quarta-feira, 8 de junho de 2005

Faz o que eu faço, não o que eu digo…

Muito gosta a nossa direita do exemplo britânico de Blair.
Pois eu também, pelo menos no que à política económica do New Labour diz respeito.
Gosto, sobretudo, do programa keynesiano de crescimento económico por via do crescimento do investimento e do emprego públicos: entre 1998 e 2004, o governo de Blair criou 860 mil novos empregos públicos, mais do que compensando assim o crescimento negativo do emprego privado (menos 120 mil empregos em 2003). O ambicioso programa de investimentos públicos realizado no Reino Unido desde 2001, que incluiu a renacionalização dos caminhos-de-ferro, fez passar a parte das despesas públicas no PIB de 37%, em 2000, para 42,8%, em 2003. Como o peso dos impostos no PIB se tem mantido estável em torno dos 40%, o investimento público foi financiado com recurso ao crédito, o que fez com que de um excedente orçamental de 3,9% do PIB, em 2000, se tenha passado, em 2003, para um défice de 3,2%.
Sejamos sérios. Todo este investimento, que suportou um ritmo de crescimento da economia, do emprego e dos salários, das exportações e do consumo sem paralelo, nos últimos anos, nos restantes países da UE, só foi possível porque, no seu primeiro mandato, Blair saneou as finanças públicas de modo radical. Mas o que fica claro da história britânica é que, para a esquerda, o saneamento das finanças públicas é instrumental — visa criar condições para restaurar a capacidade pública de dinamização do desenvolvimento económico e social.
Assim seja, também, em Portugal…

Para saber mais, ver, de Guillaume Duval, “Un Tony Blair peut en cacher un autre”, Alternatives Économiques, 225, Maio de 2004, pp. 32-35. Para um contacto refrescante com algo de diferente do cinzentismo da ortodoxia neoclássica, ver o sítio desta revista em
http://www.alternatives-economiques.fr