Canhoto, de novo
O Rui Pena Pires e eu decidimos voltar ao Canhoto. Para as visitas menos antigas digo que esse foi o blogue que ele fundou em maio de 2005 e a que desde o início associou o António Dornelas e eu próprio.
As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: «Se te libertas morres!». As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. [Amin Maalouf, Origens]
O Rui Pena Pires e eu decidimos voltar ao Canhoto. Para as visitas menos antigas digo que esse foi o blogue que ele fundou em maio de 2005 e a que desde o início associou o António Dornelas e eu próprio.
Inserido por
Paulo Pedroso
às
18:57
Inserido por
Paulo Pedroso
às
23:38
Não é justo crucificar Paulo Futre por causa do sonho chinês. Compare-se com o exemplo dos reitores portugueses: um honoris causa em pacote concedido ao Reitor da Universidade de Macau.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
16:47
1. Uma eleição não é um conjunto de referendos. Quando se exprime eleitoralmente a preferência por um partido não se referenda o programa desse partido. Dizer pois, como o faz Tiago Mota Saraiva, no 5 Dias, que a maioria dos eleitores votou contra o programa eleitoral do PS revela pouca compreensão das regras do jogo democrático.
2. Mais, quando se quer retirar de uma votação conclusões sobre assuntos que não foram a votos, como o faz Tiago Mota Saraiva, abusa-se do mandato dos eleitores. E assim se desliza, invocando em vão os valores da democracia, para uma posição antidemocrática.
3. Em resumo, é preciso respeitar, à letra, as regras do jogo democrático. Não por excesso de formalismo, mas porque essas regras constituem a própria substância da democracia.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
17:51
Em França, segundo a Alternatives Économiques, o Estado processou, nos tribunais, nove empresas da grande distribuição por práticas de abuso de posição dominante em relação aos seus fornecedores.
1. A possibilidade de abuso de posição dominante constitui o poder económico em poder oligárquico e impede a desejável democratização dos mercados. Em consequência, dificulta-se o aparecimento de novas empresas bem como o desenvolvimento das médias empresas já instaladas, reduzindo-se quer a concorrência entre empresas quer a mobilidade nos mercados. Por outras palavras, reduzem-se severamente os benefícios do mercado, nomeadamente nos planos da inovação e do crescimento.
2. Em Portugal, o abuso de posição dominante é prática corrente. Como é prática corrente a demissão do Estado no combate a essa prática. Ora, sem intervenção pública é impossível contrariar o abuso, pois esse só é possível pelos diferenciais de poder em confronto e, portanto, pela vulnerabilidade das pequenas e médias empresas à chantagem das grandes, independentemente da lei. Entre o fraco e o forte só a interposição do Estado pode reequilibrar a relação de forças e repor as condições de funcionamento democrático dos mercados.
3. Esperam-se, com alguma impaciência, notícias de Portugal convergentes com as que nos chegam de França.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
09:00
Para garantir a sustentabilidade da anunciada retoma é preciso que algo mude mesmo. Antes de mais, é preciso garantir que o desenvolvimento perverso do sistema financeiro, nas últimas décadas, seja radicalmente invertido.
1. Esse desenvolvimento perverso teve entre as suas componentes mais importantes uma complexificação descontrolada. Como se sabe, a possibilidade de desenvolvimento controlado da complexidade requer simplificação no plano operativo, por especialização, e complexificação dos processos de regulação das partes especializadas. No mundo da finança tudo se passou ao contrário.
2. No plano operativo, complexificaram-se os produtos financeiros e aboliram-se grande parte das fronteiras que especializavam os diferentes actores, organizações e actividades que compunham o sector financeiro da economia. A complexificação dos produtos introduziu opacidade no funcionamento dos mercados financeiros e dificultou o controlo dos seus resultados. A indiferenciação de actores, organizações e actividades incrementou exponencialmente o risco sistémico, tanto em termos extensivos como intensivos, e dificultou o controlo do seu funcionamento.
3. Ora, quando se exigia mais regulação, por serem maiores as dificuldades de monitorização dos mercados, os principais decisores políticos optaram por limitar, simplificar e dispensar boa parte da regulação financeira construída no pós-guerra. Simplificação da regulação combinada com complexificação da operação dos mercados financeiros teve o resultado que se conhece.
4. Hoje, a sustentabilidade das respostas à crise exige um caminho inverso assente em dois princípios fundamentais: re-especialização das actividades financeiras e desenvolvimento dos instrumentos e normativos da sua regulação. Se nada for feito nestes dois domínios, não apenas num deles, até já crise.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
09:00
1. Entre outros meios, com a generalização da corrupção, como se sabe.
2. Mas também com a denúncia demagógica de que “o regime se tornou numa enorme rede de corrupção” e a imputação da exclusividade da coisa aos partidos. À Vasco Pulido Valente (VPV), portanto.
3. Com aquele toque de insuportável snobismo de classe a que nos habituou, VPV retrata no Público o que chama “a carreira de um corrupto”. Que começaria tipicamente, afirma VPV, pela inscrição num partido (PS ou PSD). Afirmação que carece de prova, prática substituída nos escritos de VPV pela repetição da mesma acusação tantas vezes quantas as necessárias para a sua naturalização.
4. Quando o assunto em causa é o da corrupção, uma das mais irritantes práticas a que nos habituou o ambiente mediático em que vivemos foi a da estigmatização dos partidos como álibi para todos os restantes actores com intervenção na esfera política. A começar pelos média. Outra prática irritante é a sistemática suspeita de que a mobilidade social estará ligada à corrupção, crime de que estariam magicamente afastados os bafejados pela lotaria social do nascimento. Também com dispensa de prova, jogando-se agora com o preconceito e a inveja como mecanismos de naturalização da suspeita.
5. A permanente manifestação pública de nojo pelos partidos e a sistemática caracterização destes como máquinas de corrupção ameaçam de morte a democracia, pois afastam os cidadãos da prática institucionalizada da política. E fazem, assim, de VPV um inimigo declarado da democracia.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
09:00
Segundo Carvalho da Silva, no Público (ainda com José Manuel Fernandes), a presença de Valter Lemos no Emprego é um sinal “absolutamente desastroso” do Governo.
1. Carvalho da Silva tem um pequeno problema com as regras do jogo democrático e com o fair play institucional. Compete ao primeiro-ministro, não ao secretário-geral da CGTP, a selecção e a nomeação dos membros do seu Governo, com os seus critérios, não os do secretário-geral da CGTP, entre pessoas da sua confiança política, não da confiança política do secretário-geral da CGTP. O que acharia Carvalho da Silva de intervenções do primeiro-ministro, o actual ou qualquer outro, a propósito de escolhas da CGTP para os seus órgãos de direcção?
2. Carvalho da Silva tem também um pequeno problema com os factos. Segundo ele, “Valter Lemos foi a referência mais forte da conflitualidade com os professores” no anterior Governo. Ora, enquanto secretário de Estado da Educação, Valter Lemos foi responsável pela colocação (a tempo e horas) dos professores, pela reorganização da rede escolar ou ainda pelo Programa Novas Oportunidades (em colaboração com o Ministério do Trabalho). Não teve, porém, o pelouro da negociação com os sindicatos dos professores. Este era de Jorge Pedreira, a quem coube, até por isso, a gestão dos processos de revisão da carreira docente e da avaliação (para além do dossiê dos manuais escolares). Basta consultar a delegação de competências de então.
3. Ou seja, Carvalho da Silva repete uma das últimas intervenções de José Manuel Fernandes, em que este, com aquele rigor factual que o tornou uma referência no jornalismo português, criticava a escolha de Valter Lemos para o Emprego e a Formação Profissional por este ser, entre outras coisas, o autor das tão contestadas fichas da avaliação. Adaptando a canção, “afinal havia outro…”. Substituir os factos pelo preconceito não resulta nem em bom jornalismo nem em intervenção política recomendável.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
15:12
1. Quando o que está em causa é o acesso à informação necessária para o escrutínio dos mercados, a Europa ainda tem muito para aprender com os EUA. E este é um dos requisitos-chave de qualquer estratégia eficaz de regulação mais democrática dos mercados.
2. No Bruegel, por exemplo, chama-se a atenção para as diferenças entre os relatórios recentemente publicados pelas autoridades de supervisão bancária dos EUA e da UE, sobre a situação dos bancos neste início de retoma. No primeiro caso, o relatório inclui informação sobre cada banco, no segundo apenas informação agregada sobre o conjunto dos bancos.
3. Ora, sem mudanças na supervisão bancária ao nível europeu, que devem incluir exigências de mais transparência na actividade dos principais actores financeiros, ficamos sem garantias sobre a sustentabilidade da retoma. Nomeadamente, a partir do momento em que o sistema bancário ficar sem o air-bag dos apoios públicos.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
19:38
1. Se é verdade que interesse público e interesse profissional não estão necessariamente em conflito, também é verdade que não são necessariamente convergentes. Por isso, quando no discurso dos seus promotores a causa pública num sector não se distingue da causa dos profissionais desse sector, é mais do que provável que estejamos perante uma causa corporativa. Por exemplo, quando na defesa do serviço nacional de saúde os doentes desaparecem atrás de médicos e outros profissionais de saúde, ou quando a afirmação do valor da escola pública pode ser feita ignorando alunos e famílias.
2. No sítio do PCP anuncia-se: “PCP em defesa da Escola da Pública”. Na notícia explica-se: “Numa reunião com a Federação Nacional de Educação (FNE), assim confirmando uma convergência objectiva entre as preocupações dessa estrutura sindical com as iniciativas e posições do PCP. Avaliação de desempenho, horários, estatuto de carreira docente, prova de ingresso, concursos de colocação e municipalização da Educação foram alguns dos temas sobre a mesa e sobre eles, uma vez mais, o PCP reafirmou o seu compromisso de firme combate, em defesa da Escola Pública, Gratuita, Democrática e de Qualidade para todos.”
Inserido por
Rui Pena Pires
às
08:00
>
Fonte: Economic Policy Institute, State of Working America 2006-07, Table 5.1, citing Wolff (2006), em Inequality.org.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
18:36
1. Esta devia ser fácil: porque, verdadeiramente, ninguém o desafiou politicamente. E, também, porque uma eleição não é um tribunal. Felizmente.
2. Numa eleição estão em causa, e devem estar em causa, escolhas políticas. Convém, por isso, quando se quer ganhar eleições, desafiar politicamente o concorrente, sobretudo se este parte com a vantagem de obra feita.
3. A derrota dos concorrentes de Isaltino foi, em resumo, consequência da desvalorização da política.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
18:12
1. Ainda a recuperação vai no adro e já recomeçam as práticas de remuneração dos CEO que tanto debate causaram no auge da crise: prémios desligados dos resultados, montantes remuneratórios centenas de vezes superiores aos salários médios dos trabalhadores, remuneração em stock-options, … (ver, para um ponto da situação, “Salaires des patrons: la dérive continue”, por Guillaume Duval, na edição em linha da Altérnatives Économiques). E a coesão social, sobretudo em tempos de desemprego, em risco de se transformar numa miragem.
2. Em reacção a estas práticas remuneratórias, têm surgido propostas de controlo administrativo visando a imposição de tectos ao rendimento dos altos dirigentes empresariais. Como todos os controlos administrativos deste tipo, relativamente fáceis de ultrapassar e indutores do crescimento de novas funções burocráticas.
3. E, no entanto, não é preciso inventar a pólvora, apenas recordar a história recente. Nos EUA, a relação entre o rendimento médios dos presidentes dos conselhos de administração das 50 maiores empresas e o salário médio dos trabalhadores dessas empresas passou de 39 para 367 entre meados da década de 60 e início dos anos 2000. Ou seja, a desigualdade de rendimentos entre administradores e trabalhadores foi multiplicada por dez nesse período. Ao mesmo tempo, a taxa máxima de IRS passou de 70% para menos de 40%, isto é, foi reduzida a metade (ver figura). Em conclusão, a impostos mais progressivos corresponde menos desigualdade remuneratória, a impostos menos progressivos corresponde crescimento descontrolado dos salários das chefias empresariais.
4. Dissuadir as actuais práticas remuneratórias dos altos cargos de direcção empresarial exige, em resumo, incrementar de novo o âmbito e a progressividade do imposto sobre o rendimento de pessoas singulares, não introduzir controlos administrativos novos.
Altos salários e fiscalidade, EUA, 1936-2003
Fontes: Carola Frydman e Raven E. Saks (2005), Historical Trends in Executive Compensation 1936-2003; Urban-Brookings Tax Policy Center.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
09:00
1. No Ladrões de Bicicletas, pedido de empréstimo, Miguel Serras Pereira reage à imputação, a Augusto Santos Silva, da comparação de Manuela Ferreira Leite com a anarquista espanhola. Tendo em conta o texto da reacção, ou Miguel Serras Pereira não leu o que disse Augusto Santos Silva ou decidiu sacralizar o anarquismo.
2. Recorde-se a frase, citando-a: “Habituei-me a ver a posição da líder do PSD mas no BE ou no MRPP, que é a posição do anarquista espanhol que diz ‘se há um Governo, sou contra’”. Interpretar esta frase como uma crítica não a Manuela Ferreira Leite mas ao anarquismo (espanhol) só fazendo por ignorar o que é uma figura de retórica, possibilidade impensável num autor e tradutor com a competência de Miguel Serras Pereira.
3. Resta, por isso, a sacralização do anarquismo e a reivindicação da sua superioridade moral e política em relação a outras ideologias como, por exemplo, o comunismo. E essa é reivindicação que não aceito. O anarquismo partilha com o comunismo a bondade de alguns ideais gerais, como o da crítica da desigualdade, socioeconómica ou hierárquica. Mas partilha também com este quer equívocos fundamentais na crítica da modernidade, quer práticas políticas de combate violento totalmente inaceitáveis. Só faltava que os simpatizantes da ideia anarquista se sentissem dispensados da crítica (e da autocrítica) radical que se exigiu e exige, e bem, ao campo do comunismo.
4. Entre os equívocos do anarquismo está a denúncia do Estado como forma absolutamente negativa de organização social. Equívoco, porque os malefícios do Estado não podem ser avaliados por comparação com uma qualquer realidade idealizada, mas com os efeitos terrenos da sua inexistência ou diminuição empiricamente observáveis. A ausência ou fragilidade do Estado, hoje, geram sempre um domínio absoluto do mais forte sobre o mais fraco, figurativa e literalmente. E esse não é mundo que se recomende. Não admira, aliás, que deste equívoco resultem, mais frequentemente do que se pensa, significativas porosidades entre os campos do pensamento anarquista e do pensamento neoliberal, particularmente nos EUA.
5. Práticas de combate político violentas associadas a algumas correntes anarquistas e presentes, por exemplo, na Guerra Civil de Espanha, não só são de todo injustificáveis, como não são alheias ao equívoco acima referido. Entre o domínio absoluto do mais forte sobre o mais fraco enquanto consequência não intencional do anti-estatismo e o fascínio por esse domínio e pelas culturas de violência que lhes estão associadas, vai um passo já dado por muitos em muitos locais. Como vai no mesmo sentido, ainda que de modo mais mitigado, o fascínio pela ética e pela corporação militar que permitiu que um mesmo autor, no caso Robert A. Heinlein, fosse por uns classificado como fascista e por outros como libertário, dependendo do posicionamento do crítico no contínuo esquerda-direita do espectro democrático.
6. Dir-se-á que estes exemplos são derivas extremas de um pensamento essencialmente decente e bondoso. O mesmo disseram, durante anos, os marxistas sobre o socialismo real. Até se perceber que entre as derivas históricas e o núcleo do pensamento originário não havia apenas perversão mas também continuidade lógica. Compreensão que faz falta no campo do anarquismo e que a sua sacralização procura evitar. Nada que não seja conhecido por quem teve outros percursos.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
12:42
1. O disco:
Cecilia Bartoli,
Sacrificium
com Il Giardino Armonico, dirigido por Giovanni Antonini
2 CD + hardcover com 152 pp.
Decca, Universal, 2009
Primeiro, para ouvir, depois, para ler, por fim, para pensar um pouco.
2. Esta é uma compilação de música para castrados, produzida sobretudo em Itália ao longo do século XVIII. Primeiro, porque às mulheres estava interdito o pronunciamento nas igrejas, inclusive cantando, depois, e sobretudo, por procura de vozes potentes e agudas para a ópera, a castração de jovens, antes da puberdade, teve uma procura crescente em Itália. Estima-se que, no auge dessa procura, entre 1720 e 1730, seriam castrados, anualmente, a sangue frio, cerca de 4000 jovens italianos, maioritariamente de origens sociais mais pobres. Destes, meia dúzia conseguiria um estatuto de estrela, depois de um treino intensivo de anos em escolas de canto.
3. No coração da história cultural europeia, não nas suas margens, estabeleceu-se assim uma tradição que poderia rivalizar com a da ablação do clítoris ainda hoje praticada em muitas zonas de África. Tradição que viria a ser politicamente derrotada no contexto da reunificação italiana, apesar de ter sobrevivido ainda algumas décadas mais no Vaticano.
4. O que ilustra algo que, por mais de uma vez, referi já no Canhoto. A história da modernidade não é a história longa de uma tradição específica que distinguiria a Europa de outros espaços civilizacionais, mas a história de uma vitória, na Europa, de um projecto civilizacional novo contra a tradição europeia.
5. Não faz por isso sentido o raciocínio de que não são universalizáveis os valores fundamentais desse projecto civilizacional novo por desadequação em relação às tradições vigentes noutras partes de mundo. Em todo o mundo, a vitória dos valores humanistas e universalistas que estão na base dos direitos humanos foi, é e será a vitória da razão contra a tradição. Como o foi na Europa.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
09:00
A continuidade de Mariano Gago à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
1. Boa notícia, porque significa continuidade com as políticas que estão a permitir a reforma necessária do ensino superior.
2. Má notícia, porque significa a continuidade de uma prática política tão negativa quanto positivo tem sido, no essencial, o desenho daquelas políticas. Nomeadamente, pela deslealdade processual nas relações com as instituições que tutela e pela tomada discricionária de decisões baseadas em critérios não públicos e, por isso, impossíveis de escrutínio e de avaliação crítica.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
12:45
1. Depois da dimensão da vitória de António Costa e do PS, a novidade em Lisboa foi a facilidade com que Santana Lopes ressuscitou da morte política que lhe tinha sido vaticinada. Facilidade que precisa de ser explicada.
2. Em minha opinião, essa explicação é simples: Santana não deixou de ser primeiro-ministro sobretudo por razões politicamente relevantes. A crítica política, repito, política, do Governo de Santana foi sistematicamente subalternizada enquanto se insistia, em troca, na crítica das suas “trapalhadas” na prática da governação.
3. A insistência na crítica das “trapalhadas” teve, e tem, três consequências: em primeiro lugar, empobrece o debate político; em segundo, desloca a avaliação do exercício do poder político para os média, reforçando o poder de facto destes e a transformação da política em espectáculo mediático; e, por fim, tem efeitos intensos no curto prazo mas efémeros a médio/longo prazo.
4. A ressurreição de Santana é, em resumo, consequência da desvalorização da política.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
08:00
1. Começo por reafirmar o que já disse aqui no Canhoto: “Classificar as escolas (…) a partir das notas dos seus alunos constitui exercício intelectualmente desonesto”. Porquê? Porque há escolas que podem escolher os seus alunos e outras que não o podem fazer. Podem escolher os seus alunos as escolas privadas. Escolhem os seus alunos, mesmo que indevidamente e só parcialmente, algumas escolas públicas. Se uma escola puder escolher apenas, ou maioritariamente, bons alunos, só sendo muito má não terá mais alunos com melhores notas nos exames do que as escolas que não seleccionam à entrada.
2. As condições de partida dos alunos também contam: quando o contexto socioeconómico é mais desfavorável, a escola tem que ser muito melhor do que as escolas em contexto favorável para ter alunos com as mesmas boas classificações. E se a comparação for com escolas em bom contexto que podem ainda seleccionar os alunos à entrada, então não terá que ser melhor, mas muito melhor. Em rigor, uma escola pública com resultados um pouco piores do que as melhores privadas pode ser melhor do que estas se não seleccionar apenas bons alunos e se estiver inserida em meio socioeconómico desfavorecido.
3. Posto isto, num ponto João Miranda (aqui, ou aqui) tem razão: “A desculpa do ‘contexto sócio-económico’ é também um reconhecimento de que a escola pública não tem qualquer efeito relevante nos alunos. O que é determinante para o sucesso escolar é o ‘contexto sócio-económico’”.
4. Só faz sentido a defesa da escola pública se a esta for atribuído o objectivo de contrariar o “contexto”. Capitular perante os factores sociais do insucesso escolar é desistir da escola pública. Ter em conta o “contexto” é fundamental para (i) identificar os obstáculos à aprendizagem que devem ser superados, (ii) discriminar positivamente as escolas que precisam de mais recursos para contrariar o “contexto” e (iii) avaliar o valor acrescentado de cada escola em função das características dos seus alunos à partida (que se pressupõe serem diferentes, para melhor, à chegada) .
5. Se as listas de escolas ordenadas em função da média das notas dos seus alunos nos exames dizem pouco sobre a qualidade relativa de cada escola, os resultados absolutos dos alunos nos exames dizem muito sobre a necessidade de continuar a melhorar a escola pública. Não o reconhecer, e usar o “contexto” como desculpa, é o melhor serviço que se pode prestar a João Miranda e à sua guerra ao Estado social.
6. A escola tem que contar, e tem que contar contra o contexto.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
08:01
1. Em 2008, havia mais de cinco mil quilómetros de linha de alta velocidade na União Europeia (5.764 km para sermos mais precisos), distribuídos por seis países: França (1.893 km), Espanha (1.594 km), Alemanha (1.300 km), Itália (744 km), Bélgica (120 km) e Reino Unido (113 km). Na mesma data, estavam em construção mais 2.352 km de vias de alta velocidade, 45% das quais na Alemanha e 31% em Espanha. A Holanda integrou entretanto o espaço da alta velocidade com a abertura, este ano, da linha entre Amesterdão e a fronteira belga (120 km).
2. Até 2012, deverão estar concluídos os novos 734 km de via de alta velocidade em construção em Espanha, ampliando não só as ligações internas como as ligações a França e, assim, à rede europeia, quer a Norte (via País Basco) quer a Sul (via Catalunha, esta com conclusão prevista ainda para este ano). Até 2012, Portugal verá pois reforçado o seu estatuto periférico na Península Ibérica, situação que poderá ser de longa duração, se continuarmos a adiar o TGV, ou temporária, se o mesmo desemburrar de vez.
3. Em muitas dessas linhas, os comboios de alta velocidade farão várias paragens, ao contrário do mito nacional da impossibilidade de rentabilidade da alta velocidade com escalas. Como, aliás, já o fazem hoje, em especial na Alemanha: é só experimentar viajar no ICE. Em todas elas, as taxas de utilização crescerão rapidamente como cresceram no passado: em 2007, 60% dos utilizadores da ferrovia em França viajaram em comboios de alta velocidade, e 28% em Espanha e na Alemanha. Caso típico de uma oferta que cria novas procuras antes desconhecidas.
4. Há, porém, quem teime em pensar ser a alta velocidade inviável por recusar a possibilidade de o futuro poder ser radicalmente diferente do presente e, portanto, impossível de extrapolar a partir da observação das tendências actuais. Típico do pensamento conservador.
[Fonte dos dados usados: European Commission (2009), EU Energy and Transport in Figures: Statistical Pocketbook 2009, Luxemburgo, Office for Official Publications of the European Communities, pp. 124 e 150].
Inserido por
Rui Pena Pires
às
09:00
1. José Manuel Fernandes confessa incapacidade de auto-regulação dos média
No suplemento de sábado do Público dedicado aos rankings, José Manuel Fernandes lamenta-se uma vez mais do fim do embargo dos dados sobre os resultados dos exames decidido pelo Ministério da Educação. Razão? Segundo o próprio, “desta forma […] tem-se assistido a uma corrida para ver quem divulga primeiro os rankings, o que impede a maioria dos órgãos de informação de tratar as bases de dados com tempo e ponderação.” Isto ao sábado, claro, pois nos outros dias da semana José Manuel Fernandes proclama como princípio absoluto a auto-regulação dos média, denunciado como repugnante toda a tentativa de regulação por entidades externas (sobretudo se estatais).
2. De como fazer jornalismo dispensando a factualidade
Citação do Expresso (última página do caderno principal): “Sem direito a foto de família (os contemplados com o bilhete de saída não devem estar com grande ânimo para o sorriso da praxe), o primeiro-ministro José Sócrates reuniu ontem todos os ministros do Governo cessante para um almoço reservado em Belém, na residência oficial do chefe do Governo.” No mesmo dia (sábado), o DN publicava não uma mas duas “fotos de família”, a primeira na capa, mais informal, a segunda no interior, em pose mais institucional. Facto irrelevante, pois a ser tido em conta não permitiria que quem escreveu a caixa do Expresso fizesse passar opinião por notícia e preconceito por interpretação.
Inserido por
Rui Pena Pires
às
11:00