor : c’est un courant plus essentialiste, qui insiste sur les qualités propres à l’homme noir […]. De l’autre côté, on a un courant, plutôt incarné par Césaire, qui insiste sur la dimension sociale et historique de l’expérience noire. Quant à moi, je me situe plutôt dans cette perspective césairienne, en essayant de ne pas m’engager dans une voie qui pourrait essentialiser le groupe et laisser entendre qu’il existe des Noirs en vertu de qualités intrinsèques propres à ces personnes. Pour moi, il y a un groupe qui est défini par le regard qui est posé sur lui, un regard lesté de considérations historiques.»

2. «L’objectif à rechercher, me semble-t-il, est la déracialisation de la société française : le fait qu’être noir ne compte pas plus qu’une autre caractéristique physique, la couleur des cheveux ou la couleur des yeux. Il s’agit donc d’alléger l’impôt de couleur qui pèse sur les personnes.»

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Welcome President Obama!

Do discurso de tomada de posse:

[…] That we are in the midst of crisis is now well understood. Our nation is at war against a far-reaching network of violence and hatred. Our economy is badly weakened, a consequence of greed and irresponsibility on the part of some but also our collective failure to make hard choices and prepare the nation for a new age.

[…] For everywhere we look, there is work to be done. The state of our economy calls for action: bold and swift. And we will act not only to create new jobs but to lay a new foundation for growth.
We will build the roads and bridges, the electric grids and digital lines that feed our commerce and bind us together.
We will restore science to its rightful place and wield technology's wonders to raise health care's quality. Homes have been lost, jobs shed, businesses shuttered. Our health care is too costly, our schools fail too many, and each day brings further evidence that the ways we use energy strengthen our adversaries and threaten our planet […].
What the cynics fail to understand is that the ground has shifted beneath them, that the stale political arguments that have consumed us for so long, no longer apply.

[…] Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill. Its power to generate wealth and expand freedom is unmatched.
But this crisis has reminded us that without a watchful eye, the market can spin out of control. The nation cannot prosper long when it favors only the prosperous.


[…] As for our common defense, we reject as false the choice between our safety and our ideals.

[…] And so, to all other peoples and governments who are watching today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman and child who seeks a future of peace and dignity, and we are ready to lead once more.

[…] They understood that our power alone cannot protect us, nor does it entitle us to do as we please. Instead, they knew that our power grows through its prudent use. Our security emanates from the justness of our cause; the force of our example; the tempering qualities of humility and restraint.

[…] We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus, and nonbelievers. We are shaped by every language and culture, drawn from every end of this Earth.
And because we have tasted the bitter swill of civil war and segregation and emerged from that dark chapter stronger and more united, we cannot help but believe that the old hatreds shall someday pass; that the lines of tribe shall soon dissolve; that as the world grows smaller, our common humanity shall reveal itself; and that America must play its role in ushering in a new era of peace. […]

Desigualdade e fiscalidade

Ainda sobre as políticas de redução da desigualdade a partir do topo, a ilustração da relação entre fiscalidade e desigualdade. Fundamental para justificar a necessidade de uma maior progressividade dos impostos sobre o rendimento.


Relação entre fiscalidade e desigualdade de rendimentos
(não incluindo os rendimentos do capital), EUA, 1929-2006

Fontes: Urban-Brookings Tax Policy Center (link) e Thomas Piketty e Emmanuel Saez (link).


[Texto também publicado no Outubro.]

Exterioridade crítica e fractura: resposta à resposta de Elísio Estanque

O Elísio Estanque respondeu-me. Deixemos de lado as questões menores. No que interessa e nos afasta, repito, julgo que ele marca mal a distância entre a exterioridade da crítica e a lógica de exterioridade em relação ao PS. No que nos aproxima, partilho a leitura de que houve excessivo tacticismo centrista nos últimos anos e, acrescento, sem abandonar esse espaço será dificil combater eficazmente a crise.
Pessoalmente, sempre senti a necessidade do conforto da distância crítica, mesmo quando estive em funções de direcção e esta troca de posts fez-me lembrar um artigo que escrevi em tempos para o JN, sobre a função da divergência. Estou convencido da sua actualidade e de que entre a homogeneidade e a fractura há o espaço para a crítica, reforçando a diferença de opiniões e a qualidade da casa comum. Como fica claro, por exemplo, lendo o que o Luis Tito escreveu a propósito desta mesma questão.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Arrebatamentos nacionalistas, capitulações classistas

1. Nas declarações de Manuela Ferreira Leite sobre as “queixinhas” irritou-me, acima de tudo, o jogo nacionalista primário do anti-espanholismo. Jogo reforçado, aliás, nas “correcções” de Aguiar-Branco, que referiu ser aspecto central no discurso da líder não tanto o papel da comunicação social mas sobretudo a insistência de que o TGV é assunto de política interna. Sem ter ido tão longe quanto Paulo Portas, que por alturas do afundamento do Prestige afirmou ser obra de Nossa Senhora o facto de o naufrágio não ter ocorrido em águas portuguesas (mas sim espanholas), Manuela Ferreira Leite bem podia ter evitado esta tangente à direita populista.

2. Até porque, se quisesse fazer da afirmação da soberania nacional uma bandeira de combate político, não seria difícil arranjar alternativa justificável. Por exemplo, na linha do que Nicolau Santos escreveu, e bem, este fim-de-semana no Expresso sobre a falta de vergonha de empresas de rating como a Standart & Poor’s, a qual ameaça rever em baixa a classificação da República usando a mesma ligeireza de critérios que, antes da crise, a levou a atribuir a mais elevada classificação à Islândia. Aqui, porém, o preconceito ideológico foi mais forte e a capitulação classista o seu resultado óbvio.

A moção de José Sócrates: primeira leitura

O PS entendeu a natureza e profundidade da crise, sabe que foi gerada pelo neoliberalismo e diz com coragem que já não basta ajudar mais quem mais precisa. É também necessário pedir mais a quem mais tem para que se possa ajudar as classes médias a viver melhor.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Um pé dentro e outro fora

Ou eu o estou a perceber muito mal e ele pode corrigir-me, ou o Elísio Estanque escreve com um pé dentro e outro fora do PS. Pior, não o faz por hesitar, como Manuel Alegre, na relação que o seu espaço de opinião deve ter com o futuro do PS, mas por medo de um eventual novo partido ainda não estar maduro.
Respeito profundamente, umas vezes concordando e outras discordando, a reflexão que Alegre tem em curso. Acho, como ele, que é urgente uma renovação programática da esquerda que esteja disponível para põr em causa a tendência excessivamente centrista que se desenvolveu no PS. Mas se o Elísio entende que a sua relação com o PS se tornou meramente táctica e exterior, terá que conceder que essa atitude, infeliz mas logicamente, conferirá a outros legitimidade para ver da mesma maneira o espaço político em que se insere.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Só para corrigir (e com gosto) a acta da discussão sobre a esquerda e a governabilidade

O Porfírio Silva recorda "para a acta" que tem falado abertamente sobre o tema da relação do PS com a governabilidade do país. Corrijo, pois, a minha frase no post anterior. E faço-o com o gosto acrescido de, lendo-o, partilhar o sentido político do que escreveu sobre o tema na sua moção ao Congresso do PS de 2004. Quem nos conheça não deve ficar surpreendido com a consonância. Mesmo que tenha passado muito tempo sobre o período das longas conversas políticas da JS, parece-me que continuamos a ver o papel do PS no país de formas, no essencial, próximas, pelo menos a avaliar pelo que escreve no Machina Speculatrix. O que só aumenta o meu gosto em corrigir a acta da discussão com Vital Moreira.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Impostos, crise e legitimidade

Sobre a irresponsabilidade das propostas de PSD e CDS de baixa de impostos para combater a crise, já Vital Moreira disse o que havia a dizer. Há porém, neste domínio, uma questão ainda por discutir: a eventual introdução de mais um escalão do IRS, aumentando, progressivamente, o imposto sobre os rendimentos individuais mais elevados. Ligação com a crise? Claro, mas não só.

1. Esta semana, no Canhoto, chamei a atenção para o facto de o valor atingido pelos muito altos salários, que podem ultrapassar os 1.000 salários mínimos nacionais, exigir o alargamento das políticas de combate à desigualdade, que não são só políticas de redução da pobreza. Neste plano, a fiscalidade tem vantagens sobre as limitações administrativas (mais facilmente contornáveis), pelo que a parte da limitação da desigualdade a fazer a partir do topo deveria basear-se num aumento significativo da taxa máxima do imposto sobre os rendimentos pessoais mais elevados.

2. Na conjuntura actual, essa pressão fiscal teria a vantagem de contrariar um sistema de incentivos que premeia alguns dos comportamentos empresariais que contribuíram para a crise em que vivemos: as práticas de remuneração dos altos dirigentes das grandes empresas através de salários crescentemente elevados mas desligados dos resultados operacionais dessas mesmas empresas. Teria, ainda, a vantagem de reforçar a legitimidade de medidas que, sendo necessárias em tempo de crise, afectam os empregos e os rendimentos das pessoas de menor rendimento.

3. A relação entre rendimentos elevados, aumento da fiscalidade e resposta à crise financeira-económica não é nova. Como recorda Thomas Piketty, entrevistado no último número da Alternatives Économiques, a taxa mais elevada do imposto sobre rendimentos individuais nos EUA na altura de crise de 1929 era de 24%. No âmbito das políticas do New Deal, Roosevelt elevou-a para 63%, em 1932, 79%, em 1936 e 81%, em 1941. Este nível só começaria a baixar ligeiramente a partir de 1964, passando então para 77% e oscilando entre este valor e 70% até 1980. Depois, bem, depois foi a abrupta descida da taxa, com Reagan, até aos actuais 35% (ver gráfico). As eleições contam!



Taxa máxima de IRS sobre os rendimentos mais elevados nos EUA, 1929-2008
Fonte: Urban-Brookings Tax Policy Center (link).


4. Nos EUA, não num qualquer país socialista ou nórdico social-democrata, a taxa do imposto sobre os grandes rendimentos foi alta (em torno dos 80%) num período de grande crescimento económico e de forte contracção da desigualdade. O período, como sublinha Krugman, de crescimento das famosas classes médias americanas. A sua baixa não esteve apenas relacionada com o reagravamento da desigualdade para níveis equivalentes aos dos anos 20 do século passado. O crescimento exponencial dos salários dos altos dirigentes das grandes empresas que acompanhou esse desagravamento fiscal constituiu também um estímulo para a irresponsabilidade financeira de muitos dos altos dirigentes das muito grandes empresas. E, portanto, também para a crise em que hoje vivemos.

[Texto também publicado no Outubro.]

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Podem explicar-se, sff?

É bom que a esperança de vida esteja a aumentar?
É bom que mais pessoas estejam mais anos no sistema escolar e, portanto, cheguem mais tarde ao mercado de trabalho?
É bom dispormos dum sistema de protecção social sustentável, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista social?

Se respondeu, como eu, afirmativamente às três questões anteriores, então porque é que seria mau um factor de sustentabilidade da segurança social que liga as pensões ao aumento da esperança de vida verificado e tem como consequência que, quando esta aumenta, o futuro reformado pode escolher entre trabalhar mais uns meses e manter a sua pensão ou reformar-se na data que lhe corresponderia, se a esperança de vida não tivesse aumentado, e ser tratado como um reformado por antecipação?

Será que o fundamento do PCP e da CGTP – que a comunicação social irmana na crítica a esta medida – se deve à preferência por um eventual aumento indiscriminado das contribuições patronais para a segurança social?

É que, como ninguém lhes ouviu uma palavra de elogio quando o governo anunciou a intenção de reduzir as contribuições sobre o emprego sem termo e o aumento das contribuições patronais dos contratos a termo e a participação patronal nos custos da protecção social reforçada dos falsos “recibos verdes”, para além da demagogia botabaixista, não restam muitas outras hipóteses …

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Unidades de medida

É difícil ler, interpretar e comparar números muito grandes. Por isso mudamos de unidade de medida quando, por exemplo, nos referimos a distâncias astronómicas, e usamos o ano-luz.

Num plano mais terreno, quando se comparam rendimentos é possível, em geral, usar as unidades monetárias correntes. Por exemplo, segundo o Observatoire des Inégalités, os rendimentos das famílias francesas variam, em função da categoria social, entre mais de 6.000 euros líquidos no caso das profissões liberais e 1.500 a 2.000 euros para as categorias populares.

O problema é quando se passa para os rendimentos mais elevados. Aí temos, também, que mudar de unidade de medida. Por exemplo, segundo aquele mesmo observatório, Thierry Henry ganha mais de 14.000.000 de euros por ano, ou seja, o equivalente a 1.183 salários mínimos nacionais franceses. A nova unidade, salário mínimo nacional, cumpre aqui o mesmo objectivo da unidade ano-luz: torna legíveis diferenças astronómicas.

Para o caso português, o António Dornelas já fez aqui no Canhoto contas semelhantes e concluiu que, em 2006, o salário médio de um administrador executivo do BCP equivalia a 667 salários mínimos nacionais.

O outro lado da desigualdade (o topo) também precisa da atenção das políticas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sabe mesmo no que votou?!

O projecto de lei do Bloco de Esquerda votado na Assembleia de República, e rejeitado apenas pelo PS, merece ser lido.

1. As surpresas começam logo na “exposição de motivos”. As escorregadelas metafísicas pontuais, como a referência à “natureza intrínseca da educação” ou, já no corpo do articulado, à definição da escola como “uma unidade orgânica que interage com a realidade envolvente”, são o menos. Mas criticar o novo estatuto da carreira docente por ser um “sistema hierárquico artificial” é estarrecedor, pelo menos num partido que se diz de esquerda. Que eu saiba, só a direita mais conservadora defende a existência de hierarquias naturais, fundamentais para a legitimação de privilégios herdados por essa mesma direita acarinhados. À esquerda, nunca é de mais repetir que todas as hierarquias humanas são socialmente construídas, isto é, são artificiais, não dadas por Deus ou pela Natureza (com maiúscula).

2. E não foi descuido de redacção, pois no mesmo parágrafo se dá como exemplo dos efeitos perversos das ditas hierarquias artificiais “o caso de alunos orientados em estágios pedagógicos que procedem à avaliação daqueles que foram seus orientadores, formadores e avaliadores”. Releia-se, para se ter a certeza de que não houve engano. O Bloco defende a hierarquia (natural) da idade, denunciando como inaceitável a possibilidade de o antigo aluno poder vir a ultrapassar o mestre!

3. A concluir a dita “exposição de motivos”, apresenta-se o modelo de avaliação dos docentes proposto pelo Bloco. Trata-se, lê-se, de uma avaliação do docente assente na avaliação da escola e do colectivo docente. Reproduzindo para não se pensar que tresli: “A proposta de avaliação de desempenho docente assenta num modelo integrado de avaliação das escolas, concedendo prioridade ao trabalho cooperativo e à responsabilidade colectiva pelo efectivo sucesso escolar dos alunos…” Sobre a responsabilidade docente individual, nada.

4. Quanto ao projecto de lei propriamente dito, todo ele é compatível com esta orientação no sentido da diluição da responsabilidade individual. Assim, para organizar o processo de avaliação, são propostas comissões de perfil mais parlamentar do que executivo. Exemplo: “O processo de avaliação interna das escolas é acompanhado e monitorizado por uma equipa de avaliação com representantes de toda a comunidade escolar, nomeadamente, representantes dos seus órgãos colegiais eleitos, representantes dos professores, do pessoal não docente, pais e alunos ou ainda representantes sindicais.” Como forma de evitar as tão contestadas horas intermináveis de reunião apontadas como um dos problemas iniciais da avaliação era impossível inventar melhor.

5. Como era impossível inventar melhor mecanismo de eliminação dos efeitos diferenciadores da avaliação do que garantir ao avaliado a possibilidade de escolha de parte da equipa de avaliação, ou mesmo, no caso da chamada “avaliação extraordinária do desempenho”, dos critérios dessa avaliação. Citando: “O docente avaliando […] tem direito à determinação de uma parte do júri, e é co-decisor do período e modalidades de prestação das provas, em termos a regulamentar.”

6. Por fim, o toque pós-moderno e, para isso, nada melhor do que o centramento no texto em detrimento do acto. Em todo o projecto, a “observação de aulas” é sistematicamente apresentada como uma possibilidade entre outras, dependente do acordo do avaliado, nunca como obrigatória. Em alternativa, são valorizados os relatórios sobre a actividade docente e, em especial, o relatório de auto-avaliação. É como se num exame de condução a avaliação das competências para conduzir pudesse dispensar a avaliação dessas competências na prática da condução, sendo substituída por um discurso do examinando sobre essas mesmas competências.

7. A todos os que votaram a proposta do Bloco. Sabe mesmo, mas mesmo, no que votou?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A esquerda dos interesses

«Afirmar, em geral e em abstracto, a defesa dos interesses dos trabalhadores é afirmar nada sobre a natureza de esquerda das propostas que se fazem. Os interesses não são legítimos ou ilegítimos em função da natureza dos interessados mas em função da natureza desses mesmos interesses. Uma nova esquerda não pode, por isso, voltar a ser a velha esquerda dos interesses.»

Para continuar a ler no Outubro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Porque não defendo a táctica do tabu sobre a governabilidade do país

Vital Moreira voltou ao tema dos anúncios prévios de fórmulas de governo pós-eleitorais. Como tenho sido, julgo, a única pessoa do PS a falar abertamente do tema, acho que é útil que esclareça o que penso e porque o penso.
Defende ele que o PS não deve fazer nada que desfoque o eleitorado do seu objectivo que é o da renovação da maioria. Concordo com ele nesse ponto, mas chamo a atenção para o carácter aleatório das reivindicações de maioria absoluta. O PS nunca teve, nem nas últimas eleições, resultados que possam dar-lhe a confiança antecipada numa maioria absoluta. Pequenas variações no nível de votação do maior partido ou na distância entre este e o segundo partido podem dá-la ou tirá-la. Daí que a táctica erija o resultado em argumento e nos devamos perguntar, antes, o que podemos fazer hoje para tornar mais possível uma maioria absoluta do PS.
Vital Moreira pensa que esconder o jogo amplia a base eleitoral. Eu apenas penso que há conjunturas em que sim e outras em que não. Por razões conjunturais, não creio que hoje o PS ganhe capital de simpatia e apoio popular por aparecer aos eleitores como um partido arrogante que se julgue o detentor único de soluções para o país.
Por outro lado, por razões de fundo, penso que erra se der ao eleitorado o sinal de que é equidistante de todos os partidos à sua esquerda e à sua direita. O PS não tem procurado e não deve procurar ser o centro rigoroso do sistema político. Julgo que deve partir da esquerda para a cnquista do centro, ganhar quando o consegue e perder quando deixa que a direita o conquiste, em vez de tentar transformá-lo no seu lugar natural.
Como pode, então, um partido de esquerda que ambiciona a maioria absoluta, apresentar a questão da governabilidade do país sem a comprometer?
Penso que o PS deve balizar-se pelo reconhecimento da existência de duas reacções negativas no eleitorado em relação à governabilidade do país pelo PS: (a) há sectores que se mobilizam para que haja um Primeiro-Ministro do PS mas não se mobilizam para que ele tenha maioria absoluta (que julgo serem hoje muito superiores aos que se mobilizam para uma maioria absoluta seja de quem for); (b) há um balanço negativo dos governos minoritários do PS e das consequências de enfrentarem coligações negativas entre esquerda e direita.
Julgo ainda que deve ter presente que o próximo ano decorrerá sob uma crise económica em risco de agravamento constante e que o tempo não estará para governos frágeis.
A minha divergência com Vital é do domínio da avaliação dos efeitos eleitorais de um tabu sobre a governabilidade do país. Ele está absolutamente convencido que ele potencia eleitoralmente o PS, porque admitir explicitamente que pode não ter maioria absoluta o diminui e porque admitir implicitamente que pode haver coligações com qualquer partido excepto o CDS/PP faz fugir ou eleitorado ao centro ou eleitorado à esquerda. São axiomas que fazem parte da família das leis políticas que os resultados eleitorais de vez em quando desmentem.
Em contraponto, penso que o PS deve aparecer como o partido que garante que fará um governo forte para enfrentar a crise respeitando as escolhas dos eleitores. E deve, antecipadamente, assumir as suas responsabilidades e confrontar cada um dos outros partidos com as deles.
Excluir o partido mais à direita do espectro político, que tem posições xenófobas, chantageia o eleitorado com temas de segurança e tem uma liderança hoje totalmente encostada a todos os temas que se prestem ao populismo seria um sinal de seriedade e de que o PS não quer, de modo nenhum, pactuar com delírios autoritários de direita nem com demagogos populistas.
Deixar claro que o país tem que ser governado no respeito pelos seus compromissos internacionais e com sensibilidade social, sendo os políticos suficientemente humildes perante os eleitores para lhes confiarem abertamente uma quota parte de responsabilidade nos destinos do próximo governo para além da confiança no partido vencedor, parece-me que aumentaria a nossa credibilidade à esquerda e à direita.
Acresce que os portugueses têm dado sinais crescentes de que o tema da governabilidade é um tema em que querem ter voz, ao contrário do que as agendas partidárias têm postulado.
Há, contudo, um ponto em que concedo razão a Vital Moreira, porque vejo o risco de tornar confortável para cada segmento do eleitorado optar por partidos que não tentam ganhar, para que tentem influenciar o que vencer e o efeito agregado desse comportamento seja a diminuição eleitoral do maior partido. Assumo essa limitação e por isso não transformo o que defendo em postulado mas em ponto para discussão, coisa que acho quepodia ser feita até ao Congresso do PS. Depois, a tese que vencer deveria ser defendida com disciplina. E tudo aponta para que seja a de Vital Moreira. Ou seja, a convicção de que o tabu é mais rentável que a confrontação de cada partido com as suas responsabilidades. A entrevista de José Sócrates à SIC, contudo, matou o tema. Respeito.
Finalmente, a questão dos acordos com o CDS. A minha posição é clara e é pública: um governo do PS viabilizado pelo CDS que hoje existe daria razão aos que dizem que o PS abandonou a esquerda. Aí, diga a táctica o que disser, passa-se uma fronteira que, nas condições políticas de hoje, acho que devia ser inequivocamente estanque. Mas compreendo que se o tema das alianças for matéria interdita,não se queira excluir nada. Felizmente para os defensores desta táctica não há risco de o MRPP ou a PNR elegerem deputados, porque se houvesse também eles não deveriam ser abertamente excluidos para não se violarem as matérias interditas.

Desiludam-se os que querem renovar a esquerda com o BE - resposta a Luis Tito

O Luis Tito reagiu ao meu texto sobre a renovação da esquerda e a relação com o BE com a franqueza que lhe agradeço.
Com a mesma franqueza lhe asseguro que nunca estive e não estou entre os que viram nas iniciativas políticas que Manuel Alegre vem tendo uma instrumentalização do BE e nem sequer entre os que as receberam mal.
Mas também lhe digo que não me parece muito certeiro ser ao mesmo tempo crítico da direcção do PS e acrítico da direcção do Bloco de Esquerda. Luis Fazenda e Francisco Louçã não são apenas militantes livres do BE. São, de facto, seus dirigentes de topo e o que digam não pode ser tratado como se representassem correntes ultraradicais e minoritárias. Juntos, eles lideram as correntes que fazem a larga maioria do BE. Por isso o que pensem sobre a relação entre o BE, a esquerda e o país tem que ser tratado como espelhando, até prova em contrário, a vontade do BE.
Em textos anteriores, incluindo uma polémica com um editorialista do Esquerda.net, já coloquei as minhas questões e já tive respostas suficientes, aliás, concordantes com o que Fazenda agora escreve.
Penso que o BE tem demonstrado recorrentemente que a sua liderança não está preparada para fazer rupturas consigo mesma e, não o estando, faz parte do problema que Manuel Alegre já identificou bem. Penso que O BE não anda (pelo menos não anda ainda) à procura de novas vias para a esquerda, ao contrário de Manuel Alegre e do que o próprio BE faz crer.
Para mim, o texto de Luis Fazenda não deixa dúvidas sobre o que ele pensa neste momento do papeis do seu partido e do PS na esquerda, nem de quem ele tem como parceiros e como adversários políticos. Como já não as tinha deixado uma notícia anterior sobre palavras de Francisco Louçã.
Se o Luis Tito entende que quem define o PS como estando fora da sua aritmética e o coloca entre os adversários, respeito a sua opinião mas discordo. Se ele não entendeu do texto de Luis Fazenda que ele define o PS como seu adversário, então, digo-lhe apenas que quem leu mal, não os sinais mas as palavras, foi ele e não eu.
O Tito não precisaria que lhe reafirmasse a estima com que escrevo isto nem que lhe repetisse que acredito completamente na boa vontade com que organizou e participou no Forum das Esquerdas. Quanto a este último ponto, apenas lhe digo que há quem seja de esquerda e acho que este Governo não está a destruir a escola pública nem a capitular perante os neoliberais na regulação do trabalho, embore tenha linhas de reforma com alguns aspectos a discutir e,mesmo, a rever.
O pior serviço, acho, que se poderia fazer às vossas iniciativas seria assimilá-las àquilo a que António Costa chamou a esquerda do não. Mas essa tendência só pode ser contrariada por vós, querendo, se reflectirem não apenas sobre os que pretendem criticar mas também sobre a postura dos companheiros de jornada que escolherem ou aceitarem.
Por mim, digo apenas que me revejo plenamente na necessidade de encontrar novas vias para a esquerda, que ambicionem transformar a sociedade, mas estou longissimo de pensar que a atitude de futuro para a esquerda em Portugal seja a defesa da conservação do modelo social a que chegámos.

(Publicado também no Banco Corrido)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Os conselhos de Keynes a Roosevelt:

Numa conversa sobre política, o Pedro Adão e Silva recordou-me hoje a famosa carta aberta de Keynes a Roosevelt, em Dezembro de 1933.
Na história nada se repete totalmente mas também quase nada é totalmente novo. Os conselhos de Keynes merecem ser relidos e ouvindo o Primeiro-Ministro parece que estão entre as suas fontes de inspiração. Eu recomendaria a releitura aos conselheiros do Presidente Cavaco Silva e de Manuela Ferreira Leiet. Descobri na net o texto integral. Aqui pode ler os conselhos da parte final. Querendo, encontrará ali o texto integral. Escrevia Keynes:

If you were to ask me what I would suggest in concrete terms for the immediate future, I would reply thus.

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In the field of gold-devaluation and exchange policy the time has come when uncertainty should be ended. This game of blind man's buff with exchange speculators serves no useful purpose and is extremely undignified. It upsets confidence, hinders business decisions, occupies the public attention in a measure far exceeding its real importance, and is responsible both for the irritation and for a certain lack of respect which exists abroad. You have three alternatives. You can devalue the dollar in terms of gold, returning to the gold standard at a new fixed ratio. This would be inconsistent with your declarations in favour of a long-range policy of stable prices, and I hope you will reject it. You can seek some common policy of exchange stabilisation with Great Britain aimed at stable price-levels. This would be the best ultimate solution; but it is not practical politics at the moment unless you are prepared to talk in terms of an initial value of sterling well below $5 pending the realisation of a marked rise in your domestic price-level. Lastly you can announce that you will definitely control the dollar exchange by buying and selling gold and foreign currencies so as to avoid wide or meaningless fluctuations, with a right to shift the parities at any time but with a declared intention only so to do either to correct a serious want of balance in America's international receipts and payments or to meet a shift in your domestic price level relatively to price-levels abroad. This appears to me to be your best policy during the transitional period. In other respects you would regain your liberty to make your exchange policy subservient to the needs of your domestic policy--free to let out your belt in proportion as you put on flesh.

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In the field of domestic policy, I put in the forefront, for the reasons given above, a large volume of Loan-expenditures under Government auspices. It is beyond my province to choose particular objects of expenditure. But preference should be given to those which can be made to mature quickly on a large scale, as for example the rehabilitation of the physical condition of the railroads. The object is to start the ball rolling. The United States is ready to roll towards prosperity, if a good hard shove can be given in the next six months. Could not the energy and enthusiasm, which launched the N.I.R.A. in its early days, be put behind a campaign for accelerating capital expenditures, as wisely chosen as the pressure of circumstances permits? You can at least feel sure that the country will be better enriched by such projects than by the involuntary idleness of millions.

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I put in the second place the maintenance of cheap and abundant credit and in particular the reduction of the long-term rates of interest. The turn of the tide in great Britain is largely attributable to the reduction in the long-term rate of interest which ensued on the success of the conversion of the War Loan. This was deliberately engineered by means of the open-market policy of the Bank of England. I see no reason why you should not reduce the rate of interest on your long-term Government Bonds to 2½ per cent or less with favourable repercussions on the whole bond market, if only the Federal Reserve System would replace its present holdings of short-dated Treasury issues by purchasing long-dated issues in exchange. Such a policy might become effective in the course of a few months, and I attach great importance to it.

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With these adaptations or enlargements of your existing policies, I should expect a successful outcome with great confidence. How much that would mean, not only to the material prosperity of the United States and the whole World, but in comfort to men's minds through a restsration of their faith in the wisdom and the power of Government!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Desiludam-se os que queiram renovar a esquerda com o Bloco

Se Luis Fazenda representa o Bloco no debate sobre a chamada convergência das esquerdas, desiludam-se os que pensam que há um caminho possível pela via do diálogo com a que se julgava ser a ex-extrema-esquerda. O sectarismo continua e a face política dialogante a aberta é apenas uma fachada táctica para o mesmo combate que há décadas elege a social-democracia como inimigo principal.
Não participei na iniciativa "democracia e serviços públicos" porque pensava - e acho que o tempo me dará razão - que Manuel Alegre pretendia genuinamente reflectir sobre aquilo a que chama renovação da esquerda mas os seus parceiros de iniciativa do Bloco apenas prentendiam fazer um número mediático paraunitário, que tinha para eles o encanto adicional, que trotskistas e marxistas-leninistas sempre procuraram, de juntar em torno da sua estratégia personalidades vindas da social-democracia e do movimento comunista.
Adicionalmente, pareceu-me que as escolhas dos oradores eram pouco plurais. De facto, nos painéis pelos quais tinha mais apetência, havia pessoas vindas de vários movimentos políticos, mas um só pensamento sobre as reformas em curso: ser contra.
Há coisas em que me revejo e outras de que discordo nas reformas dos serviços públicos que este Governo lançou, mas não vejo por onde se pode pensar que a única atitude de esquerda possível é arrasá-las. Não é assim que vejo o pensamento crítico da esquerda nem é assim que acho que seja possível encontrar para ela novas vias ou renová-la.
Os que, como eu, se situam politicamente na esquerda social-democrata a que, tentando apoucá-la, a extrema-esquerda se habituou a chamar reformista, não devem desistir da crítica nem podem desistir de representar um bloco social de transformação maioritário e devem lutar politicamente por isso. Acredito que essa é também a posição de Manuel Alegre e de muitos dos que estão com ele. Mas tenho dúvidas muito fortes de que o BE tal qual é hoje e se espelha na leitura da situação política de Luis Fazenda seja reconvertível em parceiro dessa estratégia.
É verdade, penso, que há no PS excessos de moderação, quer dizer, de pensamento liberal-social e de receio das forças conservadoras. Mas é mentira que os partidos socialistas em geral e o PS em particular se tenham transferido,como diz Luis Fazenda, para as "concepções neoliberais da burguesia conservadora".
Há, aliás, hipocrisia no elogio das virtudes passadas da social-democracia por contraponto aos hipotéticos vícios presentes. O campo político de Luis Fazenda disse há décadas daquilo que hoje reconhece ter sido "uma política reformista a favor das classes trabalhadoras" exactamente o mesmo que diz agora das reformas actuais.
Na minha opinião, a extrema-esquerda continua a falhar o alvo. Está obcecada com o enfraquecimento do PS quando deveria estar empenhada em derrotar as forças conservadoras. Prefere amalgamar o PS e a direita para ganhar uns votozinhos descontentes e subir no ranking das extremas-esquerdas mundiais a procurar uma visão estratégica que lhe permita influenciar os destinos do país.
O Bloco não se emancipou dos partidos de que nasceu. Apenas sabe que tem que esconder a sua agenda para manter peso eleitoral. No texto de Luis Fazenda o gato está escondido. Quem, de esquerda, discorda de que se procure "convergêncis na orientação económica de redução drástica das desigualdades sociais, no papel do estado e dos serviços públicos, no motor da cultura e da educação"? Quem recusa compromissos na "da remodelação do modelo produtivo, à ecologia abrangente, às alterações europeias"? Se fosse esta a agenda e com este nível de generalidade, o Bloco poderia entender-se não com Manuel Alegre mas com a actual direcção do PS e até com vastos sectores do PSD e um ou dois deputados do CDS. Mas não é. No texto de Luis Fazenda o gato tem o rabo de fora apenas nas equívocas "alterações europeias" (o que quererá dizer?) e na única exigência concreta, a da "desvinculação do bloco militar da NATO".
Que distância entre a imutabilidade deste Bloco e a metamorfose dos Verdes alemães nas duas últimas décadas!
Essa distância explica, aliás, porque num texto sobre "convergência", o líder parlamentar do BE sente necessidade de pôr travão a qualquer convergência.
Convergência em relação a quê? Para uma alternativa de esquerda contra quem? O PSD? O PSD e o CDS? O Bloco Central? Não. Para Fazenda é mesmo só contra o PS, com o truque de dizer que é contra a "política neoliberal do PS". Esta diferenciação entre o PS e os seus militantes, entre o PS e as suas políticas, já o PCP faz há 30 anos. Nada acrescenta o BE aos termos do debate, no que ao PS diz respeito.
Convergência de que modo? Acredito que é necessária uma renovação programática da esquerda mais do que a sua reformulação orgânica. Mas há quem aposte nessa reformulação orgânica, que só faria sentido se criasse um pólo das esquerdas responsáveis. Desiludam-se os que pensam que o BE quer ser parceiro desse processo. Para Fazenda, o BE tem um "pluralismo no ideal socialista [que] é bem conhecido" e "a alternativa de poder de que fala Manuel Alegre não é seguramente o socialismo". Traduzindo para português corrente: nem Alegre passa no crivo da pureza ideológica de Fazenda. Daí que lhe feche completamente as portas ao mesmo tempo que o convida a fazer um partido para dividir o PS. Elementar!
Pensar que o Bloco tinha mudado o suficiente para ser um parceiro da renovação da esquerda portuguesa talvez seja o maior erro político de Alegre nesta conjuntura.
Infelizmente os socialistas que querem renovar a esquerda têm poucas companhias no actual panorama partidário em que que esquerda à esquerda do PS está minada pela utopia autoritária do comunismo, pelo sectarismo ou pela combinação de ambos.
Dentro do PS, a tentação centrista é gigantesca. Mas a renovação programática da esquerda continua a passar em Portugal essencialmente por essa batalha dentro e não fora ou ao lado do PS. Será a tentação popular mais forte que a pulsão de esquerda? Será a crise uma ocasião para mais facilmente pôr em causa os atavismos? Francamente, não sei.

Registo Parlamentar - Dezembro de 2008

Decidi dar conta da actividade parlamentar num newsletter artesanal online. O primeiro, referente ao mês de Dezembro, já está acessível aqui e na barra lateral do Banco Corrido. Para receber por mail basta assinalar essa vontade para paulopedroso@ps.parlamento.pt.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Os pró-ocidentais da Ucrânia não vão ter vida fácil


A Ucrânia passou os últimos anos a tentar ser um país ocidental com o apoio dos EUA. Mas estes falharam o projecto de colocar o país na NATO, em grande parte por falta de disponibilidade de países-membros da União Europeia.
O ano de 2009 abriu com um novo episódio na guerra do gás. A Rússia fechou a torneira à Ucrânia e sente-se falta de pressão nos países que o recebem por esta via, apesar de ser negado que ele esteja a ser desviado.
Em entrevista à BBC, o vice-presidente da Gazprom aproveita a situação para defender a necessidade de diversificar as vias de acesso do gás natural russo à Europa ocidental, ou seja de fazer um bypass à Ucrânia (e à Polónia).
O mapa mostra a rede actual. O projecto russo-alemão através do Mar Báltico, hoje presidido pelo ex-chanceler Schroeder, vai mudar a situação dentro de alguns anos e pode ainda ser completado por outro raço, a sul, que evita, de novo, a Ucrânia, mas através do Mar Negro. O que acontecerá então à Ucrânia? A realpolitik manda que se deixe cair de novo para a esfera russa e o país está dividido politicamente ao meio. Sem grandes mudanças políticas e com a Alemanha numa parceria estratégica com a Rússia cada vez mais evidente, não é de crer que os pró-ocidentais da Ucrânia tenham vida fácil ou contem com grandes apoios exteriores.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O Sol anda enganador

No passado fim de semana escreveu-se no Sol: o PR prepara-se para levantar obstáculos à promulgação do Orçamento do Estado. Hoje, confrontado com a promulgação sem esses obstáculos, foge em frente, põe online que noticiou na sua edição de sábado que o presidente ia manifestar publicamente reservas ao diploma e aposta agora no discurso de Ano Novo. O que se dirá depois de amanhã que estava escrito hoje?
O Sol anda enganador. Será agente ou vítima das manobras de contra-informação a que se presta?

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Dados anómalos, hipóteses reformuladas

«Talvez antes de amaldiçoar os dados não seja má ideia relacionar as duas anomalias e colocar a hipótese interpretativa óbvia: em Portugal, para o nível médio de insucesso contribui decisivamente o resultado de uma orientação anómala das práticas educativas…»

Para continuar a ler no Outubro.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Economicismo

«O termo tem uma história longa nos debates à esquerda, sendo usado há décadas para criticar o determinismo económico marxista exercido, sobretudo, pelos que do marxismo apenas conhecem a mais vulgar das vulgatas marxistas. Hoje, é generalizadamente praticado pelos que tudo criticam como tendo orientações economicistas.»

Para continuar a ler no Outubro.

Crise mundial: as exportações do Japão cairam 26,7% em relação ao ano anterior


Já não há dúvidas de que as ondas de choque da crise mundial se farão sentir por bastante tempo. De momento são visíveis três crises dentro da crise: a do sistema financeiro, a dos mercados mundiais e a orçamental.

Hoje a Reuters noticia o seu impacto nas exportações japonesas. Estas cairam 26,7% em relação ao mês homólogo, devido à valorização do yen e à diminuição da procura de produtos electrónicos, automóveis e outros bens nos mercados asiáticos, incluindo a China.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Observatório das Desigualdades

Foi publicamente apresentado, no passado dia 17 de Dezembro, o Observatório das Desigualdades, “uma estrutura independente constituída no quadro do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (CIES-ISCTE), que é a instituição responsável pelo seu funcionamento e coordenação científica, tendo por instituições parceiras o Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (IS-FLUP) e o Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores (CES-UA)”.

Na apresentação da página em linha do Observatório, de consulta obrigatória por quem se interessa pelas temáticas da desigualdade, afirma-se ainda que este “para além de promover o conhecimento científico nesta área, […] está em condições de contribuir para a fundamentação e avaliação das políticas públicas em Portugal, constituindo-se, deste modo, como um instrumento fundamental de investigação e de divulgação científica”.

A sessão de apresentação incluiu uma conferência de Carlos Farinha Rodrigues sobre “Desigualdade salarial e trabalhadores de baixos salários”, bem como comunicações de Luísa Oliveira e Helena Carvalho (“Regulação e precariedade de emprego: Portugal no contexto europeu”), António Dornelas (“Quão reguladora é a regulamentação colectiva do trabalho?”), José Luís Casanova (“Pobreza, classes sociais e modos de vida), Susana da Cruz Martins (“Padrões de vida”), Bernardo Coelho (“Prostitutas acompanhantes desiguais entre si”), Ana Caetano (“Os usos sociais da fotografia privada”), Patrícia Ávila (“Adultos, literacia e desigualdades”), Rosário Mauritti (“Transições geracionais no limiar da vida adulta”) e Frederico Cantante e Margarida Barroso (“Projectos de vida de jovens com baixas qualificações escolares”). Os power points destas apresentações podem ser consultados aqui.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Tempo de trabalho: um bom sinal do Parlamento Europeu

O Parlamento Europeu aprovou, por proposta do deputado socialista espanhol Alejandro Cercas, uma resolução que “defende que a duração máxima do trabalho semanal na UE, em média anual, deve ser de 48 horas, sem excepções, propondo que o opt-out que permitiria que chegasse até às 65 horas semanais seja revogado três anos após a entrada em vigor da directiva relativa ao tempo de trabalho. Para o PE, ao contrário do Conselho, o período inactivo do tempo de permanência é considerado tempo de trabalho. O texto, hoje alterado pelos deputados, voltará ao Conselho para conciliação com o PE”.

Esta decisão tem a maior importância porque (i) repõe nos termos adequados o debate sobre a duração e a flexibilidade do tempo de trabalho, (ii) força a conciliação entre a decisão adoptada no Conselho Europeu e a decisão agora tomada e, por isso mesmo, (iii) renova a esperança numa regulação do tempo de trabalho que não descaracterize o(s) modelo(s) social(ais) europeu(s), numa fase em que o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias vem somando decisões que não apenas não favorecem o desenvolvimento da dimensão europeia como, além disso, põem em causa os sistemas de regulação dos mercados de trabalho ao nível nacional.

O jogo político não está ainda jogado quanto a este assunto e nada indica que a conciliação entre o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu seja fácil. Mas, ao recusar quer as derrogações muito prolongadas desejadas por alguns Estados-membros, quer a unilateralidade patronal na flexibilização do tempo de trabalho, a decisão conhecida esta semana abre uma porta de esperança para uma recalibragem socialmente equilibrada do modelo social europeu. Merece, pois, o apoio dos europeístas favoráveis à reforma e ao desenvolvimento da dimensão social europeia.

Um país esmagado pelo Estado

«Os quatro países nórdicos tiveram, todos, em 2007, um nível de receita pública superior a 50% do PIB, variando entre 53% na Dinamarca e 58% na Noruega. Por comparação, aquele mesmo indicador teve em Portugal o valor de 43%, ligeiramente abaixo da média da UE (46%). Claro que se pode sempre mudar o padrão de referência e passar a emular, por exemplo, os países bálticos.»

Para continuar a ler no Outubro.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Desistentes

1. Quando a intervenção do Estado na economia é vista como indesejável mas necessária por colapso dos mercados, o excesso de pragmatismo liquida o mínimo de princípios. Não surpreende pois que ontem o PSD tenha, pela voz do seu líder parlamentar, manifestado tão violenta oposição à troca de dinheiro por regras que o ministro das Finanças quer impor, e bem, aos bancos: o Estado concede garantias à banca mas exige desta que faça chegar o crédito aos agentes económicos.

2. Se Paulo Rangel criticou o condicionamento dos apoios aos bancos, Francisco Louça criticou o apoio aos bancos e propôs a quadratura do circulo: garantir os depósitos nos bancos sem garantir a sobrevivência dos bancos onde estão esses depósitos. Do pragmatismo sem princípios do PSD passámos, num ápice, aos princípios sem pragmatismo do BE. Típico de quem se auto-exclui das responsabilidades da governação.

3. Responsabilidades que exigem controlo real, não discursivo, da evolução da crise. Por isso espanta a crítica de Paulo Rangel: “[o Governo] está a fazer planos para o emprego sem ter ideia nenhuma do desemprego expectável”. Jean Monnet não deixaria de lhe dedicar parte do seu famoso discurso de 1952 sobre a construção da Europa (e já por mim citado no Canhoto): “Nada há de mais estéril que antecipar, no contexto do presente, as questões que se colocarão apenas no futuro, quando o objecto da nossa acção é, precisamente, transformar o contexto actual”.

4. Insistindo na previsão do futuro por troca com a definição do futuro pela acção no presente, o PSD junta-se, por portas e travessas, ao BE, desistindo também das responsabilidades da governação.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um país de doutores

«…olhando para alguns dados comparativos, a afirmação, surpreendentemente feita em tom pejorativo, deve ter por destinatários a Finlândia ou a Coreia do Sul, ambos com taxas brutas de escolarização no ensino superior para além dos 90%.»

Para continuar a ler no Outubro.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Diversidade migratória

«Um dos mitos recorrentes sobre as migrações internacionais associa estreitamente migração e pobreza. Os factos não o comprovam.»

Para continuar a ler no Outubro.

Da crise

Michel Aglietta
La crise. Pourquoi en est-on arrivé là ? Comment en sortir ?
Éditions Michalon, 2008, 128 pp.

Neste pequeno livro em formato de bolso, Aglietta analisa a crise e discute as possíveis respostas à mesma. Num momento em que tanto se discute sobre a justiça ou injustiça de algumas opções governamentais em Portugal, e em que o BE abriu a época dos chamamentos populistas com o cartaz “o Governo protege os banqueiros”, vale a pena citar, em tradução livre, a conclusão do capítulo 7 (“Comment gérer la crise?”):

«A intervenção dos Estados permite limitar as perdas e absorver parte delas para manter a economia à tona. A um período de recessão fraca deverá suceder um difícil período de baixo crescimento. O custo final da crise deverá pois conduzir a uma redução do crescimento, com consequências sobre o emprego e o poder de compra, bem como ao reforço da pressão fiscal, preço para salvar os bancos. Ou seja, a perdas irrecuperáveis em consequência do excesso de crédito anterior. É pagar caro, na verdade! Mas será um custo infinitamente menor do que o que pagámos com a terrível depressão económica, com todo o seu cortejo de misérias, que o mundo conheceu na sequência da crise de 1929.»

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Três questões sobre a crise

«Para além das explicações sobre as causas da crise, a urgência das respostas exige alguma reflexão.»

Para continuar a ler no Outubro.

E é isto a renovação da esquerda?

Se o que se discutiu no Fórum das Esquerdas no painel sobre educação é exemplo do que se discutiu noutros painéis, e tudo leva a crer que sim, a renovação da esquerda em Portugal não passa por ali.

1. A questão da educação em Portugal é preocupante, como já o referi noutros textos publicados no Canhoto (por exemplo aqui e aqui). Somos um dos países da OCDE com pior desempenho educativo em todos os planos: menores taxas de escolarização à medida que vamos subindo nos graus de ensino, elevadas taxas de repetência só superadas pelas taxas observadas na África subsaariana, um dos maiores índices de desigualdade inter-escolas de entre todos os participantes no PISA, etc., etc.

2. Perante esta situação, só através de uma redefinição radical do papel da escola pública, recolocando-a no centro das políticas de qualificação escolar e de redução da desigualdade escolar, será possível recuperar o atraso acumulado. Este tem sido, desde a primeira hora, o objectivo da política educativa do actual Governo, objectivo que pode ser facilmente ilustrado com três exemplos (entre muitos outros possíveis). Em primeiro lugar, com a requalificação do primeiro ciclo, fechando as escolas-cárceres com meia dúzia de alunos e desenvolvendo a escola a tempo inteiro com horários mais alargados e actividades de enriquecimento curricular. Em segundo lugar, promovendo o sucesso escolar e a captação de alunos ao abandono escolar com a criação de milhares de novos cursos profissionais, em poucos anos, na escola pública secundária. Finalmente, ampliando, numa escala sem precedente nos últimos anos, os apoios sociais aos alunos e às famílias, em particular através do financiamento público das refeições e dos manuais escolares.

3. Domingo, 14 de Dezembro, reuniu o Fórum das Esquerdas, em Lisboa. Segundo o Público, “o tema era a educação [mas] o debate […] acabou por centrar-se nos professores”, em particular “na avaliação dos professores”. Sobre os alunos e a sua formação e sucesso, para além das oportunidades de partida, isto é, sobre a missão da escola pública, pouco ou nada. O mesmo na intervenção final de Manuel Alegre. A sua proclamação geral sobre a necessidade de defesa da escola pública fez-se acompanhar de uma única referência concreta à questão educativa: a avaliação dos professores. Sobre as políticas concretas que permitem aquela defesa, de novo nada. Inevitavelmente, fez-me lembrar o célebre episódio da série Yes Minister sobre o maravilhoso hospital sem doentes.

4. Se isto é pensamento alternativo de esquerda, estamos conversados. Noutros tempos, porém, a confusão entre interesse geral nos serviços públicos e interesse dos servidores públicos seria classificada como característica do projecto da “sociedade burocrática”, não de um qualquer projecto de renovação da esquerda…

domingo, 14 de dezembro de 2008

Faz de conta que é uma espécie de avaliação

A Plataforma Sindical dos Professores tinha proposto uma "solução transitória" para a avaliação de desempenho. A FENPROF presta o serviço público de a divulgar. Partindo da auto-avaliação, "preferncialmente através de documento de reflexão" complementada por hetero-avaliação e assiduidade conduziria aos seguintes resultados:


"1.Tendo em conta a existência de quotas e as claras injustiças surgidas no ano transacto em virtude da ausência de critérios claros e objectivos que pudessem ser aplicados, não deverão ser atribuídas menções qualitativas que não sejam as de "Insuficiene", "Regular" ou "Bom", até porque esta é matéria para negociação futura;
2. Em qualquer dos casos, transitoriamente, a atribuição das menções de insuficiente e de Regular não produz efeitos
."


Ou seja, não haveria professores com muito bom nem com excelente e aos que tivessem insuficiente ou regular, "transitoriamente" o resultado não produzia efeito. É ler para crer. Alberto João Jardim já tinha chegado ao mesmo resultado por simples portaria.

Afinal, a Plataforma não tinha mesmo qualquer proposta alternativa de avaliação de desempenho, estava apenas a fazer de conta, a ver se os dias passavam sem que nada acontecesse.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Uma notícia sobre Guantanamo que nos orgulha

A Ana Gomes enviou aos seus colegas do Parlamento Europeu uma mensagem que dá gosto ler a qualquer português que defenda os direitos humanos. Diz ela, e eu subscrevo, na sequência da iniciativa do Governo Português de ajudar os EUA a fecharem Guantanamo:

"Espero que apreciem o alcance desta iniciativa por parte de Portugal e que instem os vossos governos a tomarem passos semelhantes, a fim de encerrar este capítulo vergonhoso das relações transatlânticas e de começar a assumir as responsabilidades europeias pela cooperação estendida à Administração americana cessante no quadro do chamado "programa das rendições extraordinárias."

Se isto não é promover o progresso social…

Cerca de 155 mil pessoas que desempenham a sua actividade enquanto trabalhadores independentes vão passar a beneficiar de protecção social na doença.
Sempre quero ver o que é que algumas alminhas que se reclamam da esquerda e que se comprazem na crítica às decisões do governo têm para dizer sobre isto. Será que ignorarão o facto? Ou optarão por o desvalorizar?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A crise como oportunidade

A carta aberta enviada por John Monks, Secretário-geral da Confederação Europeia de Sindicatos, ao Conselho Europeu de hoje e de amanhã é um bom contributo para a definição duma agenda de debate das soluções para a saída da crise actual do capitalismo europeu.

E é-o porque, incluindo o apoio a medidas de limitação dos efeitos da crise, vai além disso e esboça os termos do debate do que serão as soluções necessárias: uma nova articulação entre o nível europeu e os níveis nacionais de decisão sobre um novo quadro regulador que reconstrua as sinergias entre um crescimento económico sustentável e o aumento da margem de liberdade para o desenvolvimento de políticas salariais e de trabalho que não estejam tão sujeitas às regras da “economia de casino”, que o neoliberalismo criou e cujo modelo alternativo a esquerda reformista ainda não foi capaz de conceber e de apresentar com sucesso aos eleitorados europeus.

É que, para além das indispensáveis medidas de contenção da crise sistémica induzida pelas bolhas especulativas criadas pelo sistema financeiro, é esse o desafio que está diante de nós: criar um novo sistema de regulação dos mercados financeiros, económicos e de trabalho, dos sistemas de emprego e dos sistemas de protecção social. Menos do que isso é, como bem sublinha John Monks, business as usual, quer dizer, um modo de desculpabilização recíproca entre a “Europa” e os governos dos Estados membros, que deixa fora da agenda o ponto essencial: a criação dum novo modelo de articulação virtuosa entre o crescimento económico, a redução das desigualdades induzidas pelos mercados e a promoção da equidade social.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Serendipidade

1. É, segundo Robert Merton (pai, o sociólogo), um dos modos como se manifesta o poder criador da investigação empírica. Neste modo extremo, a descoberta do dado imprevisto mas estratégico conduz o investigador a formular uma nova teoria. Noutros casos menos extremos, o poder criador da investigação empírica manifesta-se em descobertas que pressionam no sentido da reformulação, recentramento ou clarificação da teoria.

2. Esta relação de maior interdependência entre trabalho teórico e trabalho empírico distingue o conhecimento científico e técnico da mera proclamação doutrinária e da retórica descontrolada. “Afinal”, como refere ainda Merton, “a teoria sólida só prospera com uma dieta rica em factos pertinentes” (Sociologia: Teoria e Estrutura, p. 181).

3. Quando se avaliam as políticas públicas, é útil reter esta discussão de Merton sobre “as funções teóricas da investigação”. Nomeadamente quando se discutem os méritos e deméritos de novas propostas de políticas, conviria não fixar como objectivo a inacção até à descoberta do modelo perfeito de política, ou de tentar definir este numa lógica conservadora minimalista, eliminando todas as dimensões em relação às quais seja possível antecipar, em termos estritamente lógicos, um qualquer efeito indesejável.

4. À paralisia induzida pela busca da perfeição e ao conservadorismo que resulta da hiper-antecipação de efeitos perversos há que opor uma concepção de políticas públicas que incorpore o valor da experimentação bem temperada. Isto é, de uma concepção em que, salvaguardadas temporariamente as pessoas de eventuais riscos negativos irreversíveis associados à aplicação de novas políticas, o enunciado destas admita à partida a possibilidade da sua correcção ou reformulação a partir da experiência da sua aplicação. O que requer, como é óbvio, a criação de espaços partilhados de monitorização dessa experimentação.

5. Infelizmente, a retórica anti-reformista, à direita como à esquerda, no discurso político como no mediático, recusa admitir a naturalidade da imperfeição e o valor da experimentação no aperfeiçoamento do trabalho social. Substituindo-a pela reivindicação da perfeição, sabe-se lá se de natureza divina, anula, na prática, qualquer possibilidade de inovação.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A propaganda tem limites

Jorge Pires, da Comissão Política do PCP, veio dizer que “o Governo aceitou pela primeira vez em dois anos de luta discutir com os sindicatos sem exigências ou questões prévias”.

De certeza absoluta que Jorge Pires ouviu Mário Nogueira dizer, diversas vezes, coisas como esta: “Para nós é fundamental que a Sr. ministra assuma, no início da reunião, que a avaliação está suspensa. Se o fizer, a reunião poderá continuar, se não o fizer, a Fenprof retirar-se-á, porque não discute nada com o Ministério da Educação, sem que o pressuposto base esteja devidamente alcançado pelos professores.”

Hoje, Mário Nogueira abdicou da sua exigência de que a avaliação teria que ser suspensa para começar qualquer negociação com o Ministério da Educação. Isso incomoda o PCP. Mas, como para o estalinismo a propaganda não tem limites, Jorge Pires reage com “duplipensar”. Felizmente, nas democracias do século XXI não é possível apagar personagens das fotografias, regravar edições audio ou video nem falsificar edições de jornais. Azar de Jorge Pires, que parece não conhecer os limites da propaganda.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A Dra. Manuela Ferreira Leite tem seguidores

A Dra. Manuela Ferreira Leite tem seguidores no Canadá. Ainda não são seis meses, mas o Parlamento foi fechado seis semanas para impedir um voto de censura ao Governo.

A retórica anti-reformista (2)

Para concluir a troca de textos com André Freire (no Ladrão de Bicicletas).

1. À minha afirmação de que a concertação exige não só disponibilidade do Governo mas também dos principais sindicatos, André Freire responde que na educação o problema não é entre Governo e sindicatos mas entre Governo e professores. Pois, mas a concertação faz-se entre organizações com capacidade de representação, não entre uma organização (neste caso o Governo) e uma qualquer entidade inorgânica (neste caso os professores). E não adianta dizer que neste caso os sindicatos foram ultrapassados pelas “bases” e por isso tiveram que romper compromissos e cavalgar o momento. Quanto mais não seja porque uma tal atitude de curto prazo compromete seriamente o essencial do suporte da lógica da concertação: a confiança nos acordos firmados entre as partes. Acresce que o argumento dos sindicatos a deixarem-se arrastar pelas bases para impedir o poder de cair na rua é de um total contra-senso: se a representação não consegue introduzir no movimento um mínimo de racionalidade negocial o poder reivindicativo já está na rua.

2. À minha acusação de enviesamento ideológico André Freire responde que se trata de afirmação que carece de “base empírica” porque há outras pessoas, de “elevado prestígio académico”, acrescenta, que partilham a sua opinião sobre as políticas de educação. Estranho método de validação empírica, o recurso a citações de terceiros, ou seja, o que classicamente se chamam os “argumentos de autoridade”. É, mais uma vez, o primado da retórica, agora surpreendentemente em tom de João Carlos Espada: “são, sem sombra de dúvida, palavras sábias desta prestigiada jornalista”; ou, “José Madureira Pinto (Público de 9/3/08), um eminentíssimo sociólogo português”; ou ainda, “Manuel Villaverde Cabral, outro eminentíssimo sociólogo e historiador português” (sublinhado por mim). Para terminar não falta sequer o recurso à citação do autor do mais conservador pensamento social publicado: “análise contundente do prestigiado filósofo José Gil”. Estilos.

3. Sem comentários a referência ao meu “proselitismo partidário” que se limita a confirmar o fatal “eu socialista? Cruzes, credo, canhoto!”.

As formas do mundo (2)

Continuando a usar os mapas do Worldmapper.
Tornada invisível no mapa do PIB, a África destaca-se no mapa da pobreza. Noutras regiões do mundo com menos pobreza esta manifesta-se sobretudo nas condições de habitação: os bairros de barracas impõem-se na paisagem urbana da América Latina (e de África), enquanto o subcontinente indiano se destaca negativamente pela sobre-ocupação do alojamento (e também a África, sempre). Neste três indicadores, um outro facto saliente: a descolagem da China em relação ao mundo mais subdesenvolvido.


Pobreza (2002)
© Copyright 2006 SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan).


População a viver em barracas (2002)
© Copyright 2006 SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan).


População a viver em alojamentos sobre-ocupados (2002)
© Copyright 2006 SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan).

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O que está em causa na proposta de suspensão da avaliação dos professores?

Há cerca de um mês deixei aqui dito que há limites que um democrata não pode tolerar que sejam ultrapassados, seja qual for a sua posição sobre o conflito dos professores.

Uma coisa é um desacordo quanto a pontos substantivos do sistema de avaliação dos professores ou de qualquer outro tópico do seu estatuto profissional. Para problemas dessa natureza, as democracias têm soluções institucionalizadas que vão do diálogo e da negociação directa entre os representantes legalmente competentes das partes em litígio, aos sistemas de mediação e de arbitragem, que são típicas dos sistemas maduros de relações laborais e que são accionáveis quando o diálogo e a negociação deixam de produzir resultados aceitáveis para o normal funcionamento das instituições democráticas.

Mas, depois do memorando de entendimento negociado e assinado entre o Ministério da Educação e os sindicatos dos professores que assumiram a responsabilidade jurídica da greve de ontem, já não é apenas disso que se trata. Julgo, por isso, que J.M. Paquete de Oliveira coloca bem a questão mais relevante do dia seguinte à última greve dos professores, quando afirma que esta “[…] já não é contra o processo de avaliação proposto pelo Ministério, já não é contra o Ministério ou contra a própria ministra, contra o Governo. E, em última análise, já nem é contra o sistema de ensino. É contra o sistema de governo.” Por isso, “[…] pôr como condição para conversações de possível entendimento a retirada do modelo é desafiar o próprio sistema da governabilidade democrática. Fica aberto um caminho sem retorno. O modelo agora em jogo é o da avaliação do sistema.

É claro que os sindicatos têm o direito de discordar — por boas ou por más razões — das decisões dos governos e de manifestar essa discordância por todos os meios que a Constituição e a lei lhes asseguram, neles se incluindo, evidentemente, a greve política. E é igualmente claro que os partidos da oposição podem escolher vias mais ou menos populistas — ou, pelo contrário, mais ou menos fundamentadas — de oposição aos governos democráticos em funções.

Num caso como noutro, a questão é política e o resto, como se disse uma tarde no Terreiro do Paço, “é só fumaça”. Mas já não é compatível com o regular funcionamento das instituições democráticas que um conflito profissional — seja ele qual e entre quem for — ponha em causa o sistema constitucional de governo e as competências próprias de cada órgão de soberania. Uma decisão governamental legítima, ainda por cima baseada num acordo com os sindicatos representativos dos professores, não pode ser suspensa apenas porque a “rua” se manifestou com veemência. É aí que, goste-se ou não, a questão muda de natureza e que a lista dos protagonistas relevantes se alarga, ainda que se mantenham resguardados no silêncio.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Trabalhar para a realidade

«Um dos chavões mais equívocos dos últimos tempos é o depreciativo “trabalhar para as estatísticas”.»

Para continuar a ler no Outubro.

As formas do mundo (1)

Já tinha usado no Canhoto alguns mapas-mundo construídos por deformação das áreas em função de um diferente critério estatístico, como a população ou o PIB. O António Dornelas já usou também estes mapas e referiu o sítio Worldmapper, onde têm vindo a ser compilados. Uma chamada de atenção no último número da Sciences Humaines fez-me revisitar este projecto em linha desenvolvido por investigadores das universidades de Sheffield e de Michigan que reúne já cerca de 600 daqueles mapas, dos quais 366 disponíveis em posters formato PDF com informação acessória: cada vez mais imperdível. A deformação das áreas permite visualizar com facilidade as mais variadas distribuições, sendo particularmente útil como indicador simples das múltiplas desigualdades internacionais, nem sempre totalmente convergentes.

Hoje, publico três mapas básicos, comparando a área, população e riqueza das nações do mundo. Em próximos textos, o mapa da população será acompanhado por mapas sobre indicadores de pobreza, de desenvolvimento cultural e científico e, finalmente, da mobilidade internacional física e virtual. Dos mapas de hoje, o mais impressionante resultado das deformações é o que faz quase desaparecer a África quando o tamanho dos países é representado em função do seu PIB (em paridades de poder de compra): apenas “sobra” um pouco do Norte de África e, sobretudo, a África do Sul.


Área
© Copyright 2006 SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan).


População (2002)
© Copyright 2006 SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan).


PIB (2002, em paridades de poder de compra)
© Copyright 2006 SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan).

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Contra os almoços grátis: dinheiro por regras

Portugal é um país com um elevadíssimo nível de desigualdade social induzida pelo mercado, insuficiente corrigida pelas transferências sociais e pela política fiscal.

E é este país está a fazer um esforço gigantesco para salvar instituições bancárias que, por diversas razões, estão em crise.
Mas, se existem razões suficientes para, mesmo num país como o nosso, consagrar tanta energia e tantos recursos públicos para permitir que o BPP, o BPN e o BCP continuem no mercado, seria inadmissível que o esforço público que está a ser feito não fosse acompanhado da alteração das regras do jogo entre o poder político e o sistema financeiro.
Primeiro, porque, como os suscessivos casos estão a mostrar, as regras em vigor não passaram a provas dos factos. Mantê-las seria, pois, alimentar um sistema incapaz de suportar sem o apoio público as consequências dos seus actos, lícitos ou ilícitos.
Segundo, porque, num país com grandes níveis de carências sociais em múltiplos domínios, a atribuição ao sistema financeiro de recursos materiais e simbólicos da dimensão que está em causa só não será uma gigantesca iniquidade social se forem instituídas novas regras que (i) previnam novas crises deste tipo no futuro e (ii) assegurem que os bens públicos estão a ser usados para salvaguardar, mesmo que apenas indirectamente e a prazo, a posição dos que são socialmente mais fracos e mais carenciados.
Caso contrário, a moral da história seria a de que a regra de que não há almoços grátis - de que os neoliberais tanto gostam - passaria a ter uma excepção, aplicável aos que, duma maneira ou doutra, comem apenas o que gostam ... e arranjam modo de mandar a conta aos que comem apenas o que podem.

A escola mudou, mudemos as regras

«Vale a pena ler na íntegra a entrevista de François Dubet no último número da revista Sciences Humaines (199, de Dezembro de 2008), aqui disponível em linha. Umas quantas citações livremente traduzidas revelam porquê.»

Para continuar a ler no Outubro.

A retórica anti-reformista (1)

Respondendo ao texto de André Freire no Ladrão de Bicicletas que, por sua vez, constituía uma réplica a este meu texto aqui no Canhoto.

1. Em Portugal, o estatuto fundacional das universidades baseia-se numa lei específica: a Lei 62/2007, mais conhecida por RJIES (de regime jurídico das instituições do ensino superior). Como referi no meu texto, essa lei permite flexibilizar a gestão das instituições universitárias que optarem pelo estatuto de fundação pública com regime de direito privado mas preserva a sua missão pública, nomeadamente porque mantém para as fundações universitárias o regime geral de acesso comum a todas as instituições públicas (artigo 135.º do RJIES), bem como o valor das taxas a cobrar pelo serviço prestado, que continuarão a ser as propinas públicas definidas por lei para todas as entidades públicas de ensino superior (n.º 4 do artigo 136.º). O RJIES estipula ainda que os estudantes destas fundações são abrangidos pelo sistema de acção social escolar nos mesmos termos dos estudantes das demais instituições de ensino superior públicas (artigo 137.º), que os vínculos com a função pública dos seus funcionários são mantidos com a transformação em fundação (n.º 4 do artigo 134.º), e que o modelo de organização é o mesmo das restantes universidades públicas (n.º 1 do artigo 133.º). Sobre estes “pormenores” concretos André Freire nada diz, contra-argumentando em termos gerais com suspeitas sobre desenvolvimentos futuros na base de outras experiências fundacionais (não identificadas) e com a invocação permanente dos perigos da “agenda neoliberal”. Ou seja, contrapõe a um discurso factualmente referenciado um pronunciamento ideológico abstracto, quando o que está hoje em jogo não é a possibilidade em abstracto do estatuto fundacional mas um modelo específico desse estatuto, concretizado no RJIES. É um estilo, mas um estilo que não facilita a troca racional de argumentos.

2. Entre as invocações da “agenda neoliberal”, não falta a referência à OCDE. Sem substituir por uma visão angelical a visão conspirativa de André Freire sobre o “papel das instituições internacionais (Banco Mundial, FMI, OCDE, etc.) na promoção da globalização neoliberal”, que recusa o reconhecimento de qualquer diversidade entre as organizações que cita, vale a pena colocar, pelo menos, uma pequena dúvida. Se bem percebo, quando André Freire se preocupa, hoje, em Portugal, com o problema do facilitismo na escola, estará a promover uma agenda de esquerda. Pelo contrário, quando a OCDE propõe dez passos para promover a equidade na educação e, neste âmbito, se preocupa com a repetência, estará a promover uma agenda neoliberal. Por que me parece estar assim colocado o mundo de pernas para o ar?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Teses de dezembro

(...para tudo o mais igual...)

1. A possibilidade de captura de um serviço público por interesses corporativos é directamente proporcional ao grau de centralização desse serviço.

2. A possibilidade de institucionalização do conflito numa sociedade democrática é directamente proporcional ao grau de concertação social nessa sociedade.

3. A possibilidade de manutenção de um sistema de concertação social eficaz é inversamente proporcional ao grau de desrespeito pelos resultados da prática de concertação.

4. Numa sociedade democrática, a possibilidade de conflito não institucionalizado num processo de reforma é directamente proporcional à amplitude dessa reforma, à intensidade da oposição de interesses em confronto e ao grau de ineficácia da concertação social.